Skip to main content
Internet Archive's 25th Anniversary Logo

Full text of "Viagens na minha terra"

See other formats


Google 



This is a digital copy of a book that was preserved for generations on Hbrary shelves before it was carefully scanned by Google as part of a project 

to make the world's books discoverable online. 

It has survived long enough for the copyright to expire and the book to enter the public domain. A public domain book is one that was never subject 

to copyright or whose legal copyright term has expired. Whether a book is in the public domain may vary country to country. Public domain books 

are our gateways to the past, representing a wealth of history, culture and knowledge that's often difficult to discover. 

Marks, notations and other maiginalia present in the original volume will appear in this file - a reminder of this book's long journey from the 

publisher to a library and finally to you. 

Usage guidelines 

Google is proud to partner with libraries to digitize public domain materials and make them widely accessible. Public domain books belong to the 
public and we are merely their custodians. Nevertheless, this work is expensive, so in order to keep providing this resource, we liave taken steps to 
prevent abuse by commercial parties, including placing technical restrictions on automated querying. 
We also ask that you: 

+ Make non-commercial use of the files We designed Google Book Search for use by individuals, and we request that you use these files for 
personal, non-commercial purposes. 

+ Refrain fivm automated querying Do not send automated queries of any sort to Google's system: If you are conducting research on machine 
translation, optical character recognition or other areas where access to a large amount of text is helpful, please contact us. We encourage the 
use of public domain materials for these purposes and may be able to help. 

+ Maintain attributionTht GoogXt "watermark" you see on each file is essential for informing people about this project and helping them find 
additional materials through Google Book Search. Please do not remove it. 

+ Keep it legal Whatever your use, remember that you are responsible for ensuring that what you are doing is legal. Do not assume that just 
because we believe a book is in the public domain for users in the United States, that the work is also in the public domain for users in other 
countries. Whether a book is still in copyright varies from country to country, and we can't offer guidance on whether any specific use of 
any specific book is allowed. Please do not assume that a book's appearance in Google Book Search means it can be used in any manner 
anywhere in the world. Copyright infringement liabili^ can be quite severe. 

About Google Book Search 

Google's mission is to organize the world's information and to make it universally accessible and useful. Google Book Search helps readers 
discover the world's books while helping authors and publishers reach new audiences. You can search through the full text of this book on the web 

at |http : //books . google . com/| 



Google 



Esta e uma copia digital de um livro que foi preservado por gera^oes em prateleiras de bibliotecas ate ser cuidadosamente digitalizado 

pelo Google, como parte de um projeto que visa dispoiiibilizar livros do mundo todo na Internet. 

livro sobreviveu tempo suficiente para que os direitos autorais expirassem e ele se tornasse entao parte do dominio publico. Um livro 

de dominio publico e aquele que nunca esteve sujeito a direitos autorais ou cujos direitos autorais expiraram. A condi^ao de dominio 

publico de um livro pode variar de pais para pais. Os livros de dominio publico sac as nossas portas de acesso ao passado e representam 

uma grande riqueza hist6rica, cultural e de conhecimentos, nonnalmente dificeis de serem descobertos. 

As marcas, observances e outras notas nas margens do volume original aparecerao neste arquivo um reflexo da longa Jornada pela qiial 

o livro passou: do editor h biblioteca, e finalmente atfe voce. 



Diretrizes de uso 

Google se orgulha de realizar parcerias com bibliotecas para digitalizar materiais de dominio publico e torna-los amplamente acesslveis, 
Os livros de dominio publico pertencem ao publico, e nos meramente os preservamos. No entanto, esse trabalho e dispendioso; sendo 
assim, para continuar a oferecer este recurso, formulamos algumas etapas visando evitar o abuso por partes comerciais, incluindo o 
estabelecimento de restri^oes t^cnicas nas consultas automatizadas. 
Pedimos que voc^: 

• Faga somente uso nao coniorcial dos arquivos. 

A Pesquisa de Livros do Google foi projetada pjira o uso individual, e nos solicitamos que vocS use estes arquivos para fins 
pessoais e nao comerciais. 

• Evite consultas automatizadas. 

Nao envie consultas automatizadas de qualquer especie ao sistema do Google. Se voc6 estiver realizando pesquisas sobre tradugao 
automatica, reconhecimento otico de caracteres ou outras areas para as quEus o acesso a uma grande quaiitidade de texto for litil, 
entre em contato conosco. Incentivamos o uso de materiais de dominio publico para esses fins e talvez possamos ajudar. 

• Mantenha a atribuigao. 

A "marca d&gua" que voc^ v§ em cada um dos arquivos 6 csscncial para inforniar aa possoas sobrc ostc projoto c ajudA-las a 
cncontrar outros materiais atrav^s da Pesquisa de Livros do Google. Nao a rcmova. 

• Mantenha os padroes legais. 

Independentemente do que voc& usar, tenha em mente que 6 respons&vel por garantir que o que est& fazendo esteja dentro da lei. 
Nao presuma que, so porque acreditamos que um livro e de dominio publico para os usuarios dos Estados Unidos, a obra sera de 
dominio publico para usuarios de outros paises. A condigao dos direitos autorais de um livro varia de pais para pais, e nos nao 
podemos oferecer orientagao sobre a permissao ou nao de determinado uso de um livro em especifico. Lembramos que o fato de 
o livro aparecer na Pesquisa de Livros do Google nao signiflca que ele pode ser usado de qualquer maneira em qualquer lugar do 
mundo. As consequSncias pela viola^ao de direitos autorais podem ser graves. 

Sobre a Pesquisa de Livros do Google 

A missao do Google ^ organizar as informagocs dc todo o mundo c torn4-las utcis c accssivcis. A Pesquisa dc Livros do Google ajuda 
OS leitores a descobrir livros do mundo todo ao m esmo tempo em que ajuda os autores e editores a alcan^ar novos piiblicos. Voce pode 
pesquisar o texto integral deste livro na web, em |http : //books . google . com/| 



p-ii-ry ijfi^/ 



%ti\t ^f rmtJ lW5*iJ*Jt 



Si£/ 





ha. Jfu/y cfi, ^/o-/ 



/ 




OBKAS 

BO 

YISCONDE DE ALMEIDA GARREH 

IX 

SEfiORSO DAS TUGEHS 



I 



>. \ 






4^ 



OBRAS COMPIETAS KJ 
VISCONDE DE ALMEIDA GARRETT 



THCATRO; 

Tomo I, OatSo. 

Tomoil, Merope, Gil-Vicente. 

Tomo III, Frei Luiz 4e Sonsa. 

Tomo IV, D, PhiUppa de Vilhena, Tio Simplioio, Pal- 

lar verdade a mentir. 
Tomo y, A Sobriulia do Marquez, As propheoias do 

Bandarra, Urn noivado no Daftindo, 
Tomo YI, O Alfagreme de Santarem. 

VKR808: 

OamSee. 
D. Branoa, 
Lyrioa, 

Fabnlas, Folhas oaMdas. 
Flores sem fruoto. 
Romanoeiro -- 3 vol. 

O Betrato de Venug, precedido de Qm ensaio sobre a his- 
toria da lingna e da poesia portugueza. 

PROSA: 

Viagens na Minha Terra— 2 vol. 

Arco de Sanot'Anna— 2 vol. 

Portagal na balan^a da Enropa. 

Tractado de EduoaQao. 

Helena (romaDce). 

Disoursos parlamentares, Memorias biographioas. 

E9oriptoB diver SOS. 



\5A6EN8 



NA 



MINHA TERRA 



PSLO 



mCONDI n A1MEIDA-6ARRETT 

y^ II 



SEXTA EDigiO 



LISBOA 

lUPRENSA NACIONAL 

i883 



^ 



ci^^ ^m^ 




/^. 



< * w 



-f'. 
*^>. 



<^/f 



6 



•t T 






^6'UlVDAl\0^^ 



VIAGENS U MINHA TERRA 



CAPITULOXXVI 

Hodo de ler os auctores antigos e 08 modernos tambem.-* 
Horacio na sacra- via. — Duarte Nunes ieonoclasta danos* 
sa historia. — A policia e os barcos de vapor — Os vanda* 
Ids do feliz syslema quo dos rege* — Shakespeare lido cm 
Inglaterra a urn bom fogo, com um copo de old-sack s6- 
bre a banca. — Sir John Falstaff se foi maiorbomem que 
Sancho Panca? — Grande e imporlante descuberta ar- 
cheologica 8<)bre San'Thiago, San'Jorge e Sir John Fal- 

^ slafT. — Prdva-se a vinda d'este ultimo a Portugal. — 
iDthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard 
no P6re-]a- Chaise. — Bentbam e Camoes. — Chega o au<- 
ctor d sua janella; e pasmosa miragem poetica produzida 
per umas oitavas dos Lusiadas. — De como emfim prose- 
guem ^stas yiagens para Santarem, e que feiio serd de 
Joanninha. 

Se eu Tor algura dia a Roma, heide entrar na 
cidade eternacom o meu Tito-Livio e omeu Ta- 
cito nas algibeiras do meu paleto de viagem. 
kWij sentado n'aqaellas ruinas immorlaes, sei 



6 VIA6ENS 

que heide intender melbor a sua historia, que o 
texto dos grandes escriptores se me hade illus- 
trar com os monumentos d'arte que os viram es- 
crever, e que unsrecordam, oulros presencJaram 
OS feitds iiiemoraveis, o progresso e^ decaden- 
cia d'aquella civilizacao pasmosa. 

E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu 
velho e fiel amigo Boracio ! . . . Deve ser um pr a^ 
zer regie- ir lendo pela sacra-via Tora aquella de- 
liciosa satyra, creio que a notia do liv. i^ 

ibam forte sacra via, gicut mous est mos, 
Nescio quid meditans nugarum . . * 

Deve sef maior pra«dr ainda, riiuilb hialor do 
que beijar o pe ao papa. Parece-me a mim; liias 
como eu nunca fui a lloma « . . 

B 1150 A preciso. Pegu6 qualquer na bSlla chro- 
nica d*el-rei D.Fernando, a que DuaHe Nunes 
ttienos estragou . . « 

Duarte Nunes foi um reforniadof iconoclaslA 
dd9 nossas chronicas antigas, truncbii todas ai 
imageud, raspou toddi a pbeiftia d'nqueUad vebe- 



NA MINHA TERRA 7 

randas e deliciosas sugas poi^tttguez^s . . . £tii 
ponto historico pouto mails eram do que ^d§as^ 
verdade seja, mas como taes, lindas. E o Duarte 
Nunes, que era um pobre grammaticSo sem gosto 
nem graca, foi-se as lilagrauas e atrendadbs de 
finissimo lavor gothico d'aquelles moHumentos, 
quebrou-lh*ds; ficaram so os trafos historicos 
que eram muito pouca e muito incerla coisa; e 
cuidou que tinha arranjado uma hist6ria, tendo 
apeiias destruido um poema. Ficimos sem Nie- 
belungen, podendo-o ter, e nSo obtiVeihos his- 
toria porque se n^o podia obler assim. 

Pois digo : pegue qUalquer na bella chronica 
d*elrei D. Fernatido, obedeca a lei concorrendo 
com seu cruiado-novo para o augmento e gloria 
da benemeirita companhia que tern o exclusivo 
d'esses caranguejos de vapor que andam e de- 
sandam no rio, enlre n'um dos referidos caran- 
guejos, eoi (Jue, alem da porcaria 6 mau-cheiro, 
n8o ha perigo nenhurii senao 6 de rebentar toda 
aquella cartjara-bptica que Anda por arames, e 
que em qualquer paiz civilizado onde a policia 
fizesse alguma coisa mais do que imaginar cons- 
piracies, ha muito eslaria condemnada a ir alii 
caranguejar para as Lamas a sua vontade. Mas 



9 VIAGEN8 

emfim ca nao ha d'outfos nem havera tarn cedo, 
gramas ao muito que agora, dizem, que se cuida 
DOS interesses materiaes do paiz : eportanto tome 
seu logar, passe o mesmo que eu passei ; che- 
gue-me a Saotarem, descance e ponha-se-me a 
ler a chronica: vera se nao e outra coisa, vera 
se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda 
mutiladas, deformadas como ellas estao por tan- 
tos e tam successivos barbaros, estragadas em- 
fim pelos peiores e mais vandalos de todos os 
vandalos, as auctoridades administrativas e mu- 
nicipaes do feliz systema que nos rege, ainda 
assim mesmo nao ve erguer-se deante de seus 
olhos OS homenSy as scenas dos tempos que fo- 
ram ; se nao ouve fallar as pedras, bradar as in- 
scrip^oes, levantar-se as estatuas dos lumulos ; e 
reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a 
poesia d'aquellas edades maravilhosas ! 

Tenho-o experimentado muitas vezes: e in- 
fallivel. Nunca tinha intendido Shakespeare em 
quanto o nao li em Warwick, aop6 do Avon, de- 
baixo de um carvalho secular, a luz d'aquelle sol 
ba^o e branco do nublado ceo d 'Albion. . . ou a 
noite com os pes no fender, a chaleira a ferver 
no fogao, e sobre a banca o crystal antigo de 



NA IIINHA TEIIBA 9 

• 

urn bom copo lapidado a luzir-me alambreado 
com OS doces e perfumados resplendores do old* 
sack; em quanto o Togao e os ponderosos casti- 
(aes de cobre brunido projectam no antigo tecto 
almofadado, nos pardos compartimentos de car- 
yalho que forram o apposento, aquellas fortes 
sombras vacillantes de que as velbas fazem visoes 
e almas-do-outro-mundo, de que os poctas — 
poetas como Shakespeare — fazem sombras de 
BancOy bruxas de Mackbethy e ate a rotunda 
panya e o arrastante espadagSo do meu particu- 
lar amigo Sir John Falstaff, o inventor das iegiti* 
mas conseqnencias, o fundador da grande es- 
chola dos restauradores caturras, dos poltroes 
pugnazes qae salvam a patria de parolla e que 
ninguem os atura em tendo as costas quentes. 

Oh Falstaff, Falstaff I eu nSo sei se tu cs maior 
homem que Sancho Panga. Creio que nao. Mas 
maior panga tens, mais capacidade na pan^a tens. 
Quando nossos avos renegaram de SanThiago 
por castelhano perro, e invocaram a San' Jorge, 
tu vieste, 6 FalstalT, em sua comitiva de Ingla- 
terra, e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e fos* 
te patriarcha d'essa immensa progenie de Fal- 
staffs que por ahi anda. 



10 viAOfiivs 

Este importante ponto iA nossd hiistdria, da 
dehiissao de SanThiago e da vinda de San'Jotge 
de Inglaterra com Sir John Falstaflf per seu ho- 
m«m-rf^-^«rro— 6sta grande descoberla archeo- 
l(^ica que tanta coisa modema explica, como a 
(iz eu? Indo aos sitios mesoioS) estudando alli 
OS antigos exemplares: que is a minha doutrina. 

£fn tudo, para tudo 6 asdim. Chegou um dia 
um inglez a Paris : uth inglez legitimo e cru, 
virgem de toda a corrupcao conlinental : calca 
de ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, cha- 
peu fillado na eova-doiadrao. Era inthusiasta 
de Heloisa e Abeillard, foi-se ao Pfere-la Chaise, 
chegou ao tumulo dos dois atloantes, tirou um 
livrinho da algibeira, pds-se a ler aquellds car- 
las do Paracleto que iSem indoidecido muito me- 
nos excentricas cabecag que a do tneu inglez 
puro-sangue. NSo 6 nada ; excilou-se a tal ponto 
que ^ntrou a correr como um perdido, btadatido 
por um conego da s6 que Ihe acudisse, que se 
queria identificar com o seu modfilo, purificar a 
sua paixao, ser emfim um completo— oU um in- 
completo Abeillard. 

£u nao sou susceptivet de iammanho enthu* 



NA MINHA TfeRRA 11 

m9XM\ sdbr«t«do d^sde iiti^ dei a liiibht demis- 
s§o de poeta e cahi ha p^sa. Mas aqUi teiti o 
que me succedea o outro dia. Tinha estado as 
YOllas com meu Bentham, que i um grande 
homem por fim de contas o tal quaker, e s96 
grandes livros os que elle escreveu: ctdyou-me 
a cabe^a, peguei no Camoes e fui para a janella. 
As minhas jatiellas agora s3o as primeiras janel- 
las dc Lisboa, dao em cbeio por todo esse Tejo. 
Era uroa d'estas brilhantes manhans d'hvnverno, 
come as nSo ha senSo em Lisboa. Abri os Lu- 
siadas a ventura, deparei com o canto lY e puz- 
me a ler aquellas beliissimas estancias 

E ja no porio da I'Aclyta Ulyssea. . . 

Pouco a pouco amolinou-se-me o sangue, senli 
batlerem-me as arterias da fVonte ... as I^ttras 
fugiam-me do livro, ievaniei os olhos, dei com 
eiies na pobre nau Yasco-da-6ama que ahi estd 
em monumento-caricatura da nossa gloria tia* 
val. . . E eu nao ti nada d*isis6, vi b Tejo, vi a 
bandeira portugue^a fluctuando com a brisa da 
manhau, a torre de Belem ao longe . . . e sonhei, 
sonhei que era pdrtoguet) que Portugal era oii^ 
tra Vi^ Po^tdgaL 



\i VUG£N8 

Tal fdrga deu o prestigio da scena is inoiagens 
que aquelles versos evocavami 

Senao quando, a nau que salva a uns escale- 
res que chegam ... Era o ministro da mariDha 
que ia a bordo. 

Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui 
tractar das minhas camelias. 

Andei trez dias com odio a lettra-redonda. 

Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo 
isto para as minhas viagens ou para o episodio 
do valle de Santarem em que ha tantos capitu- 
los nos temos demorado ? 

Yem e vem muito : vem para mostrnr que a his- 
toria lida ou contada nos proprios silios em que 
se passou, tern outra gra^a e outra lor^a ; vem 
para te eu dar o motivo por que n'eslas minhas 
viagens, leitor amigo, me fiquei parado n'aquel- 
le valle a ouvir do meu companheiro de Jornada, 
e a escrever para teu aproveitamento, a interes- 
sante historia da menina dos rouxinoes, da me- 
nina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha. 



NA MINUA TEBRA 13 

Sim, aqui tenho estado extendido no chSo, as 
mulinhag pastando na relva, os arrieiros fuju- 
mando tranqaillameute sentados, e as lUtiniiBis 
boras de uma loDga e calmosa tarde de julho a 
cabir e a refrescar com a aragem precursora da 
noite. 

Mas basta de valle, que e tarde. Oh, la I ve- 
nham as mulinbas e mont£mos. Picar para San- 
tarem, que no inclyto alcazar d'el-rei D. Affonso- 
Henriques nos espera um bom jantar d'amigo— 
e nao e so a vacca e riso de F. Bartholomeu 
dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'ami- 
go, muito menos austere e muito mais risonho, 

— *Por quft? ja se acabou a historia de Car- 
los e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora. 

— 'Nao, minha senbora/ responde o auctor 
mui lisongeado da pergunta: 'nao, minba se- 
nhora, a historia nSo acabou, quasi se p6de di- 
zer que ainda el la agora come^a; mas bouve 
muta^ao de scena. Yamos a Santarem, que la 
se passa o segundo acto/ 



CAPITDIO XXVII 



Cbegada a Santarem. — Oliyaes de SaDtarem. — F6ra-de-! 
Villa.— Symetria que n3o 6 para os olhos. — Modo de me- 
dir OS versos da biblia. — Architectura pedante do seculo 
lYII. Entrada na AMcoya. 



Eram as liltimas boras do dia quando chega- 
vc^B ao pruDbciiHo da eal^ada q^^ (ova aQ ^liq de 
S^Qtarem. A. (^uc^ frequeiicia do |K)^Qi fts horiasi 
e pom^re^ i^al cujtiYadoSi as casasi 4^ c^ii^pQ ar- 



16 YUGBNS 

ruinadas, tudo indicava as vizinhan^as de uma 
grande povoa^ao descahida e desamparada. 
mais bello comtudo de seus ornatos e glorias 
suburbanas, ainda o possue a nobre villa, nao 
Ih'o destruiram de todo; sSo os seus olivaes. Os 
olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura 
proverbial e uma das nossas cren^as populares 
mais geraes e mais queridas I . . . os olivaes de 
Santarem la estao ainda. Reconbeceu-os o meu 
cora^ao e alegrou-se de os ver ; saudei n'elles o 
symbolo patriarchal da nossa antiga existencia. 
N'aquelles troncos veihos e coroados de verdura, 
figurou-se-roe ver, como nas selvas incantadas 
do Tasso, as venerandas imagens de nossos pas- 
sados ; e no murmurio das folbas que o vento agi- 
tava a espagos, ouvir o triste suspirar de seus la- 
mentos pela vergonhosa degeneragao dos ne- 
tos... 

Estragado como os outros, profanado como 
todos, olival de Santarem e ainda um monu- 
mento. 

Os povos do meio-dia, infelizmente, nao pro- 
fessam com o mesmo respeito e austeridade 
aquella religiSo dos bosques, tarn sagrada para 



NA mNHA TBRRA 17 

tf nasSeft do norte. Os olivaes de Saiitarem 9io 
eic^{ao : ba muito pouco entre nos o culto das 
arforaa. 

Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impi- 
nada ladeira— eu alvoro?ado e impaciente por 
me achar face a face com aquella profusSo de 
monumentos e de ruinas que a imagina^So me 
tinha figurado e que ora temia, ora desejavacom- 
parar com a realidade. 

Chegaifios eipfim ao alto ; g fn^jisstosa entra* 
da da graB4^ Yi}la esta deante de mifp. Nao me 
ingano^ a iffidgina; ^o . . * grandipsa § noagnifica 
scen^ I 

Pdra-de'Villa 6 urn vasto largo, irregular e 
caprichose como urn poema romantico; ao pri* 
meiro aspecto, aquella hora tardia e de ponca 
luz, 6 de urn effeito admiravel e sublime. Pala- 
cios, conveatos, egrejas occupam gravemente 
e tristemente os seus antigos logares, infjleira<p 
dog S0m pr^iem aos lados d'aquelia immensa 
pra^a, em que a vista dos olhos nis acha sy» 
metria alguma ; mas sente-se n'alma. £ eamo o 



18 YIAGBNS 

rhythmo e medigao dos grandes vjersos biblicos 
que se nao cadenceiam por pes nem por sylla- 
bas, mas cahem certos no espirito e na audipao 
interior com uma regularidade admiravel. 

£ tudo deserto, tudo silencioso, mudo, mor- 
to ! Cuida-se entrar na grande metropole de um 
povo extincto, de uma nagao que foi poderosa 
e celebrada, mas que desappareceu da face da 
terra e so deixou o monumento de suas con* 
8truc(5es gigantescas. 

k esquerda o immenso convento do Sitio ou 
de Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Do- 
mingos, celebre pelo jazigo do nosso Fausto por- 
tuguez r-seja ditto sem irreverencia a memo- 
ria de San'Frei Gil que, e verdade, vein a ser 
grande sancto, mas que primeiro foi grande 
bruxo. — Defronte o antiquissimo mosteiro das 
Claras, e aope as baixas arcadas gothicas de 
SanTrancisco . . . de cujo ultimo guardiao, o 
austero Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo 
leitor, e tantas mais tenho ainda para te con* 
tar! A direita o grandioso ediiicio philippino, 
perreito exemplar da massissa e pedante archi- 
tectura reaccionaria do seculo dezesette, q Col- 



NA ItlNHA TERRA 10 

legio; typo largo e bello no seu genero, e quanto 
sea genero p6de ser, das construcooes jesui- 
ticas . . . 

Nao ha alma, ndo hagenio, nao ha espirito 
n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem 
simplicidade ; inas ha uma certa grandeza que 
impoe, uma solidez travada, uma symetria de 
calculo, umas proporcoes frias, mas bem assen- 
tadas e esquadriadas com methodo que revelam 
pensamento do seculo e do instituto que tanto 
cbaracterizou. 

N§o s§o as fortes cren^as da meia-edade que 
se elevam no arco agudo da ogiva; nao e a re- 
laxagao florida do seculo quinze e dezeseis que 
ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre 
mystico ideal do christianismo que arrefece 
e OS symbolos materiaes do paganismo que acor- 
da; nao, aqui a renascenca triumphou, e depois 
de triumphar, degenerou. £ a inquisi^ao, sao 
OS Jesuitas, sao os Pbilippes, e a reac^ao catho- 
lica edificando templos para que se creia e se 
ore, nao porque se cr6 e se ora. 

Ate aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida 



|0 VUGEWS 

Q cq&veoto pram a expressio 4a idea pppolar, 
agora sao a formula do peosameuto goveroa* 
tivo. 

Alii estio — olhae para elles— defronte uns 
dos outros, OS monumeotos das duas religioes, 
qual mais p^pressivo e Ipquaz, dizeudo mais 
claro que os livros^ que os escriptos, q^e as tra* 
digoes, o peusaraeuto das edades que os ergue* 
ram, e que alii os deja^aram gravados sem saber 
que faziam. 

Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, 
aquella massa uegra ^ o resto ainda suberbo do 
ja immens9 palacio dos coudes de Uiihao. 

fiodeamos o largo e fomos entrar em Marvil* 
la pelo lado do norte. Estamos dentro dos mu- 
ros da antiga Sautarem. Tam magoifica e a eu- 
trada, tapt mesquinho 6 agora tudo ca deptro, 
a maior parte d'estas casas velbas sem serem 
autigas, d'estas ruas moiriscas sem nada de ara? 
be, sem meaof vestjgio de sua origem mais 
que a estreiteza e pouco aceio. 

As egrejas quasi todas por&m, as muralbas e 



fik MtNHA TEBBA 21 

OS bastioes, algumas das portas, e poucas habi- 
tacoes particulares, conservam bastante da phy- 
sioDomia antiga e fazem esquecer a vulgarida* 
de do resto. 

Seguiraos a triste e pobre rua Direita, centre 
do debit commercio que ainda aqui ha: poucas 
e mal providas logeas, quasi nenhum movimen- 
to. Ca esla a curiosa tdrre das Cabacas, a ve- 
Iha egreja de San'Joao-de-AIporao. Amanhan 
iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora va- 
mos a Alcacova! 

Entramos a porta da antiga cidadella.— Que 
espantosa e desgraciosa confusao de intulhos, 
de pedras, de niontes de terra e callissa! Nao 
ha ruas, nao ha caminhos, e ura labyrinto dc 
ruinas feias e torpes. nosso destino, a casa 
do nosso amigo e aop^ mesmo da famosa e his- 
torica egreja de Sancta Maria da Alcagova.— 
Bade custar a acbar em tanta confusao 



CAPITDLO XXVin 

Dcpois de muito procurar acha emOm o auctor a egreja de 
Sancta-Maria d'AIcacova. — Stylo da architectura nacio- 
nal perdido. — terremoto de 1755, o marqaez de Pom- 
bal 6 chafariz do passcio-piiblico de Lisboa. — chefe 
do partido progressista portaguez no alcacar de D. Affonso 
Henriques. — Deliciosa vista dos arredores de Santarem 
obsenrada dc uma janella da Alcacoya, de manhan. — E 
tornado o auctor de ideias yagas, poeticas, phanlasticas 
como um sonho. — IntroduccSo do Fausto. — Difficuldade 
de traduzir os yersos germanicos nos nossos dialectos ro- 
manos. 

Depots de muito procurar entre pardieiros e 
intulhos, achamo-la emfim a egreja de Sancta- 
Maria d'Alca^ova. Achamos, nao e exacto: ao 
meuos eu, por mira, nunca a achava, nem que- 



24 VIAGENS 

ria accreditar que fosse ella quando m'a mostra- 
ram. A real collegiada de AflTonso HeDriques, a 
quasi-cathedral da primeira villa do reino, urn 
dos principaes, dos mais antigos, dos mais his- 
loricos templos de Portugal, isto? . . . esse egre- 
jorio iusignificaute de capuchos? mesquinha e 
ridicula massa d'alveuaria, sem nenhuma archi- 
tectura, sem nenhum gosto ! risco, execufao e 
trabalho de um mestre pedreiro d'aldeia e do 
seu apprendiz! E impossivel. 

Mas era, era essa. A antiga capella-real, a 
veneranda egt^ja da Alcafova foi passandd por 
successivos reparos e transformacoes, ate que 
ciiegou a esta miseria. 

Perverteu-se por tal arte o g6slo entre nos 
desde o meio do seculo passado especialraente, 
OS estragos do terremoto grande quebraram por 
tal modo o fio de todas as tradi^es da archite- 
ctura nacional, que na Europa, no muudo todo 
talvez se nao ache um paiz onde, a par de tam 
bellos i&ODumentos autigos como os nossos, se 
incontrem tam Tillans, tam ridieulas e absurdas 
constrac(oes pfiblicas como essas qudiai todas 
que ha um seoulo se faisem em Portugal. 



NA MUfBA TERRA 8B 

Nos reparos 6 r^eonstruef $es dos iemplos an- 
tigos e que esle pessimo stylo, esta ausencia de 
todo stylo, de toda a arte mais ofTende e escan- 
dalisa. 

Olhem a^tlella iitip^bft cksdlcsi ^osta d^ tH^ 
mate ao frontispicio todo renascen^a da Concei- 
fao-velha em Llfibdtt. Yfejaifl k impldi^tageni de 
gego com que estao mascarados os elegantes 
MtibB dd columnas gothicas da nossa b6. 

Nao se p6de cahir mais baixo em ^rchitectiira 
do que nos cahimos quando, depois que o mar- 
quez de Pombal nos traduziu, em vulgar e ar- 
rastada prosa, os rococos de Luiz XV, que no 
original, pelo menos, eram floridos, recortados, 
caprichosos e galantes comb um madrigal, esse 
stylo bastardo, hybrido, degcnerando progres- 
sivamente e tomando presumpgoes de classico, 
chegou nos nossos dias at6 ao chafariz do pas- 
seio-piiblicol 

Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Al* 
ca^ova tambem ; entremos nos palaeiod de D . 
AffoBso Henriques^ 



26 VlAGfiNB 

Aqui, pegado com o pardieiro rebocado da 
capella h9ode ser. Por onde se entra? 

Por esta portinha estreita e baixa, rasgada^ 
hem se ve que ha poucos annos, no que parece 
muro de urn quintal ou de urn pateo. 

E comeffeito aqui; apeemo'-nos. 

Recebeu-nos com os bra$os abertos o nosso 
bom e sincere amigo, actual possuidor e habi- 
tante do regio alcacar, o Sr. M. P. 

Notavel combinacao do acaso ! Que o illuslre 
e venerado chefe do partido progressista em 
Portugal, que o homem de mais sinceras convic- 
goes democraticas, e que mais sinceramente as 
combina com o respeito e adhesao as formas 
monarchicas, esse homem, vindo do Miuho, do 
ber(.o da dynastia e da nagao, viesse fixar aqui 
a sua residencia no alcacar do nosso primeiro 
rei, conquistado pela sua espada n'um dos fei- 
tos mais insignes d'aquella era de prodigios ! 

Entramos na pequena horta em forma de 
claustro que une a antiga casa dos reis com a 



NA Mif)BA tfiRRA S7 

sua capella. Assim foi sem diivida n'outro tern''* 
po : a parede oriental da egreja e o muro do 
quintal de urn lado, mas as conununica$5es fo* 
ram vedadas provavelmente quando a coroa alie* 
nou palacio e o separou assim perpetuamente 
do templo. 

Plantada de larangeiras antigas, os muros 
forrados de limoeiros e parreiras, aquella pe- 
quena c6rca, apezar dos rouitos canteiros e ale- 
gretes de alvenaria com que esta moirescamen- 
tc intulhada, e amena e graciosa a vista. 

Apprescntou-nos o nosso amigo a sua mulher, 
senbora de porte gentil e grave; beijamos seus 
lindos filhos, e fomos fazer as ablu^oes indispen- 
saveis depois de tal Jornada para nos podermos 
sentar a mesa. 

palacio de Affonso Henriques esta como a 
sua capella: nem o mais leve, nem o mais apa- 
gado vestigio da antiga origem. Sabe-se que 6 
alii pela bem confrontada e inquestionavel topo- 
graphia dos logares, por mais nada . . . 

E que me importam a mim agora as antigui- 



28 YIA6BN8 

dade»^ as ruinas e as demoli(des, quando eu 
sinto demolir-me ca par dentro per uina fomo 
exasperada e destruidora, uma fome yandalica^ 
insaciavei I 

Vamos a jantar. 

CkMu^moft^ cODversafflos^ tomamos cha, torna- 
mos a conversar e torDamos a comer. Yieranl 
visitas, fallou-se political faIlou*se iitteratura^ 
fallou-se de Santarem sdbretudO) das suas rui- 
nas, da sua grandeza antiga^ da sua desgra^a 
presente. Emfim, fomo*-nos deitar. 

Nunca dormi tarn regalado somno em minha 
vida* Acordei no outro dia ao repicar incessan- 
te e appressurado dos sinos da Alca^ova. Sallei 
da cama, Tui a janella, c dei com o mais bello, o 
mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais ame- 
no quadro em que ainda puz os meus olhos. 

No fundo de um largo valle aprazivel e sere- 
nOf esta o socegado leito do Tejo, cuja areia 
ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua 
juncto as margens, d'onde se debrucam verdes 
e frescos ainda os salgueiros que as ornam e de- 



NA UmUk IBRBA 10 

fendem. D'allm do rio, com m fts no piogiie 

Dateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos oli«- 
vedos d'AIpiar^a e Almeirim ; depots a villa de 
D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. 
D'aquem a immensa planicie ditta do Bocio, se- 
meada de casas, de aldeias, de bortas, de gru- 
pos de arvores sylvestres, de pomares. Mais 
para a raiz do monte em cujo cimo estou, o pi* 
cturesco bairro da Ribeira com as suas casas e 
as suas egrejas, tarn graciosas vistas d'aqui, a 
sua cruz de Saiicta Iria e as memorias rpmanes- 
cas do seu alfageme. 

Com OS olhos vagando por este quadro im- 
menso e formosissimo, a imagina^ao toqoava-me 
azas e fugia pelo vago infinito das regiCies ideaes. 
Recorda(5es de todos os tempos, peusamentos 
de todo genero me affluiara ao espirito, e me 
tinham como n'um sonho em que as imagens 
mais discordantes e disparatadas se succedem 
umas as outras. 

Mas eram todas melancbolicas, todas de sau- 
dade, neobuma de esperaoga I . . . 

Lembrarararmo aquelles vevsos de Goetbe, 



30 VIAOBNS 

aquelles sublimes e inimitaveis versos da intro* 
duccao do Fausto : 

Resurgis outra vez, vagas figuras, 
Yacillanles imagens que d turbada 
Yista accudieis d antes. £ heide agora 
Reter-Tos firme? Sioto eu ainda 
coracdo propenso a illusoes d'essas? 
E appertais tanto ! . . . Pois embora ! seja : 
Dominae, ja que em nevos^ e vapor leve 
Emtdrno a mim surgis. Sinto o meu seio 
Juvenilmente Ir^pido agitar-se 
G*o a roaga exbalacSo que vos circumda. 
Trazeis-me a imagem de ditosos dias, 
E d'abi se ergue muita sombra amada : 
Gomo urn velbo cantar meio esquecido, 
Y^em OS primciros simplices amores 
E a amizade com elles. Reverdece 
A mdgoa, lamentando o errado curso 
Dos labyriatbos da perdida vida; 
E. ma esU Domeaodo os que trabidos 
Em boras bellas por fallaz veutura 
Antes do mim na estrada 8e sumiram. 



Nao me atrevo a pdr aqui o resto da minha 
infeliz traduccao: fiel 6 ella, mas nao tern outra 
merito. Quern pode traduzir taes versos, quern 
de uma lingua tarn vasta e livre hade passa-los 



NA MINUA TERRA 31 

para os nossos appertados e severos dialectos 
rofflanos?* 

«Traiificrevemo8 aqui o original allemSo, para se avaltar 
que fica dicto no texto. 

Ihr naht each wieder, schwankende Gestalten, 
Die fruh sich etost dem truben Blick gezeigt. 
Yersuch ich wohl euch diesmal fest zu halten? 
Fohr ich mein Herz noch jenem Wahn geneigt? 
Ihr drttngt euch zul nun gut, so mOgt ihr walten, 
Wie ihr aus Doust uud Nebel um mich sleigt ; 
Hein Bussen fohlt sicht jugendlich erschttttert 
Yom Zauberhauch, der euren Zug umwittert. 
Ihr hringt mit each die Bilder froher Tage, 
Und manche liebe Schatten steigen auf ; 
(jleich eiuer halbTerklungen Sage 
Kommt erste Lieh* and Freundfchaft mit herauf ; 
Der Schmerz wird neu, es wiederholt die klage 
Des lebeos labyrintisch irren Lauf, 
Und neDDt die Gaten, uad schOne Standen 
Yom Glack getHascht, Tor mir himveggescbwunden. 



I 



CAPITDLO XXK 

Docuras da vida.— ImaginacHo e sentimento. — Poelas quo 
morreram mocos e poetas que morreram velhos. — Gomo 
silo escriptas estas via gens. —-Li vro de pedra. Grianca que 
brinca com elle. — Ruinas e reparacdes. — Idea fixa do A. 
em coisas d'arte e litterarias. — Sancta Iria ou Irene, e 
Santarem.— Romance de Sancta Iria.- Quanlas sanctas 
ba em Portugal d'este nome? 

Este sonhar acordado, estc scismar poelico 
deante dos sublimes speclaculos da natureza, e 
dos prazeres grandes que Deus coiicedeu as al- 
mas de certa tempera . Doce e gosar assim » . 

3 



3i VU6ENS 

mas em que do^uras da vida nao predomina 
sempre o acido poderoso que estimula! Tirac- 
Ih'o, Gcaa insipidez; deixae-Ih'o, ulc^ra porfim 
OS orgaos: o goso e mais vivo porque a acgao 
de estimulo 6 mais sentida . . . mas a ulcera^ao 
cresce, o coraf ao esta em carne-viva . . . agora 
prazer 6 martyrio. 

Infeliz do que chegou a esse estado ! 

Bemaventurado o que pode graduar, ^omo 
Goethe, a doze d'amphyao que quer tomar, que 
poupa as sensacoes e a vida^ e economiza as po- 
tencias de sua alma! N'esses porSm e a imagi- 
na(So que domina, nao o sentimento. Byron, 
Schiller, Cam5es^ o Tasso morreram moyos; 
matou-os o corafao. Homero e Goethe, Sopho- 
cles e Voltaire acabaram de velhos; sustinha-os 
a imagina^ao, que nao despende vida porque 
dHo gasta sensibilidade. 

Imaginar ^ sonhar, dorme e repousa a vida 
ho entretanlo, seiitir e viver jlctivamentCj cari- 
da-a e condomme^a. 

Isto 6 6 que eu (iensara —porque nib pen^ 



Na MtNRA tEtlBA 3B 

sava em nada, divagava— em qttafito aquelles 
versos de Fausto me eslavnm na mcraoria, e 
aquella saudosa vista do Tejo e das suas mar* 
gens deante dos olhos. 

Isto petisava, isto edcrevo; isto tinha n'alma, 
isto vao no papei : que d'outro mode n9o sei es- , 
crever. 

Muito me p6za> leitor amigo, se outra coisa 
esperavfls das mitihas Viogend, se te falto, sem 
qucref, a promessas que julgaste ver n*esse 
titulo, mas que eu &fio flz decerto. Querias taU 
ve2 que te contasse^ marco a marco, as leguas 
da estrada? palmo a palmo, as alturas e larga* 
raB dos edificios? algarismo por algarismo, as 
datas de sua fuudaQao?que te resummis&e a his- 
torla de cada pedra, de cada ruina?. « . 

Vae-te ao padre Vasconcellos ; e quanto ha dc 
Santarem, peta e verdade, ahi o achafds em 
amplo folio e gorda lettra: eu nOo sei compor 
d'esses livros^ e quando soubesse, tcnho mais 
que fazer. 

So tenho peua de ttma coi^a; i de ser tam 



36~ VIAGBNS 

desestrado com o lapis na mao, porque em dois 
tragos d'elle te dizia muito mais e melhor do 
que em (anta palavra que porfim tarn pouco diz 
e tarn mal pinta. 

Santarem e um livro de pedra em que a mais 
mteressante e mais poetica parte das nossas chro- 
nicas csta escripta. Bicco de illuminuras, de re- 
cortados^de floroes, de imagens, de arabescos c 
arrendados primorosos, o livro era o mais bello 
e mais precioso de Portugal. Inquadernado em 
esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ri-> 
beiras, fechado a broches de bronze por suas for- 
tes muralhas gotbicas, o magnifico livro devia 
durar sempre em quanto a mao do Creador se nao 
extendesse para apagar as memorias da creatura i 

Mas 6sta Nioive nao foi destruida, esta Pom-* 
peia nSo Toi submergida por nenhuma catastro- 
phe grandiosa. povo de cuja historia ella 6 o 
livro, aioda existe; mas esse povo cahiu em ia- 
fancia, deram-lhe o livro para briacar, rasgou-o, 
mutilou-o, arrancou-lhe foiha a folha, e fez pa- 
pagaios e bonecas, fez carapu^os com ellas. 

Nao se descreve por outro modo o que esta 



NA HINHA TERRA 37 

gente cbamada gov^rno, chamada administra* 
$ao esta fa^endo e deixando fazer ha maiB de 
seculo em Santarem. 

As ruinas do tempo sao tristes mas bellas, as 
que as reyoIu$oes trazem, iicam marcadas com 
cnnbo solemne da historia. Mas as brutas de- 
gradacoes e as mais brutas repara^Des da igno- 
rancia, os mesquinbos concertos da arte parasy- 
ta, esses profanam, tiram todo o prestigio. 

Tal e a geral impressiio que me faz 6sta terra. 
Almocemos, que ja oico cbamar para isso, e ire- 
mos ver depois se me inganei. 

Ac almo(o a conyersa^ao veiu naturalmente 
a cabir no seu objecto mais obvio, Santarem. 
D. Affonso Henriques e os seus bravos, San*Frei 
Gil e Sancto-milagre, o Alfagerae e o Condes- 
lavel, eirei D. Fernando e a rainha D. Leonor, 
Camoes desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui 
nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi 
todas as grandes figuras da nossa bistoria pas- 
saram em revista. Porfim veiu Sancta Iria tam- 
bem, a madrinha e padroeira d'esta terra, cujo 
noma aqui fez esquecer o de romanos e celtas. 



38 VUQB1I8 

Quern tern uma idea fixa, em tudo a mette. 
A minba idea fixa em coisas de arte e littera- 
rias da nossa peninsula sao xacaras e romances 
populares. Ha um de Sancta Iria. 

Porque e a Sancta Iria da trova popular tarn 
differente da Sancta Iria das legendas monas- 
licas? 

A trova e ^sta, segundo agora a rectifiquei e 
appurei pela colla^ao de muitas e varias versoes 
provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, 
que em geral e a que mais se deve seguir^. 



Stando eu k janella co'a minha almofada, 
Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata ; 

Passa um cayalleiro, pedia pousada; 
Meu pae Ih'a negou : quanto me custava ! 

— ' Ja vem yindo a noite, 6 tav so a estrada . . . 
Senbor pae, d2o digam tal da nossa casa, 

Que a um cayalleiro que pede pousada 
Se fecha dsta porta k noite cerrada.' 

' Nas notas d Adozinda, vol. I do 'Romanceiro,' nota N, citei 
differentemente ^sta copla pela imperfeita lic(3o de um Ms. do Hi- 
nbo, unico que ti&ha & mac. 



NA HINHA TERRA 30 

Roguei e pedi-^maito Ihe peiaTal 
Hag eu tanto fiz que por fim deiiavn. 

Foi'lhe abrir a porta, mui conteote entrara; 
Ao lar leToi, logo bo aaseDtava. 

is mSof Ihe del agna, elie te lavava; 
Puz'lbe uma toalba, n'ella so Umpava. 

Poucas as palavrai , que mal me fellafa, 
Mai eu bem soDtia que elle me mirava. 

Fui a erguer os olhos, mal os leTantava, 
Os seus lindos olbos na terra os pregaya. 

Fai^lhe pdr a cea, muito bem-ceava; 
A cama Ihe fiz, n'ella se deitata. 

Dei-lhe as boas noites, nSo me replicaya: 
Tarn m& cortezia nunca a yi osadal 

La por meia noite que me eu suffocava, 
Sinto que me levam co'a a bOcca tapada. . 

Levam-me a cavallo, levam-me abra^da, 
Correodo, correndo sempre & desfilada. 

Sem abrir os olhos, yi quern me roubaya ; 
Gallri-me e chorei — elle nSo fallaya. 

Dalli muito looge que me perguntava 
Eu na minba terra como me chamaya. 



40 VIAGENS 

— *GbamaTam-me Iria, Iria a fidalga ; 
For aqai agora Iria, a cansada'.' 

Andando, andando, toda a noite andava; 
Li por madrogada que me atteDlava. . . 

Horas esquecidas commigo luclaya; 
Nam forca nam rogos, tudo Iba mancava. 

Tirou do alfange. . . alii ma matava, 
Abriu uma cova onde me ioterrava. 



No fin de gette aonos passa o cavalleiro, 
Uma linda ermida yia n*aqueUe pateiro. 

— ^Minha Sancta Iria, meu amor primeiro, 
Se me perdoares, serei teu romeiro/ 

— Tcrdoar nSo te heide, ladrSo carniceiro, 
Que me degollaste que nem um cordeiro/ 



Ou houve duas sanctas d'este nomc, amba3 
de aventurosa vida e que ambas deixassem lon- 
ga e profunda memoria de sua belleza e mar- 
tyrio —ode que nao tenho a menor idea — ou 
nos escriptos dos frades ha muita fabuia de sua 
unica invencao d'elles que o povo nao quiz 

* Outra liC(So, e talvez melhor, diz a coUada, 



NA MIN^A TERRA II 

acreditar : alids 6 ihexplicavel a singeleza d'esla 
tradicao oral. 

Taiu simples, tarn natural 6 a narra^ao poc- 
tica do romance popular, quanto 6 complicada 
e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas 
recordac5es ecclesiasticas. 

caso e grave, fique para novo capitulo. 



CAPITULO XXX 



Hi8t6ria de Sancta Iria 8egando os chronistas e segundo o 
romanee popular. » • 



k milagrosa Sancta Iria —Sancta Irene — 
que (leu o seu nome a Santarem, donzella no- 
bre, natural da antiga Nabancia*, e freira no 

' Thomar. 



44 VIAGENS 

convento dupplex^ benedictioo que pastoreava 
sancto abbade Celio, floreceu pelos meados 
do septimo seculo. Namorou-se d*elia extremo- 
samente o joven Britaldo, filho do conde ou 
consul Castinaldo que governava aquellas ter- 
ras, e nao podendo conseguir nada de sua virtu- 
de, cabiu inf^rmo de molestia que nenbum phy- 
sico acertava a conhecer, quanto mais a curar. 

£ sabido que a niais sancla Ihe nSo p6za de 
que estejam a morrer por ella ; e, mais ou me- 
nos, sempre sympathisa com as victimas que 
faz. 

Sancta Iria resolveu consolar o pobre Brilal- 
do ; e ja que mais uao podia por sua muita vir- 
iude, quiz ver se Ibe tirava aquella louca pai- 
xao e convertia. Sahiu, uma bonita manhan, 
do seu convento —que nao guardavam ainda 
as freiras tarn absolula e estreita clausura — e 
foi-se a casa do namorado Britaldo. 

Consolou como mulher e ralhou como san- 
cta, porfim, impondo-Ihe na cabe^a as lindas e 

I De frades e do freiras. 



NA MINHA TE&RA iS 

bemdittas maos, n'um instante o sarou de todo 
achaque do corpo ; c se Ihe nao curou o d'alma 
tambem, pelo menos, Ih'o adorroentou, que 
parecia acabado. 

Mas como o demo, em chegando a entrar 
n'um corpo humano, parece que nao sai d'elle 
scnao para se ir metier n'oulro; tam depressa 
inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo 
sc foi encaixar em nao menor personagem do 
que monge Remigio, que era o mestre e di-* 
rector da bella Iria. 

Arde o Trade em concupiscencia, e n9o ob« 
tendo nada com rogos e lamentos, jurou vin* 
gar-se. Distarcou por^m, fingiu-sc emendado, 
e deu-lhe, quando ella menos cuidava, uma 
bebida de sua diabolica preparacao, que ape-^ 
nas a sancta a havia tomado, Ihe appareceram 
logo e continuaram a crescer todos os signaes 
da mais apparente maternidade. 

Corre a fania do supposto estado da donzella, 
cbovem as injdrias e os insultos dos que mais 
a iinham respeitado ate entao. E Britaldo, que 
se julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella 



16 VIAQINB 

mulher artificiosa, em yok de a esquecer cotr 
despreso— sente revivcr-Ihe, se nao tarn pura, 
muito mais ardente, toda a antiga paixao. 

Tarn mysterioso e o coracao do homem! — 
tarn vil! dirao os asceticos-*- tam inexplicavel! 
direi eu com os mai8 tolerantcs. 

Novas tentativas, promessas, amea^as do fu* 
rioso amante ... A sancta resifite a tudo, forte 
na saa virtude. 

Costiimava a devota donzella ir todas as noi- 
tes a lima occulta lapa que jazia no fim da c6r- 
ca e juDCto ao rio Nabao, para alii estar mais 
so com Deus, e desabafar com Elle a sua von- 
tadci Soube^o Britaldo, espreitou a occasido e 
alii a fez apunhalar por um seu criado cujo no^ 
me a legenda uos conservou para maior testi- 
munho de verdade: chamava-se Banami 

Banam ! e um verdadeiro nome de mellodramai 

Morta a iutiocentd, Banam despiu-lhe o ha^ 
bito e lan^ott o cdrpo ao rio, que depressa a ie-^ 
Tou ds a^rebatadas correntes do Zezere em quci 



NA MINflA tBRBA 17 

desagua; e logo este ao Tejo--qtie defrotite 
da antiga Scalabiscastro Ihe deu fieptiltura em 
suas louras areas, para maior gidria da Bancta 
e perpMua honra da nobilissima villa que hoje 
tern sea nome. 

Mas emquanto ia navegando o corpo da satt« 
eta, teve Celio, o abbade do convento, uma re- 
velacao que Ihe descobriu a verdade e os roila- 
gres do caso; e cominimicatido-a logo aos mon- 
ges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de 
croz algada, e foi por esses campos da Golegan 
f6ra, at^ chegar A Ribeira de Santarem. Ahi 
benzendo as aguas do rio, dstas se retiraram 
coriezes e deixaram ver o septtlchro que era 
de fino alabastro, obrado & maraviiha pelas 
itiaos dos adjos. 

Ghegaram aopA do tumulo, abriram-n'o^ vi- 
ram e tocaram o corpo da sancta, mas nio o 
poderam tirar, por mais diligencias que fize- 
ram. Conheceu'-se que era milagre; e conteu- 
ttado^se de levaif reliquias dos cabellos e da 
tunica, Yoltaratii todos para a sua tetra. 

As aguas torilaraM a juuctar<-stt e a borref 



48 VIAGBN8 

como d'antes, e nunca mais se abrirani senao 
d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rai- 
nha sancta Isabel, mulher d'elrei D. Diniz, tarn 
fervorosas oragoes fez aope do rio pediado a 
sancta que Ihe apparecesse, que o rio tornou a 
abrirse como o mar Vermelho a voz de Moi- 
ses, dizem os devotos chronistas, e patenteou o 
bemditto sepulchro. 

Enlrou a raioba a pe inchuto pelo rio den* 
tro, seguida de seu real espdso e de toda a sua 
corte; mas por mais que rezasse ella, e que 
trabalhassera os outros com todas as for^as hu'- 
manas, nao poderam abrir o tumulo; quebraram 
todas as ferramenlas, era impossivel. Desinga- 
nado eirei de que um pod£r sobrehumano nao 
permittia que clle se abrisse, mandou a toda a 
pressa levantar um padrao muilo alto sobre o 
mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior 
inchente o nao podesse cobrir. 

rio esperou com toda a paciencia que os 
pedreiros acabassem, e quando viu que podia 
continuar a correr, deu aviso, reliraram-se to- 
dos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrS > 
ticou sobresahindo por cima d'ellas. 



NA MINHA TERRA 19 

Passaram mais tres seculos e meio ; e no anno 
de 1644 a camara de Santarem mandou refazer 
de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal 
que nSo era senao de alvenaria, e pdr-lhe em 
cima a imagem da sancta. 

Ainda la esta, assas mal cuidado comtudo; la 
vi com estes olhos peccadores no cofrente 
mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem 
ora^oes, o rio tinha-se retirado, havia muito, 
para um cantinho do seu leito, e o padrao esta« 
va perfeitamente em s6cco, e em s^cco esta to- 
do anno at6 come^arem as cheias. 

Tal 6, em fidelissimo resummo, a historia da 
Sancta Iria dos livros. 

A das cantigas 6, como ja disse, muito outra 
e muito mais simples, oonta-se em duas pala- 
vras. A sancta esti em casa de sens paes; um 
cavatleiro desconhecido, a quern dao peusada 
uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba 
a descuidada e innocente donzella, foge a todo 
o correr de seu cavallo, e chegado a um descara- 
pado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe vio- 
lenda. • . A sancta resiste, elie matta-a. D'alli a 

4 



so VIAGBN8 

annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve 
lima linda ermida levantada no proprio sitio on- 
de commetteu o crime, pergunta de que sancta 
e, dizem-lhe que e de Sancta Iria. Elle cae de 
joelhos'a pedir perdao a sancta, que Ihe lan^a' 
cm rosto o seu peccado e o amaldigoa. 

E acabou a historia. 

Seria o povo que se esqueceu nas suas tradi- 
)foes, ou OS Trades que augmentaram nas suas 
escripturas? Pois a legenda monastica e real- 
mente bella e cheia de poesia e romance, coisas 
que povo nao costuma desprezar. 

E difficil de explicar-se este phenomeuo, in^ 
teressantissimo para qualquer observador nao 
vulgar, que n'estas cren^as do commum, n'estas 
antigualbas, desprezadas pela suberba philoso* 
phia dos nescios, quer estudar os homens e as 
na^oes e as edades onde elles mais sinceramen- 
te se mostram e se deixam conhecer. 

A extrema simplicidade do romance ou xaca^ 
ra de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os 
que and$im na memoria do nosso povo, o mais 



NA HINBA TERBA 51 

geraliuente sabido e mais iiniformemente repet- 
tido em todos os districtos do reino, e com pou- 
CBS variantes nas palavras, i^enhuma no contex- 
to, me faz crer que esta seja das mais antigas 
composi^oes nao so da nossa lingua, mas de to- 
da a peninsula. A phrase tem pouco sabor anti- 
go: este 6 mn d'aquelles poemas quasi aborigi- 
nes que a tradi^ao tem vindo entregando, e ao 
mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos in- 
sensivelmente ; e tambem nao e porcerto dos 
que desceram do palacio as choupanas e fugi- 
ram da cidade para as aldeas, como em muitos 
outros se conhece ; este visivehnente nasceu nos 
arraiaes, nos oragos dos campos, e por la tem 
vivido ale agora. 

A forma metrica da composi^ao e a que a 
phrase didatica das Hispanhas chainou romance 
em endechds. Eu, adoptando para elle, mais que 
pata a r6rma ordinaria do metro octosyllabO) d 
theoria do ingenhoso philologo allemaO) Deep- 
ing, tam benemerito da nossa litteratura penin- 
sular, creio que estes sSo verdadeiros versos de 
doze syllabas, e que as coplas nao cdnstam s^- 
Dao de dois versos cada uma, segundo a obvia 
signiticafao da palavra. pDvo cantando nSio 



82 VIAQENS 

separa os hemiBtycbios d'estes versos como fa- 
zem OS que os esorevem : o ao contrario qob ro- 
mances da medida mais eomrnum, o canto po- 
pular reparte distiactamenle cada membro dc 
oito syllabas sdbre ^i. 

Nao sei iQ mo ingano, mas desconfio que as 
quatro eoplas liltimas, em que muda completa^ 
mente a rhyma, sejam additamento posterior 
feito a cantiga original. Todavia estes oito ver- 
sos apparecem, com Ugeiras variantes, em toda 
a par 10. 



CAPITDLO XXXI 



Quomodo sedet sola civitas. — Santarem.^Porlugal em 
irereo e Portugal em prosa.— Exquisito lator de umas 
portas e jaoellas de architectara mosarabf. — Busto de 
D. Affonso Henriques. — As salgadeiras de Africa. — Porta 
do Sol. — Muralbas de Santarem.— Yoltemos &, histdria 
de Frei Diniz e da meDina dos olbos yerdes. 



Efam mais de de2 horas da manhan quando 
sahimos a com6^r a longa viasacra de reliquias, 
tettiplos e moQuniefitos que b9o hoje toda San- 
torem. 



Ki VUG ENS 

A vida palpitante e actual acabou aqui intei- 
ramente : hoje e um livro que so recorda o que 
foi. Entre a historia maravilhosa do passado que 
todas estas pedras memoram, e as prophecias 
tremendas do futuro que parecem gravadas n'el- 
las em characteres mysteriosos, nao ha mais na- 
da: presente nao e, ou e como se nao fosse; 
tam pequeno, tarn mesquinho, lam insignifican- 
te, tam desproporcionado parece a tudo isto. 

Da Yontade de iutoar com o poeta inspirado 
de Jerusalem: ^Quomodo sedet sola civitas!' 
Portugal ^, foi sempre uma na^ao de milagre, 
de poesia. Desfizeram o prestigio ; veremos co- 
mo elle vive em prosa. Morrer, nao morre a 
erra, nem a familia, nem as ragas: mas as na- 
5oes deixam de existir.— Pols embora, ja que 
assim o querem. A mim nao me fica escru- 
pulo. 

Passamos a egreja da Alca^ova, que achamos 
ja fechada ; c tomando sempre sdbre a esquerda, 
fomos pelo que hoje parece uma azinhaga de 
entre quintas, mas que visivelmente foi n'outras 
eras a rua mais fashionaoel d'esta villa corte- 
san. Aqui estao quasi ao pe da egreja umas per- 



NA MINHA TEBRA 65 

tas e janellas do rnafs fino layor e gdsto mosara* 
be que me lembra de ter visto. 

E a proposito, por que se nSo hade adoptar 
na nossa peninsula esta designafao de mosarabe 
para characterizar e classifiear o genero archi- 
tectonico especial nosso, em que o severe pen- 
samento christSo da architectura da meia edade 
se sente relaxar pelo contacto e exempio dos ha- 
bitos sensuaes moirescos, e de sua luxuosa e re* 
dundante elegancia? 

De que palacio incantado foram estas portas 
tarn primorosamente lavradas? Que bellezas se 
debruQaram d'essas arrendadas janellas para ver 
passar o cavalleiro escolhido do seu coragao? 
Sao tam lindas, tarn elegantes ainda estas pe- 
dras desconjunctadas, e mal sustidas de um muro 
insosso e grosseiro que as facea, que natural- 
inente despertam a mais adormecida imaginacao 
a quanto sonho de fadas e trovadores a poesia 
fez nascer dos mysteries da edade-media. 

Pouco mais adeante esta, em um mau nicho 
escalavrado e feio, um pretendido busto de D. 



96 YIAQKfS 

AffoBie Hetiriques, a qiie attribuem grande an*- 
tiguidade. Nao me fez esse efl'eito A mim. 

Chegamos a porta do Sol; sentamo'-nos alii a 
gosar da majestosa vista. E majestosa mas tris- 
te. A ribanceira que d'alli corta abaixo, ate ao 
rio, e arida e quasi calva : cobrem-n*a apenas, 
conio a mal povoada nuca de um velho, alguns 
tufos de verdura cinzenta e grisaiha de um ar- 
busto rasteirOy meio frutex meio herbaceo, que 
aqui chamam ^Salgadeira' e que a tradi^ao diz 
ter vindo de Africa para segurar a terra n*estes 
taludes e precipicios. aspecto e habito da 
planta 6 realraente africano e oriental, nao tern 
nada de europeu. Mas esta derradeira e occi- 
dental parte da nossa Hespanba 6, geologica- 
mente fallando, ja tarn Africa, tarn pouco Euro- 
pa, que ngo seria necessaria a transplanta^ao 
lalvez ; e porventura Hcou 6sta memoria entre o 
povo do uso que os moiros faziam da planta pa- 
ra esse fim. 

Esta porta do Sol dizem que 6 onde se faziam 
as execufoes em tempos antigos. Foi bem esco- 
Ihido sitio ; nSo o ha mais triste e melancholi- 
00. Aop6 eBtA um torreao quadrado da tnuralba 



NA illRHA TERRA B7 

que ahi KmA daAto para segair depoii na di«- 
rec^ao de sul a norte. D'este lado as forlifiea^^ 
(oes e laogofi de muro est9o todas poueo estra<- 
gadas; e do mirante a que subimos, pode^se 
formar perfeita idea do que era uma antiga ci" 
dade murada. 

Seria aqui, dizia eu commigo, que o nosso 
Frei Diniz de quem ja tenho saudades-^o velho 
guardiao de San'FraDcisco Veiu chorar o sea til- 
timo threno sdbre as ruinas da antiga monar«- 
chia? Seria aqui n'este logar de ddsola^ao e 
melancholia que as suas ddrradeiras lagrymas 
correram! fille que ja nao chorava, acharia 
aqui quem desse aos sens olhos as fontes de 
agua que o corac&o Ihe pedia para se desalfogar 
dos peKares que o rallavam na aridez e seccura 
de sua desconsolada velhice? 

Passavam-me ^stas ideas pelo pensamento 
quando o historiador que tantos capitulos nos 
retteve no valle^ contando-nos os successes de 
Joanninha e da sua familia, nos disse : 

'Sent^mo-nos aqui na sombra que faz 6sta 
muralha e acabemos a hist6ria da menina dos 



58 VUG ENS 

rouxinoes. De tarde vamos a Ribeira saudar a 
memoria do Alfageme. Amanhan de manban 
esta detaihado que iremos ver>a Graga, o San- 
cto milagre, San'Doroingos e SanTrancisco. 
Concluamos hoje esta historia/ 

*Seja,* respondemos n6s. 

Entraremos portanto em novo capitulo, leitor 
amigo; e agora nao tenhas medb das minhas 
digressoes fataes, nem das interrup^oes a que 
sou sujeito. Ira direita e corrente a historia da 
nossa Joauninha ate que a terminemos ... em 
bem ou em mal? D'antes um romance, um dra- 
ma em que nao morria ninguem era havido por 
semsabor ; hoje ha um certo horror ao tragico, 
ao funesto que perfeitamente quadra ao seculo 
das commodidades materiaes em que vivemos. 

Pois, amigo e benevolo leitor, eu nera em 
principios nem em fins tenho eschola a que es- 
teja sujeito, e heide contar o caso como elle foi. 

Escuta. 



CAPITULO XXXII 



Toinamos a hist6ria de Joanninha. — Preparativos de guer- 
ra.— A morte. — Carlos ferido e prisioneiro.— hospi- 
tal. — iofermeiro. — Georgina. 



'Escutal' disse eu ao leitor benevolo no fim 
do ultimo capitulo. Mas nao basta que escute, 
e preciso que tenha a bondade de se recordar 
do que ouviu no capitulo XXV e da situa^ao em 
que ahi deixamos os dois primos, Carlos e Joan- 
ninha. 



60 VIAOBNS 

N'este despropositado e iDclassificavel livro 
das minhas Viagens, nao 6 que se quebre, mas 
inreda-se o fio das historias e das observa^oes 
por tal modo, que, bem o vejo e o sinto, so com 
luuita paciencia se pode deslindar e seguir em 
tarn imbara^ada meada. 

Vamos pois com paciencia, caro leitor; farei 
por ser breve e ir direito quanto eu poder. 

Lembra-te como n*uma noite pura, sereua e 
estrellada, aquelles dois se despediram urn do 
outro no meio do valle, como ^e despediram tris- 
tes, duvidosos, inrelizes, e ja outros, tam outros 
do que d'antes for am. 

N'essa mesma noite, a ordenada confusao 
de um grande movimento de guerra reinava 
nos postos dos constitucionaes. k longa apathia 
de tantos mezes succedia uma inesperada acti- 
vidade. Preparavam-se os sanguinolentos corn- 
bates de Pernes e de Almosler, que nao foram 
decisivos logo, mas que tanto appressaram o 
termo da contenda. 

Carlos achou ordem de se appreaentar no 
quartel-general, partiu immediatamente. pen*- 



NA lltNHA TEBBA 61 

samento absorvido por ideas tarn differentes, 
tarn confuso, tarn alheado de si mesmo, seguiu 
machiDalmenle o corpo. Foi, chegou, recebea 
as iDstrucQoes que Ihe deram, e voltou mais sa-* 
tisfeito, mais tranquiilo. 

Tractava-se de morrer. Nao sabe o que 6 ve^ 
dadeira angdstia d'alma o que ainda n?o aben- 
(oou a morte que viu deante de si, o que a nao 
invocou ainda como unico remedio de seu mal, 
ou, que 6 mais desesperado, como unica sahi- 
da de suas fataes perplexidades. 

Estes momentos s9o raros na vida, 6 certo; 
mas quando occorrem, nSo ha exaggeracSo ne* 
nhuma em dizer que antes, muito antes a mor* 
te do que elles. 

Ob ! e se a morte que se contempla 6 de bon- 
fa e gldria, se o enthusiasmo, tirando fortemen- 
te a corda dos nervos, os tdiZ vibrar n'aquelies 
teas secretos ^ mysteriosos (|ue al*rebatam, e 
elevam o coragao do homem a sublime abnega- 
(ao de si, e de tudo o que 6 pequeno, baixo e 
vil na sua natureza— oh entao a morte patece 
um triumpho, uma bemaventuransa porcerto! 



62 VIAGBNS 

Carlos esqueceu-se de tudo, menos da sua 
espada que affiou com escrupuloso cuidado, e 
das suas boas e seguras pistolas inglezas que 
limpou minuciosaroente, carregou e escorvou 
com urn verdadeiro amor dc artista que se com- 
praz no tiltimo acabamento de urn trabalho pre- 
dilecto. 

pouco da noite que Ihe restava passou-se 
n1sto, a marcha come^ou antes do dia. E os 
primeiros raios do sol foram saudados pelo fuzi- 
lar das espingardas e pelo trovejar dos canhoes. 

Combateu-se larga e encarnifadamente — cO" 
mo entre irmaos que se odeiam de todo o odio 
que ja foi amor — o mais cruel odio que tern a 
natureza! 

dia declinava ja quando n'um hospital em 
Santarem entravam muitas maccas de fefidos, e 
entre dies, um todo crivado de ballas e coberto 
de sangue que, assim pelos restos do uniforme 
cofllo por certo ar bem conhecido— e characte- 
rislico entao, se via claramente ser do exercito 
conslitucional. 

Eram muitas e perigosas as feridas d'esse ho- 



NA MlMflA TBRBA 63 

mem ; estenderam-n'o n'uma especie de tarim- 
ba sdbre que havia alguma paiha, e quando Ihe 
chegou a sua vez foi exanoinado e penfado co« 
mo OS outros. Nao dava signal de padecer, ti- 
nha OS olhos fecbados, o pulso forte mas nao 
agitado de febre; nao proferia- uma syllaba, 
nao soltava urn ai, e prestava-se a tudo o que 
Ihe diziam e faziam, menos a sollar da mSo es- 
querda que apertava contra o peito o que quer 
que fosse que alii tinba seguro e que Ihe pendia 
ao pesco(0 de uma estreita iitta preta. 

Assim deixaram largo tempo : elle adorme-* 
ceu. N9o seria largo, mas foi prorundo o sou 
dormir. Quando acordou ja se nao viu no vasto 
caravanseray d'aquelle confuso hospital, mas 
n'um pequeno quarto arejado, limpo, equasi con* 
fortavel que em tudo parecia cella de convento^ 
menos na boa cama em que jazia o doente^ e na 
extremada elegancia do infermeiro que o velava. 

quarto era comeffeito uma cella do con* 
vento de San'Francisco em Santarem, o doente 
nosso Carlos; e o infermeiro que o velava, 
uma belia mulher de estatura nao acima de or- 
dinaria, mas nem uma linba menos, involvida 



64 vueBNs 

nas amplifisiraas pregas de um longo roup9o de 
seda d'aquella acertada cdr que, em dialecto da 
rua Yivienne, se diz scabieuse; a cabe^a touca- 
da de iinissima Bruxellas, com uns hQO» de pre- 
to e e6r de granada que realgavam a transpa- 
rencia das rendas, a infinita graca dos longos e 
ondados aneis louros do cabello, e a pureza sy- 
metrica de um rosto oval, classico, perfeito sem 
grande mobilidade de expressao, mas beilOi 
bello, quanto pode ser bello um rosto em que 
pouco d'alma se reflecte, e em que a serena lau- 
guidez de uns olhos azues entibia e modera a 
energia do sentimento que nSo e menos profun- 
do talvez, mas certaraente se expande menos. 

De joelhos juncto ao ieito de Carlos, com a 
mao direita d'elle nas suas, os oihos siccos mas 
fixes nas descahidas palpebrasdosoldado, aquel- 
la mulber estava alii como a estatua da dor e da 
anxiedade. A uma porta interior e que abria 
para uma especie de alcova obscura, em pe, os 
bragos cruzados e mettidos nas mangas, o ca- 
puz na cabeca, estava um frade velho, alto mas 
curvado do p^so dos annos ou dos soifrimentos. 

frade contemplava o inf6nuo e a infermei- 



NA MINHA TERRA 65 

ra, mas visiyelmente nSo queria ser visto n'essa 
occupagao, porque ao menor estremecimento 
do doente recuava apressado e como assustado 
para o interior da sua alcova. 

Uma so vela de cera allumiava este quadro, 
accidentapdo-o de fortes sombras, e dando-Ihe 
um torn de solemnidade verdadeiramente ma* 
gico e sublime. 

Carlos segurava ainda na esquerda com o 
mesmo aff^rro o relicario ou talisman, ou o que 
quer que era que nao queria des.prender de seu 
cora^ao. A bella infermeira beijava de vez em 
quando aquella mao tenaz que estremecia a ca- 
da beijo, por mais suave e mimoso que fosse o 
leve contacto d'esses labios delicados. 

A outra mao estava nas mSos d'ella, mas era 
insensivel a tudo, essa. 

silencio era o do sepulchro : so se ouvia o 
respirar incerto e descompassado do infdrmo. 

Derepente Carlos entreabriu as palpebras e 
exdamou em inglez: *0h Georgina, Georgina, 

5 



69 VIAGENS 

/ love yow^itlr'-— (Gcorgina/ fieofgina,' 6u iain- 

dji te amo.) 

 •■•*• • • 

Duas lagrymas -=— duas perolas, d'estas que 
se criam com tanta dor no corajao e que as ve- 
zes sahem com tanto prazer dos olhos — rom- 
peram do celeste azul dos olhos da dama e sua- 
vemente correram por aquellas faces de uma 
alvura pallida e mortal. 

Carlos acordou de todo, abriu os olhos e cra- 
vou-os iSxamente no rosto angelico d'essa mu- 
Iher. 

Esteve assim minutos: ella nao dizia nada 
riem de voz nem de gestos: fallavara-lhe so as 
lagrymas que corriam quietas, quietas, como 
corre uma fonte perenne e nativa de agua oiie 
inana sem esBrfO nem impeto, por um ideclive 
natural e facil. 

— ^Onde estou eu, Georgina?^ 

— *Nos mens brafos.' 



« * ' 



-—'Que me succedeu?* 



NA MINHA TERRA 67 

—'Que n5o podes set feliz sen3o n'elles: bem 
sabes.' 

— *Sei . . . devia saber.* 

— 'Devias; so agora hasde sab6-lo, passa- 
do...i' 

— *0 passado! qual?' 

— *0 passado deixou de existir/ 

— *E future?' 

— *Eu nao creio no future.' 

— 'Per qufi?' 

— Torque tu me disseste que nao cresse.' 

— 'Eu! . . . Eu sou urn . . .' 

— 'Um homem.* 

— 'Ohr 

i Estd assim escripto pela m3o do author em Qm exemplar re- 
9ervado para sen uso. (Nota do editor.) 



68 VIA6ENS 

— *Basta e descaDca. Amanhan fallaremos/ 

— *Estou ferido, muito; e doe-me agora . , . 
nao me dofa.' 

— *Estas, raas sem perigo: c estou cu aqui. 
Dorme.* 

— *Nao posso. Que casa 6 esla?* ' 

— *SanTrancisc6 de Santarem.* 

--*Deus de misericordia ! * 

— *Es prisioneiro: sara, e eu te livrarei.* 

— *TuI— E tu aqui, como?* 

— *Vim buscar-te, e achci-te assim.* 

— *Georgina!* 

— *Que tens tu abi tam seguro na raao es- 
querda?* 

— *V6: a medalha com o teu cabello.' 

— *Entao amas-me tu ainda?' 



NA HINHA TERRA 69 

--*Se te amo I Como no primeiro . . • ' 

— *Nao mintas, Carlos . . . E dorme/ 

—'Oh meu Deus, roeu DeusI Geor^ina aqui, 
cu n'este estado e . . . E a minha gente?' 

— *A tua gente esla salva.' 

-*Aonde?' 

— *Aqui mesmo, em Santarem/ 

— *Quero . . . nao quero . . . Ohsim,queromas 
e morrer. Tende misericordia de mim, meu 
Deus!' 

— *Socega, Carlos/ 

Mas Carlos nao socegava: immudeceu porquc 
a torrente de seus pensamentos, o inconlrado 
d'elles, e o inesperado d'aquella situajao Ihe im- 
bargavam a voz, e o qiiebramento das fdrcas 
Ibe tolhia os movimentos do corpo: mas o espi- 
rilo inquieto e alvora^ado revolvia-se dentro com 
urn phrenesi louco. Era pasmar o que elle soffria. 



70 vuoeNs 

A f6rf a de bebidas calmantes o accesso dimi- 
nuiu, a noite passou mais tranquilla; e pela ma- 
nhan o doente nSo dava caidado ao facoltalivo 
que veiu v6r. 

Prohibiram-lhe fallar ; e Georgioa tiaba a co- 
rageni de Ihe resistir, de Ihe nao responder to- 
das as vezes que elle tenlava quebrar o preceito 
de que depeudia a sua vida . . . e a d*ella, porque 
a iureliz amava-o . . . ob ! amava^o como sejiao 
ama senao uma vez n*este mundo. 

Passaram dias, semanas, Carlos estavamelhor, 
estava salvo; Georgina pdde dizer-lhe um dia: 

— ^Carlos, meu Carlos, tu estas livre de pe- 
rigo, vou restiluir-te aos teus/ 

— *Osmeus!' 

— *0s teus. Tua av6, tua prima . . .' 

— 'Joanninbal oh I Joanninha. . / 

— ^*Tua av6 que tambem tem estado a morrer, 
mas que emfim esta escapa, ignora que ta este- 
jas aqui. Occultamo-lo egualmente a tua prima/ 



NA MINHA TERRA 71 

— *Ah!' 

— 'Sim, assentamos de Ih'o nao dizer a uma 
nem a outra ate que tivessemos certeza da tua 
melhora. Hoje porem vaes y£-las. E eu. . .' 

— *Tu!' 

— '£u nao tenho aqui mats nada que fazer/ 

— 'Georgina!' 

—'Carlos!' 

— *Tu ja me nao amas?' 

— *Nao/ 

Seguiu-se um silencio torvo e abafado como o 
da calma que precede as grandes tempestades. 
O rosto de Georgina estava impassive!, Carlos 
estorcia-se debaixo de uma compressao horrivel 
e incapaz de se descrever. 



CAPlTUlO-XXXm 



Carlos e Georgina. Explicacko.— Jt^ te nao amo! palavra 
terrivel. — Que o amor verdadeiro nao 6 c6go. — Fradc no 
caso outra vez. Ecce iterum Crispinus; ca estd o nosso 
Frei Diniz comnosco. 



— *Tu ja me nao araas, Georgina, lu ! * excla- 
mou Carlos depois de uma longa e penosa lucta 
comsigo mesmo : *Ja me nao amas tu, Georgina? 
Ja nao sou nada para ti n'este raundo? Aquelle 



74 VIAGENS 

amor cego, louco, inGDito, que derramavas em 
torrentes s6bre a minha alma, em que trasbor- 
dava teu coragao; aquelle amor que eu che- 
guei a persuadir-me que era o maior, o mais 
sincero, talvez o unico verdadeiro amor de mu- 
Iher que ainda houve no mundo, esse amor aca- 
bou, Georgina? Seccou-se no teu peito a fonte 
celeste d'onde mauava? Nem as recorda^oes de 
nossa passada felicidade, nem as memorias dos 
crueis lances que nos custou, dos sacrificios tre- 
mendos que por mim tizeste, nada, nada pode 
acordar na tua alma um echo, um echo sumido 
que fosse, da antiga harmonia de nossas vidas 
— da nossa vida, Georgina, porque nos chega- 
mos a confundir n'um so os dois seres da nossa 
existencia. — Oh! por que vivi eu ate este dia? 
E tu, tu que refinada crueldade te inspirou o 
salvar uma vida que tinhas condemnado, que 
tinhas sacrificado quando a separaste da tua? 

— *Carlos,* respondeu Georgina com a fria 
mas compassiva piedade que mais o desespera- 
va: 'Carlos, nao abuses da pouca saude que 
ainda tens. estor^o d'alma que estas fazendo 
pode-te ser prejudicial. Socega. Tu illudes-te,e 
sem querer, procuras illudir-me tambem a mim. 



NA ICINHA TERftA 7S 

Entra em ti, Carlos, e discorramos pausadamen- 
te sdbre a nossa situa^ao, que nao e agradtvel 
porcerto nem para um nem para outro, mas que 
pode 8upportar-se se tivermos juizo para a inca- 
rar toda e sem medo, e para nos convencermos 
com lealdade e franqueza do que ella realmen- 
te e. Ouve-me, Carlos: tu amaste-me muito • • .' 

— *0h coroo, oh quanto ! Nenhum homem . . / 

— ^Poucos homens, 6 certo, amaram ainda 
como. tu . . . quern sabe! talvez nenhum. — NSo 
quero perder esta ultima illusao . . . ja nao tenho 
outra . . . Talvez nenhum amou como tu me 
amaste ou . . . ou cuidaste amar-me. Eu . . . oh! 
eu quiz-te . . . pelo eterno Deus que me ouve ! 
eu quiz-te com uma cegueira d'alma» n'uma sin- 
geleza de corajiSo, com um abandono tarn com- 
pleto, uma abnega^ao tam inteira de roim mes- 
ma, que realmente creio, este e o amor que so 
a Deus se deve, que so ao Creador a creatura 
pode consagrar licitamente. 

— *Bem castigada eslou: mereci-o.' 

— 'Georgina, Georgina ! ' 



76 VIAGENS 

— *Deixa-me, quero desabafar eu taaibem 
agora. Ouve-me, tens obrigafSo de me ouvir. 
— Se te dei provas d'este amor, tu o sabes ; se 
desde que te araei, uma palavra, um gesto, um 
pensamento unico, um so e o mais leve relam- 
pejar da imagina^ao desmentiu em mim d'esta 
absoluta e exclusiva dedica^ao de todo o meu 
ser. . . dize-o tu.' 

— *Nao, minha alma, nao, minha vida, nao; 
tu es um anjo, tu es . . .' 

— *Sou uma mulher que te amava como creio 
que ordinariamente se nao ama.* 

— *Nao, certo, nao/ 

— *Fomos felizes, 6 verdade ; e creio que pou-, 
cos amantes ainda foram tam felizes como nos 
nos breves dias que isto durou. — Tu partiste 
para a tua ilha; era forgoso partir, conheci-o e 
resignei-me. Consolavam-me as tuas cartas, as 
tuas cartas defogo, escriptas, oh se o eram! es- 
criptas com o mais puro sangue do teu coracao. 
Nunca duvidci do que ellas me diziam : nao se 
mente assim, tu nao mentias entao. E falso que 



NA HINBA TEBRA 77 

amor seja c6go; o amor vulgar p6de s6-lo, 
amor como o meu, o amor verdadeiro tern o]hos 
de lynce; eu bem via que era amada. Nunca me 
cscreveste a protestar fidelidade, e eusabia, eu 
via que tu me eras fie). — Assim passaram me* 
zes, annos. Na ilha e no Porto foste o mesmo. 
Eu padecia muito, mas confortava-me, vivia de 
csperancas . . . triste viver mas doce ! EmOra 
vieste para Lisboa, para aqui ... e as tuas car- 
tas que nao eram menos ternas nem menos apai- 
xonadas . , / 

— 'Se eu nunca deixei, nem um momen- 
to . . / 

Com um gesto expressivo, e de suave mas re- 
soluta denegacao, Georgina pds a mao na bdcca 
do pobre Carlos, como para o impedir de dizer 
uma blasphemia. Elle segurou-a com as suas 
ambas e Ih'a beijou ?nil vezes com um arreba- 
tamento, uma furia, n'um paroxismo de lagry- 
roas e de solu^os, que partiriam o cora^ao ao 
mais indifferente. Commoveu-se, vacillou a in- 
alteravel rigidez do bello rosto da dama, abai- 
xaram-se as longas palpebras de sens olhos; mas 
se chegou at6 elles alguma lagryma mais rebel- 



78 VIAGEIfS 

de, prompta refluiu para 6 coragao, porque ao 
levanta-los outra vez e ao fixa-los tranquilla- 
mente qos do seu amante, aquelles olhos puros, 
celestes e austeros como os de um anjo offendi- 
do, estavani seccos. 

Ella continuou : 

— *As tuas cartas, que nSo eram menos ter- 
nas nem menos apaixonadas, comecaram toda- 
via a ser menos naturaes, mais incarecidas . . . 
eram menos verdadeiras por forfa. Senti-o, 
vi-o, e cuidei morrer. Uma familia da minha ami- 
zade vinha entao para Portugal, accompanbei-a. 
Apenas cheguei, procure! e obtive os meios se- 
gurbs de tranzitar pelos dois campos contendo- 
res: pregagiava-me o corafSo que me havia de 
ser precise. E foi; cheguei ao Valle no dia em 
que tu deixavas para aquella fatal ac^ao que 
te ia custandb a vida. Vim-te incontrar prisio- 
neiro e meio morto no hospital dos feridos. Aope 
de ti estava um frade . . .' 

— *Um frade! Men Deus, se serfa elle?' 

— *j;raelle/ 



NA MINHA TERRA 79 

— Tois tu sabes?. . .* 

— *Ser: eu disse-lhc qiiem era e o que tu me 
eras...' 

— *Tu a elle . . . disseste? . . .' 

— *DJsse. N$o sei se fiz mal ou bem, sel que 
me nSo importava o que fazia. Vi depois que me 
ii56 ingan(ira na confianga que posera n*elle. 
Trouxemos-te para este convento, trattamos de 
ti, conseguimos salvar-te a vida ... E em quan- 
to esse cuidado me livrava de Outros, fui . . , fiii 
feliz. A tua gente . . . a tua familia do Yalle tam- 
b€m,yeiu.pa^*a Sautarem . * . tua ay 6 e tua pri- 
m^^ Carlo3„ ♦-'. 

, . rTT 7oanui»ba ! , Joanuinha esta aqui ? * 

- --.'■'  ' ' " 

_ ;::r-* Fstft ;, Bocega : e ja t'o disse, logo a ve- 

ras.' , 

— !Eu! Eu para qu6? Eu nSo quero . .• .' 

—-'Ott^'^ci^^* hasde ve-la. Ja sabes cjue sei 
tudo.' 



80 VUG ENS 

— 'Tudo qu6, Georgina?' 

— *Queres que t'o repitta? Repettirei. Que 
tu amas tua prima, que ella que te adora. E por 
Deus, Carlos, eu ja Ihe quero corao se fora mi- 
nha irman. Intendes bem agora que te nao amo? 
Comprehendes agora que tudo acabou entre nos, 
e que nao vejo, nao posso ver em ti ja senao o 
esposo, marido da innocente crian^a que to- 
me! debaixo da minha protec^o, e a quern juro 
que basde pertencer tu?* 

■— *Juras falso.' 

— 'Como assim! Pois queres mais vicliraas? 
Nao estas satisfeito com a minha ruina? Eu ao- 
menos nao sou do teu sangue. E essa velha de^ 
crepita que 6 tua av6, que duas vezes foi em 
verdade tua mae porque te criou, — essa in- 
nocente que te ama na singelleza do seu cora- 
fao. . . e esse pobre frade velho. . .' 

— *0h! aqui anda elle, bem o vejo, aqui an- 
da genio mau da minha familia. Malditto sejas 
tu, frade!' 



NA MINHA TERRA 81 

desgra^ado nSo acabara bem de pronun- 
ciar 6stas palavras, quando a porta da alcova 
se abriu de par em par, e a rigida, ascetica fi* 
gura de Frei Diniz estava deante d'elle. 







CAPITULO XXXIV 

Carlos, Georgina e Frei Diniz.-— A peripecia do drama. 

Carlos cstava meio sentado, meio deitado n'u- 
ma Ioi]ga cadeira de rccdsto ; Georgina em pe, 
com OS bra(os cruzados e na attitude de refle- 
xiva tranquillidade. Um sol brilhante e arden« 



84 vuoENd 

te, um sol de maio» feria os estreitos vidros da 
peqaena janella que so dava luz aquelle quar- 
to: a excessiva claridade era velada por uma 
longa e ampla cortina. 

Carlos langou derepente a mao a essa corti- 
na e a affastou para avivar a luz do aposento. 
Um raio agudissimo de sol foi bater direito no 
macerado rosto do frade, e reflectiu de seus 
olhos incovados um como relampago de ira ce- 
leste que fez estremecer os dois amantes. 

Nao foi por^m senao relampago; sumiu-se, 
apagou-se logo. Aquelles olhos ficaram mor- 
taes, mudos, lixos, invidragados como os de um 
homem que acabou de expirar e a quem nao 
cerraram ainda as palpebras. 

E assim mesmO aquelles olhos tinham o po- 
dSr magnetico de fixar os outros, de os nao dei^^ 
xar nem pestanejar. 

Curvo, incostado a um bord9o grosseito, o 
seu chap6u alvadio debaixo do bra^o, o frade 
deu alguns passos tremulos para onde estavam 
0$ (loig, arrastando a custo as sdltas alpercatas 






NA MtNfiA TERRi 65 

que davam urn som ba(0 e batido, e faziam — 
nao sei por quS nem como — estremecer a quern 
as sentia. 

Parou a pouca distancia, e tirando a voz fra* 
ca e tenue, mas vibrante e solemne, do intimo 
do peito, disse para Carlos : 

— 'Tu maldisseste-me, filho, e eu venho per<- 
doar-te. Tu detestas-me, Carlos, de todos os 
podSres da tua alma, com toda a energia de tea 
cora^ao; e eu venho-te dizer que te amo, que 
tomara dar a minha vida por ti, que do fundo 
das iutranhas se ergue este immense amor que 
nao tern outro egual, a pedir-te misericordia, a 
clamar-te em nome de Deus e da natureza, a 
pedir-te, por quanto ha sancto no ceo e de res* 
peito na terra, que levantes essa maldic^o, fi- 
Iho, de-cima da cabega de um moribundo.' 

Eram dittas em tal som ^stas vozes, vinham 
pronunciadas la de dentro d'alma com tal vehe- 
mencia, que Ih'as nao articulavam os labios, 
rompiam^n'os ellas e sahiam. 

soldado parecia desaccordado, confuso e 



86 VI AG ENS 

sem ioteiligencia do que ouvia. Georgina ini- 
passiyel at6 alii, rigida e inabalavel com o seu 
amante, sentia commover-se agora d'aquella 
angiistia do velho. IB que partia pedras a dor 
que vinha n'aquellas fallas sepulchraes, que 
transudava d'aquelle rosto cadaverico. 

Ao mesmo tempo, um som confuso, um tu- 
multo vago e abafado de mil sods que pareciam 
arredar-se, iucontraudo-se, toruando, indo e 
vindOy e dispersando-se para se toruar a unir, 
e tornando a dispersar-se em fim, reboava ao 
looge pela villa, extendia-se nas pra^as, con- 
centrava-se nas ruas, e mandava aquella solita- 
ria e remota cella do convento uns echos sur- 
dos, como OS do mar ao longe quando se retira 
da praia no murmurar melancholico que pre- 
cede um temporal d'equinoxio. 

— *Ouves esse borburinho confuse, Carlos? 
E a tua causa que triumpha, i a d'estes loucos 
que succumbe, 6 a de Deus que a si mesmo se 
desamparou. A bora esta chegada, escreveram- 
se as lettras de Balthasar ; a confusao e a morte 
reinam sos e senhoras na face da terra. Eu 
quero ir morrer onde haja Deus. . . Perdoae-me, 



NA MINHA TEBBA 87 

Senhor, a blasphemia I . . . onde o sea nome nSo 
seja profanado e malditto. . .' 

'Ao canto de uma pedra, debaixo de uma ar* 
Yore hade ser, n'algum logar escuso d'essas 
charnecas, onde me nao rasguem aomenos esta 
mortalba, e m'a nao insultem nos tiltimos ins- 
tantes, porque eu sou frade, frade, frade. . . o 
malditto frade ! Mas Trade quero morrer, e hei- 
de morrer. Oh I assim tivera eu vivido!' 

— *Mas que foi, que succedeu?' 

— *0 resto do ex6rcito realista evacua n'este 
memento Santarem ; vao em fuga para o Alem- 
tejo. Os constitucionaes venceram na Asseicei- 
ra» e tudo esta ditto para n6s. Para mim, Car- 
los, falta uma palavra so: quereras tu dizd-ki?' 

— *Eu?' 

— 'Sim tu, Carlos. Bevoca as palavras terri- 
veis que proferiste, e em nome de Deus, fitho, 
perdoaa teu. . . .' 

A Carlos revolvia-se-lhe no p^to uma grande 



88 VUG096 

lucta. horror, a oompaixSo^ o odio, a piedade 
iam e Yinham-lhe alternadamente do cora^ao i$ 
faces, e tornavam do rosto para o peito. Uma 
exc]ama$ao involuntaria Ihe rebentou dos labios 
em meio d'este cowbate: 

•^Tadre, padre I e quem a^assinou men pae» 
quern cegou ooiiiiha av6» e quem cobriu de infa- 
mia a minba. . . a toda a minha familia?' 

—'Tens razao, Carlos, fui eu; eu fiz tudo is- 
so: mala-me. Mas oh I mata-me, mata^me por 
tuas maos, e nao me maldigas. Mata-me, mata- 
me. £ decreto da divina justiga que seja assim. 
Ohl assim, meu Deus! as maos d'elle, Senhor! 
Seja, e a vossa vontade sq faga. . / 

pO frade cahiu de brugos no chao, e com as 
maos postas e extendidas para o mancebo, cla- 
mava: 

•---'Mata-me^ mata-me I aqui ha pouca vida 
ja: basta que me ponhas o p^ sobre o pescogo; 
esmaga assim o reptil venenoso que mordeu na 
tua familia e que fez a sua desgra^ e a de 
quantos amaram, Sim, Carlos, #^ tu o execu- 



NA MlNHA T£RBA S9 

tor das fras divinas. Mata-me. Tantos annos de 
penitencia e de remorsos nada fizeram; mata- 
me, liyra-me de mim e da ira de Deus que me 
persegue/ 



CAPITULO XXXV 



ReuoiSo de toda a familia. — £xpIicacSo dos mysterios. — 
coracao da mulher. — Parricidio. — Carlos beija emflm 
a mao a Frei Diniz e abraca a pobre av6. 



Georgina disse para Carlos : 

— *Da a mao a esse homera, levanta-o e di- 
ze-lhe as palavras de perdao que te pede/ 



Carlos fez um gesto expressive de horror e 
de repugnancia. Georgina ajoelhou aope do Tra- 
de, tomou as maos d'elle nas suas, e Ih'as affa- 
gou com piedade; depois levantou-lhe o rosto, 
incostou-o a si e gradualmente o foi accalman- 
do. velho parecia uma crianca mimada e sen- 
tida que se vae accalentando nos bragos da 
mae: agora so murmurava de vez em quando 
alguns solucos, a mais e a mais raros. 

•Estavam de joelhos ambos, o frade e a dama; 
elle mal se tinha, ella amparava em seus bra- 
^os, e contra seu peito o amortecido corpo do 
velho. E Georgina disse com aquelle som de voz 
irresistivel que as filhas de Eva herdaram de sua 
primeira mae, e que a ella ou Ih'o tinham antes 
insinado os anjos, ou o apprendeu depois da 
serpente, — um som de voz que 6 a ultima e a 
mais decisiva das sedac(oes femininas— disse: 

— *Este homem vae morrer, Carlos; e tu 
hasde-o deixar morrer assim, meu Carlos?' 

Todo odio, todas as oSensas se callaram, 
desappareceram deaute d'aquellas palavras do 
anjo supplicante. Meu Carlos ditto assim, nao 



NA lilNHA TERRA 93 

cuvira elle ha muito tempo, tiao Ihe pAde r6- 
sistir: extendeu os bra^os para o Trade, cahiu 
de joelhos aope delle, e urn so abra^o uniu a 
todos tres. 

Como no eterno grupo de Lacoonle, o velho 
e OS dois mancebos sentiam estreitar-se das co- 
bras da mesma dor, e aObgavam junctos da 
mesma angiistia. 

^ Assim estiveratn longamente ; e nSo se ouvia 
entre elles senSo algum gemido sdlto, e aquelle 
sussurrar sumido das lagrymas que mais se ou- 
\e com corafSo do que com o§ ouvidos. 

frade disse emfim com uma vo2 apenas 
perceptivel de timida e de fraca: 

— *Carlos, meu Carlos, perdoa tambem. . . oh 
perdoa si memoria de tua desgragada m$e ! ' 

mancebo saltou convulsamente como o ca- 
daver napilhagalvanica. Eqi pe, hirto, horrivel, 
tremendo, exclamou com urn brado de trov9o: 

^' Demouio I demonio incarnado em figura 



94 VIAGENS 

de homem, que vieste recordar-me? Dizias bem 
indagora, monstro: so as minhas maos deves 
morrer. E hasde! 

Lanfou-se a urn enorme velador de pau-san- 
clo que Ihe jazia aop6, raassa terrivel d'Hercu- 
les, e bastante a fender craneos de ferro, quanto 
mais a descarnada caveira do frade! D'ambas as 
maos a levava no ar; e o velho extendeu para 
elle a cabef a como na ancia de morrer . . . Geor- 
gina fechou involuntariamente os olhos, e um 
grande e medonho crime ia consummar-se . / . 

Dois gritos agudissimos, dois gritos de de- 
sespfiro e de terror, d'aquelles que so sahem da 
bdcca do homem quando suspenso entre a mor- 
te e a vida— soaram repentinamente no appo- 
sento ; uma velha decrepita e meia morta, ar- 
rastada por uma crianga de pouco mais de deze- 
seis annos, estava deante de Carlos, e ambas 
cobriam com seus debeis corpos a fragil e exte- 
nuada figura da sua victima. 

— 'Filho, meu fllho!* arrancou a velha com 
stertor do peito: *e teu pae, meu filho. Este ho- 
mem 6 teu pae, Carlos/ 



NA MINBA TERRA 9K 

ponderoso velador cahia inerte das inios do 
mancebo, e rolou pesado e bago peio pavimen- 
to. Carlos cahiu per terra sem sentidos. De um 
pulo Georgina estava aop6 d'elle e o fez incos- 
tar na longa cadeira de bia^os. Estava lavado 
em saDgue; era uma ferida do pescd^o que o 
excesso da commosao Ihe tizera rebentar. Os 
dois velhoj vieram ajoelhar-se aop6 d'elle. As 
duas inulheres mo^as lidavam pelo restaurar e 
Ihe estancar o sangue. A cambraia dos len^os, 
as rendas do collo e das cabe^as, tado se fez em 
ataduras e compressas: o sangue parou emfim. 

Admiravel belleza do cora^ao feminino, ge* 
nerosa qualidade que todos seus infinitos defei- 
to$ faz esquecer e perdoar ! Essas duas inulheres 
amavam esse homem. Esse bomem nao merecia 
tal amor: nao, por Deus! o monstro amava-as a 
ambas: esta tudo ditto. E ellas que o sabiam, 
e]Ias que o sentiam, e que o juigavam digno de 
mil mortes, ellas rivalizavam de cuidados e de 
ancia para o salvarem. 

De tanto nSo somos capazes nos. 

E por isso admir^mos tanto. 



96 VUOENS 

E perdo&mos tanto. 

E esquecfimos tanto. 

Mas amar taAto, &ao sabemos: verdade, ver* 
dade . . . 

Am&mos melhor; siiDi isso sim: tanto nao. 

O mancebo permaneoia em deliquio. Frei Dinic 
e a veiha reiavam. Geoi^ina e ioanninha — ja 
vereis que era Joauninha — olharam uma para 
a outra, coraram e ficaram Buspensas* A ingleza 
extendeu a mSo a amavel crian^a, extremeceii 
inToluntariainente, mas disse^he com firmeza: 

—'0 ditto ditto, Joanninha I Eu jA o nio amo ; 
prometto.' 

— *Eu amo-o cada vez mais, Georgina : elle 
€ taminfeliz!' 

— * Juras-me tu de o nao deixar, de velar por 
elle se^ipre, de o defender de si mesmo que ^ 
peior inimigo (|tte tern?* 



NA IIINHA TERBA* 97 

— *Sejttro!' 

— 'Eatao adeus, JoanniDhal Eu estou de mais 
aqui. Ja tenho ouvido o que d9o devia ouvir. 
Os segredos da tua familia d9o me pertencem. 
coragao d'esse homem nao 6 meu, nem o que- 
ro. E um nobre e grande coragao, Joanninha; 
mas . . . Nao te deixes dominar por elle se o que- 
res. segurar. AdeusI— Santarem estd desampa* 
rada pelos realistas; eu you para Lisboa. CoQ'* 
sola tua boa avo, e esse pobre velho. Elle nSo 
6 tarn criminoso, estou certa. . .' 

*— 'Oh nSoI Carlos cuida-o assassino de sett 
pae; e 6 falso. Minha avo ja me disse tudo.' 

—* False I' murmurou Carlos sem abrir os 
olhos: 'e falso? Pois nao foi elle que matou men 
pae?' 

— 'Nao, filho, clamott a velha: nao, meu fi* 
Iho; teu pae 6 este Infeliz.' 

— *E minha mSe?' 

-^'TuamSe. . .eeusomosduasdesgrasadas. 

7 



08 VlAQBMft 

Que mais queres saber? Tua mSe amou esse 
homem . . / 

-^'Abr disse Carlos: *ah!' e abriu os olhos 
pasmados para a av6 e para o frade que crava* 
ram os seus no cbdo, e ficaraiu como dois reus 
m presen^a do seu inflexivel juiz. 

^--^Mas esse homem que 6 . . . que por forga 
querem que seja meu . . . meu pae . . . Sancto 
DeusI elle matou o outro.' 

— *Defendi-me, foi defendendo 6sfa vida mi- 
leraveK , . Oh nunca eu o iizeral £ paraquS? 
Paraque quiz eu Yiver? Para isto!' 

— ^E meu tio, o pae de JoanoiDha? Tambem 
esse era preciso que morresse?' 

— ^Ambos se junctaram para me assassinar, e 
me aeeoi]|m^ttaram atrai^adameute na ebarne- 
ca. Nao os conheci ; foi de noite escura e cerra* 
da. Defendi-me sem saber de quem, e live a des- 
gra^a de salvar a minha vida a cust^ da 4'elles. 
Filho, filho, nao queiras nunca sentir o que eu 
sejpAlf Q^Puio p^gaada» um ^ uo), Di'esfte^ cada- 



KA MtNHA TERRA 

Teres para os lan^ar no rio, conbeci as minhas 
victimas. . . Era hvnverno, a cheia ia de valle a 
moDte: quando abateu e se acharam os corpos ja 
meios desfeitos, ninguem conheceu a niorte de 
que morreram ; passaram por se ter affogado. 
NiDguem mais soube a verdade seoao eu — e tua 
infeliz mae a quern o disse para meu castigo, a 
quern vi morrer de pezar e de remorsos, que ex- 
pirou nos meus brakes chorando por elle, e mal- 
dizendo-me a mim. Nao seria bastante castigo, 
meu filbo? — Nao foi, nao. Este burel que ba 
tantos annos me roga no corpo, estes cilicios que 
m'o desfazem, os jejuns, as vigilias, as ora^des 
nada obtiveram ainda de Deus. A sua Ira nao 
me deixa, a sua cholera vae ate a sepuitura so- 
bre mim . . . Se me perseguira alem d'ella I . . / 

Fez-se aqui urn silencio borroroso: ninguem 
respif ava ; o frade proseguiu : 

— 'Nao me dei por bastante castigado com a 
agonia de tua mae, a mais horrorosa e deses- 
perada agonia que ainda presenciei« oh meu 
Deus ! . . . live o cruel animo de explicar a tua 
avo as negras circumslancias d'aquella morte, e 
de Ihe patentear toda a fealdade e hediondez do 



100 VUOENS 

meu crime. Rasguei-lhe o coracao, e vWhe sa- 
hir sangue e agua pelos olhos, at^ que Ihe cega- 
ram. Que mais queres? Cuidei que podia mor- 
rer sem passar por esta derradeira expiacao. 
Deus nao o quiz. Aqui estou penitente a teus 
pes, iillio. Aqui esta o assassino de tua mae, de 
seu marido, de teu tio . . . o algoz e a deshonra 
de tua familia toda. — Faze de mim como for 
tua vontade. Sou teu pae. . .' 

— *Meu pae! . . . Misericordia, meu Deus!' 

— 'Misericordia, fiiho, e perdao para teu pae I* 

• 

Carlos levautau-se deliberadamente, veiu ao 
velho, tomou-o a pfiso nos bragos, foi senta-Io 
na cadeira que acabava de deixar, e pondo-se 
de joelhos, beijou-lhe a mao em silencio. De- 
pois foi abrapar-se com a av6, que o apalpava 
soffregamente com as maos tremulas, e mur 
murava baixo : 

— 'Agora sim, ja posso morrer, ja posso mor* 
rer porque o abracei, porque o senti juncto a 
mim, meu filbo, o filho da minha filha que-" 
rida. . .' 



NA MINE A TEBBA 101 

Carlos 6 que nao proferiu mais palavra; ti- 
nha-se-Ihe rompido corda no cora^So, que ou 
Ihe quebrara o sentimento ou Ih'o nao deixava 
expressar. Sahiu da cella fazendo signal que 
vinha logo : mas esperaram-n'o em vao . . . nao 
tornou. 

D'ahi a tres dias, vein uma carta d'elle, de 
juncto dTvora onde eslava com o exercito con- 
stitucional. 



CAPITULO XXXVI 



Que nSo se acaboa a hist^ria de Joanninfaa."Proce8Bo ao 
coracao de Carlos. — Immoralidade. — Defeito de organi- 
zacdo dSo 6 immoralidade. — Horror, horror, maldiccSo I — 
Urn barao que nSo perlence A familia lineana dds barOes 
propriamente dittos. — Porta de Atamarma.-*Seuatu8- 
coosuito santareno. — Nossa Seahora da Victoria affora" 
da. — Threnos s6bre Santarem. 



— Pois ja se acabou a hist6ria de Joanninha? 
-^Nao, de todo ainda ndo. 
— Falla muito? 



104 YIAJBNS 

~Tambem nao e muito. 

— Seja que for, acabemos; que esta a gen- 
te impaciente por saber como se concluiu tudo 
isso, que fez o frade, o que foi feito da ingle- 
za, jQanninha e a avo que caminho levaram, e 
pobre Carlos se . . , 

— Pois interessam-se por Carlos, um. honiem 
immoral, sem principios, sem corajao, que fa- 
zia a corte — fazer a c6rle ainda nao 6 nada — 
que amava duas mulheres ao mesmo tempo? 
Horror, horror ! como dizem os dramalicos ro-* 
manticos: horror e maldiccao! 

— ^Horror seja, horror sera. . . e horror e, 
sem dtivida. E maldicfao que deitarara ao po- 
bre homem. Mas immoralidade! Immoralidade 
e inganar, 6 mentir, 6 atraicoar : e elle nao o 
fez. Desgraga grande ter um cora; ao assim ; mas 
nao me digam que e prova de o nao ter. Eu di- 
go que elle tinha coracao de mais : o que 6 um 
defeito e grande, e um estado pathologico anor- 
mal. Physicamente produz a morte; e moral- 
mente,p6de matar tambem o sentimento. Bern 



NA MINBA TERRA 105 

creio: mas 6 molestia commum, e com que 
vae vivendo muila genie, at6 que um dia . . . 

— Cm dia, um orgam, que progress! vamente 
se foi dilatando, nSo podefunccionar mais, cessa 
a circulaf ao e a vida. Deve ser horrivel morle ! 

— Fallam physicamenle? 

— Physicamenle. Mas no moral anda pelo 
mesmo. E se esse e o defeilo de Carlos. . / 

— Sentir muito? 

— Nao; ter sentido muito: que o coracao, 
como orgam moral,, nao se dilata a esse ponto 
scnao pelo demaziado excesso e violencia de 
sensacSes que o gastarara e relaxaram. Se esse 
6 defeito, a molestia de Carlos, digo que ja sci 
fifn da sua hisl6ria sem a ouvir. 

— EntSo qual foi? 

— Que um bello dia cahiu no indifferenlismo 
absoluto, que se fez o que chamam sceptico, 
que Ihe morreu o coracao para todo o affecto 



106 VIA0IN8 

generoso, e que deu em homem politico oa em 
agiota. 

— Pode ser. 

— Mas qual das duas foi, deputado ou barao? 
queremos saber. 

— Saberao. 

— Queremos ja. 

— E se fossem ambas? 

— Oh horror^ horror, maldicfao, inferno! 
Ferros em braza, demonios prelos, vermelhos, 
azues, de todas as cores ! Aqui sim que toda a 
artelharia grossa do romantismo deve cahir em 
massa s6bre esse monstro, esse . . . 

— Esse qu6? Pois em se acabando o coragao 
a gente . . . 

— Eu nao creio n*isso. Acaba-se ia o coragao 
a ninguem f 



• • • • 



NA MINflA TSRRA 107 

Hottve gargalhada geral a casta do pobre in- 
credulo, e levantamo'-nos para ir ver o Sancto- 
milagre, que era a hora aprazada, e estava o 
prior & nossa espera. 

Amanhan o tim da historia da menina dos 
olhos verdes. 

No caminho incontramos o nosso antigo ami- 
go, barSo de P. — barao de outro genero, e 
que nao pertence a familia b'neana que n'esta 
obra procuramos classiticar para iiIustra([(o do 
seculo — cavalheiro generoso, e typo bem raro 
ja hoje da antiga nobreza das nossas provincias, 
com todos OS seus brios e com toda a sua corte- 
zia d'outro tempo, que em tanto relevo destaca 
da grosseria villan d'essas notabilidades impro- 
yisadas. . . 

Vinha em nossa procura para nos guiar. Se- 
guimo'-Io. 

Fomos de passagem observando algumas das 
mais interessantes coisas d'aquella interessan- 
tissima terra em que se nao pode dar urn passo 
sem que a reflexao ou a imagina^ao incontre 



108 VIAGBNS 

objecto para se entreter. Incirnando urn pouco a 
direita, demos na celebrada porta dc ^tamarma. 

Por aqui entrou D. AlFonso Henriques, por 
aqui foi aquella destemida surpreza que Ihe in- 
tregou Santarem, e acabou para senipre com o 
dominio arabe n'esta terra. 

Os illustrados municipes Santarenos tSem 
tido por vezes o nobre e generoso pensameiito 
de demolir 6sta porta ! o areo de triumpho de 
AD'onso Henriques, o mais nobre roonumento 
de Portugal ! 

A idea e digna da epocba. 

Felizmehte parece que tern faltado o dinheiro 
para a demolifao; e o senatusconsulto dos di- 
gnos padres conscriptos nao pode ainda execu- 
tar-se. 

Nao que eu creia este arco o genuino arco 
moiresco por onde entraram os bravos de D. Af- 
fonso ; mas creio que essa porta da antiga villa 
se foi reparando, concertando e conservando 
em suas successivas alterafoes, ate chegar ao 



NA MINHA TERBA 109 

que hoje esta : e ainda assim como esta, e urn 
monumento de respeito que so barbaros pensa- 
riam desacatar e destruir. 

Porcima d'ella esta uma capellinha de N. S. 
da Victoria : quer a tradicjao que primeiro er- 
guida e consagrada a Virgem peJo heroico fun- 
dador da monarchi'a e da iudependencia portu- 
gueza. Este 6 um dos miiitos pontos em que a 
religiao das tradicgoes deve ser respeitada e 
crida sem grandes exames, porqiie nada gauha 
a critica em p6r diividas, e o espirito nacional 
perde muito em as acceitar. 

Deixa-la estar a Virgem da Victoria s6bre o 
arco de Affonso Henriques. Prostremo'-nos e 
adoremos, como bons portuguezes, o symbolo 
da fe christan e da fe patriotica levantado pelas 
maos insauguentadas do triumphador! 

Mas seria elle ou nao que levantou essa ca- 
pellinha? OS documentos faltam, os escriptores 
contemporaneos guardam silencio; a hist6ria 
deve scr rigorosa e verdadeira . . . 

Deve : e os grandes factos imporlantes que fa^ 



110 VU6EN8 

zem epocha sao as balizas da historia de uma 
oa^ao, tambem eu os regeitarei sem do quando 
Ihes faltarem essas authfinticas indispensaveis. 
Agora as circumstancias, para assim dizer, epi- 
sodicas de um grande feito sabido e provado, 
quem as conservara se nao forem os poelas, as 
tradicgoes, e o grande poeta de todos, o grande 
guardador de tradicgoes, o povo? 

Eu creio na Senhora da Victoria de Santa- 
rem, e em muitos outros sanctos e sanctas, que 
a religiao do povo tern por esses nichos e por 
essas capellas e por esses cruzeiros de Portugal, 
a recordar memorias de que se nao lavrou outro 
auto, nao se escreveu outra escriptura, de que 
nao ha outro documento, e que os frades chro- 
niqueiros nao julgaram dever escrever no livro 
de terga ou de noa, em nenhum livro preto nem 
incarnado, porque o tinham por melhor escripto 
e mais bem guardado nos livros de pedra em 
que estava. 

Coitados! nao contaram com os apperfeigoa* 
dores, reparadores e demolidores das futuras 
civilizaQoes que, para por as coisas em ordem, 
tiiaiD priiueiro tudo do sea logar. 



NA MtNOA TERRA lit 

A camara de Santarem, nio podendo demo- 
lir arco, tomou urn meio termo que appdsto 
que ninguem e capaz d^ adivinhar. Afforou a 
capella porcima d'elle, com altar, com sanetos e 
tudo : e assim esleve afforada alguns annos, nSo 
sei paraquS nem porque ; o caso e que esteve. 

anno passado por6m (1812) comecou a ma- 
nifestar-se esta reac^ao religiosa que os especu- 
ladores quizeram logo converter em ganancia 
pcssoal, descontando-a no mercado das agiota- 
gens facciosas; mas perdem o seu tempo, inda 
bem! Veiu, digo, esta reacgao nas ideas das 
genles; e a capella da Senhora da Victoria so- 
bre arco, nao sei tambem como nem porquS, 
foi desafforada, e restliuida ao culto popular. 

Subimos a ver a capella por dentro : e um ri- 
fi^cimento ridiculo e miseravel, sem nenbuma 
da solemnidade do antigo, nem elegancia mo- 
derna alguma. 

Desapponton-me tristemente. Vamos ao San- 
cto-milagre depressa, que me quero reconciliar 
com Santarem ; e ja comefa a ser difficil. 



112 VUGENS 

Mas e injusti^a minha. Que culpa tern ella, 
coitada? 

Ai Santarero, Santarem, abandonaram-te, 
mataram-te, e agora cospem-te no cadaver. 

Santarem, Santarem, levanta a tua cabe^a 
coroada de tdrres e de mosteiros, de palacios e 
de temples ! 

Mira-te no Tejo, princeza das nossas villas: 
e veras como eras bella e grande, ricca e pode- 
rosa entre todas as terras portuguezas. 

» 

Ergue-te, esqueleto colossal da nossa grande* 

za, e mira-te no Tejo: veras como ainda sao 
grandes c fortes esses ossos desconjuntados que 
te restam. 

Ergue-te, esqueleto de morte, levanta a tua 
foice, sacode os vermes que te poluem, esmaga 
OS reptis que te corroem, as osgas torpes que 
te babam, as lagartixas pe^onbentas que se pas- 
seiam atrevidas por teu sepulchre deshonrado. 

Ergue-tc, Santarem, e dize ao ingrato Portu* 



NA HINHA TEftRA 113 

gal que te deixe em pai aomenos nas tuas foi- 
nas, myrrhar tranquillamente os tens ossos glo- 
liosos ; que te deixe em seus eofres de marinore, 
sagrados pelos annos e pela veneragSo antiga, 
as cinzas dos teus eapitaes, dos teus lettrados e 
graudes homens. 

Dize-lhe que te nao yendam as pedras de teus 
templos, que nao fagam palheiros e estrebarias 
de tuas egrejas; que nao mandem os soldados 
jogar a pella com as caveiras dos teus reis, e a 
bilharda com as cannellas dos teus sanctosi 

Tiraram-te os teus magistrados, os teus mes- 
tres, OS teus seminaries . , . tudo, menos o intu- 
Iho e a caliga, as immundices e os monturos que 
deixaram accumular em tuas ruas, que espalha- 
ram por tuas pragas. 

Santarem, nobre Santarem, a Liberdade nSo 
6 inimiga da religiao do c6o nem da religiao da 
terra. Sem ambas nao vive, degenera, corrom- 
pe-se, e em seus proprios desvarios se suicida. 

A religiao do Christo i a mSe da Liberdade, 
a religiao do Patriotismo a sua companheira. 

8 



Hi VIAGENS 

que nao respeita os templos, os monumentos de 
uma e outra, e mau inimigo da Liberdade, des- 
hoDra*a^ deixa-a em desamparo, intrega*a a ir- 
risao e ao odio do povo 



Yamos ao Sanclo-milagre. 



CAPITULO xxxvn 



A Graca e sua bella fachada gothica — Sepaltura de Pedr'- 
alyares Gabral. — Outro barSo que dSo 6 dos assignala- 
dos. — Egreja do Sancto-milagre. — Bellos medalbOes 
mosarabes. — De coroo, cbegando o prior e o joiz, bouve 
A. yista do Sancto-milagre, e com que solemnidades. — 
MoDumento da muilo alta e poderosa princeza a infanta 
D. Maria da AssumpcSo.— Gasa onde succedeu o mila- 
gre, conyertida em capella do stylo pbilippino.— ho- 
mem das betas, e o que tern elle que haver com o Sancto-^ 
milagre de Sautarem. — Admirayel e graciosa esperteza 
da regencia do Rocio. — Aaroun-el-Raschid : e theoria dos 
gOTemos foIgasCes, os melhores goyernos possiyeis. — Yol- 
ta paladio scalabitano de Lisboa para Santarem. 



Inclinamos o npsso caminho para a esquerda, 
e fomos paesar deante do arr^ndado e elegante 
frontispicio gothico da Graca. A ausencia de 
nao sei que regedor, ou insignificante persona- 



116 YIAGBNS 

gem de egual importancia que tern as chaves da 
egreja e convento. nos fez perder toda a espe- 
ranga de visitar a sepuitura de Pedr'alvares Ca- 
bral que alli jaz, assim como outras bellas e in- 
teressantes antiguidades de nao menor pre^o. 

Fomos seguindo at^ casa do barao d'A., ou- 
ro illegitimo, porque d3o pertence aos baroes 
assignalados 

Que, sem pass^^r aldm da Taprobaoa, 
No Telho Portugal edificarara 
Novo reiuo que tanto subljmaram. 

IncoDtramo*-lo prompto a accompaBhar-nos, e 
a presidir, como juiz da irmandade que 6, a 
grande cerimouia da exposigao e osteusao do 
Sancto-milagre. 

Junctos descSmos i egreja, que i perto. 

A egreja 6 pequena e do peior g6sto moderno 
per dentro e por fora. Notavel nao tern aada se- 
sao uns quatro medalhdes de pedra lavrada com 
bustos de homens e mulheres em ret£?o que 
tisivelmeAte perteiM^eram a edificQcao aotiga, e 



NA MIlfHA TERRA 117 

que actualmente estSo incrustados na tosca al- 
venaria do cruzeiro. 

Os bustos sao de puro e finissimo lavor go- 
thico, altos de relftvo e desenhados com uma 
franqueza que se nao incontra em esculpturas 
muito posteriores. 

Sao talvez reliquias da primitiva egreja do 
Sancto-milagre que nas successivas reedifica- 
coes se teem ido conservando. Abengoado seja 
escrupuloso que as salvou d'este liltimo melho-' 
ramento que houve no desgracado e desgracioso 
templo : o que nao foi ha muitos annos porcerto. 

Chamo gothico ao lavor d'aquellas cabecas, 
porque e a phrase vulgar e impropria usada de 
toda a gente: segundo ja observe! n'outra par- 
te, com mais exaccao se devdra dizer mosarabe. 

Chegou prior, o Sr. juiz deu as suas ordens, 
vieram uns poucos de irmaos com tochas> dis- 
tribuiram-nos a cada um de n<is a sua, e proces- 
sionalmente nos dirigimos a porta lateral do al- 
tar^mdr, da qual se sobe, por hma escada assas 
larga e commoda, a ^specie de camarim que 



118 V1A6EN8 

estd parallelo com o mais alto do throno em que 
perpetuamente se conserVa o grande paladio 
santareno. 

Subimos, acompanhado's do prior em sobre- 
peliz e estoia; chegados ao alto, ajoelhamos em 
roda d'elle que subiu a uns degrausinhos, abriu, 
com a chave dourada que trazia pendente ao 
pescofo, uma como porta de sacrario, depots 
ajoelhou, incensou, tornou a ajoelhar, disse al- 
guns versetos a que respondeu o sacristao, e fi- 
nalmente lirou de seu reposltorio uma espeeie 
de ambula de ouro de fabrica antiga, mas nao 
mais antiga que o decimo sexto, ou decimo 
quinto seculo, quando muito. 

Depois de nos inclinarmos e receber a ben- 
gam que padre nos deitou com a reliquia, foi- 
nos permittido erguer-nos, e chegar perto para 
ver e observar. 

Entre uns cristaes ja bem velhos e imbacia- 
dos se descobre comeffeito o pequeno vulto 
amarellado-escuro que piedosamente se cr6 ser 
resto da particula consagrada que a judia rou- 
bara para sens feiticos. 



NA MINOA TIEEA 119 

Escaso ooDtar a bistdria do Sancto-milagre de 
Santarem qae toda a gente sabe. bom do 
prior, ex-frade trino gordo e beni conservado, 
nao Qos perdooa o menor ponto d'ella, que tive* 
mos de ouvir com a maior compuncgSo. 

Incerrada outra vez a ambula com as mes» 
mas solemnidades, entrdmos em conversa{ao 
com .0 prior. 

N'aquelie mesmo camarim juncto a devota 
reliquia se conservaram, por espa^o de cinco ou 
seis amios, se bem me recordo do que o bom 
do parocho nos contou, os restos mortaes da se- 
nhora infanta D. Maria da Assumpgao, que fal- 
lec^ra em Santarem nos liltimos mezes da oc- 
cupacao d'aquella villa pelas fdr^as realistas. 
cadaver, mal imbalsemado e com mas drogas, 
foi mettido n'um caixao de folha de Flandres. 
Em pouco tempo a corruppao estragou e rompeu 
a folha e uma infecgao terrivel apestava a egre- 
ja. Soffreu-se isto annos, representou-se ao go- 
vSrno por vezes, mas nenhuma resolu^ao se 
pdde obter. Ate que atinal, declarando o prior 
que, se nao mandavam tomar conta d'aquelles 
tristes restos da pobre princeza, die se via obri- 



ISO yU«BK8 

g^do a metH-los bA terta, foi-Ihe respmidido 
qtte (izesse cotao intendesse; e die intetideu 
que OS devia sepultar no cruzeiro da egreja, co^ 
mo fez, do lado da epistola^ isto 6, A dir^ita. 

E ahi jaz em sepultura raza, sem mais dis- 
tinopao nem epitaphio, a muito alta e poderosa 
princeza D. Maria, filha do muito alto e pode- 
roso principe D. Joao o YI, rei de Portugal^ im- 
perador do Brazil, e da conquista e navegacao 
etc. 

Assim e o mundo^ as suas graudezas e as suas 
glorksl 

A visita ao Sancto-milagre »ao 6 completa 
sem se ir yer a ^asa onde elle se operon. Gon- 
servou^se ella por alguns seculos em grande ve- 
nera^ao, e em mil seiscentos e tautos se con- 
verteu porfim em capella. Hoje esta abandonada, 
chove em toda ella, e apenas tem uma ma porta 
que a defeode das incursoes dos animaes. Pena 
e desleixo grande, porque e elegante e graciosa 
a capellinha, iavrada de bons marmores, no me- 
Ihor gdsto do decimo-settimo seculo, de renas*- 
cen^a ja muito adiantada no classioo: i urn ver^ 



NA MINHA TEBRA 121 

\ 

dddeiro typo do stylo philippino, que tanto pre- 
domina n'essa epodba em toda a peninsula. 

A histdria do Sancto-milagre de Santarem mui^ 
tas vezes tem andado ligada com a hist6ria do rei* 
no ; e ja n'este seculO) no tempo da guerra da in- 
depeodencia, veiu prender com um dos factos 
mais importantes, e tambem com a mais curiosa 
e comica aventura de que em Lisboa ha memoria. 

Alludo nada menos que ao 'homem das bo- 
tas.' E perdoem-me as senhoras beatas a irre- 
verencia apparente, que bem sabem nao ser eu 
de molejar com as coisas serias e sanctas. Mas o 
facto t que a historia do Sancto-milagre esta liga- 
da Com a c6lebre hist5ria do *homem das botas.* 

Saiba pbls o leitor contemporaneo, e saiba a 
posteridade, para cuja instruccao principaimenle 
escrevo este douto livro, que pela invasao de 
Massena, o grande paladio scalabitano foi man- 
dado recolher a Lisbt)a, e ahi se cooservou al- 
gun8 annos ate muito depois da completa reti<- 
rada dos francezes. 

Passado todo o perigo de qne o ex^cito inva«- 



Hi YUGENS 

sor roubasse — ou profanasse — que era o mais 
provavel— a sancta reliquia, comefou a recla- 
ma-Ia o senado e o povo santareno, e a mostrar 
muito pouca voDtade de Ih'a (estiluir o senado 
e povo ulyssiponense. Era uma questao d'entre 
Alba e Roma que dava serio cuidado aos refie* 
ctidos Numas da regencia do Rocio. 

Em poucas perplexidades tam graves se viu 
aquelle pobre gov6rno que tanlas teve, e de 
quasi todas se sahiu tam mal. 

Nao assim d'esta, que a evitou com o mais 
inesperado e admiravel stratagema, digno de 
ornar os maravilhosos fastos do g]:iande Aaroun- 
el-Raschid, ou de qualquer outro principe de 
bom humor, d' esses poucos felizes que em feli- 
zes tempos reinaram a brincar, e zombaram 
com seu povo, mas fazendo-o rir. 

Pols, senhores, apertada se via a regencia 
d'estes reinos com a restitui^ao do Sancto-mila- 
gre que era de justica fazer-se a Santarem, mas 
que Lisboa recusava, e amcajava impedir. Te- 
mia-se alboroto no povo. 



y 



NA UINBA TEUBA 123 

Nao sei de quern foi o alvitre, mas foi de ma- 
ganao de bom gosto ; e bom gdsto teve tambem 
goyferno em o acceitar e approveitar. Para o 
dia em que o Sancto-milagre devia sahir de Lis- 
boa Tejo acima, e que sc esperava fosse com 
grande solemnidade e pompa ecclesiastica, — 
fez-se annunciar por cartazes que um fulano de 
tal passaria rio, de Lisboa a Almada, em umas 
botas de cortica nas quaes se teria direito e in- 
chuto, navegando a pe sem mais embarcajSQ, 
vela nem remo. 

A logragao era gorda e grande ; melhor e mais 
depressa foi inguUida. No dia apprazado despo- 
voou-se a capital, e uns em barcos oulros por 
navios, outros por essas praias abaixo, tudo se 
encheu de gente de todas as. classes, c todos 
passaram o melhor do dia a espera do homera 
das botas. 

No emlanto, muito surrateiramente imbarcava 
Sancto-milagre no seu barco de agua-arriba, 
e navegava com vento e mare para as ditosas 
ribeiras de Saotarem. 

Ninguem o viu sahir, nem soube novas d'elle 



124 ' VIA0EN8 

em Lisboa senSio quando constou da sua chega- 
da a Santarem, e das grandes fe&tas que Ihe 
fizeram aquelles saudosos e devotos povos riba- 
tejanos. 

Os AarouDS-eMtaschids do Rocio riram de 
soccapa: e nunca tarn innocentemente se riu go- 
y6rno algum de ter inganado o povo. 

Nos celebramos a hi$t6ria como ella merecia, 
e fomos jantar a Alca^ova, para irmos de tarde 
ver a Ribeira e procurar os vestigios do seu in- 
clyto alfageme. 



CAPITUIO xxivin 



^aqtar dqs reaes ^cos cle Affoaso Hepriquos.r- Sautes e sal- 
mis. — Desce o A. 4 fiibeira de Santarem em busca da 
tenda do Alfageme. — A espada do GondestaTel. — Desap- 
pontamento. — salao elegante. Dissipam-se as ideas ar- 
cheologicas. Os fosseis. — Tudo melhor quando yisto de 
longe.-^O baile pi!kblico. — Soiree de piano obrigado. — 
Tt^eatro. Desafinacdes da prima-dona. Syphilis incuravei 
4as traduccOes. Destemp^ro dos originaes. — A x4cara de 
rigor, subterraneo e o cemiterio. — Sublime galliroa^ 
tbias do ridiculo.— *A bella e necessaria patayra ^galli- 
loatl^ias.' — l^e as saudades matam. — Perigo de applicar 
scalpello on a leatfi! ao mais perfeito das coisas huma" 
nos. — De como a logica 6 a mais perniciosa de todas as 
iacoherencias. 



£$peiraya-iiflN» eomeiTeito em casa do nosso 
htm bospede, nos regies pagos de Affonso Hen- 
riquea, urn espleodido jaatar a que assistiram 
quasi todos os cav^lbeiros da terra* *-Nao quero 



126 VUG ENS 

dizer as nOtabilidades, por ser palavra peralvi- 
Iha a que tenho invencivel zanga. — As iguarias 
de legitima eschola portugueza, nao menos sa- 
borosas e delicadas por apparecerem estremes 
de sautes e salmis extrangeirados. Brilharam 
sdbre tudo os productos das duas grandes yen- 
dimas rivaes, do Ribatejo e Ribadouro. Foi largo 
e alegre o jantar. 

Acabdmos tarde, montamos logo a cavallo, e 
pela porta de Atamarma descemos a Ribeira; 
era quasi sol posto quando la chegamos. 

jfe suburbio democratico da nobre villa, hoje 
ricco e o forte d'ella. Faz lembrar aquellas 
aldeas que se criaram a sombra dos castellos 
feudaes e que, libertas, depois, da oppressora 
protecQao, ereseeram e ingrossaram em sub- 
Btancia e fdrga : o castello, esse esta vazio e em 
ruinas. 

Por aqui se faz quasi todo o commercio da 
Extremadura e Beira com o Alemtejo. Os babi- 
tantes laboriosos e activos conservam os antigos 
brios e independencia do character primitive ! e 
a unica parte viva de Santarem. 



NA MINHA TEHRA 127 

Cruzamos a povoa^ao em todos os senlidos, 
procarando rastrear algum vestigio, confrontar 
algam sitio oade podessemos collocar, pela mais 
atrevida supposi^ao que fosse, a tenda do nosso 
alfageme com as suas espadas bem 'corrigidas/ 
as suas armaduras luzentes e bem postas— e o 
joven NuQ'alvares passeando alii por pe, ao lon- 
go do rio— como diz a chronica— namorado 
d'aquella perfeigSo de trabalho, e dando a 'cor- 
reger' a bella espada veiha de'^eu pae ao rus- 
tico propheta que tantos vaticinios de grandeza 
ihe fez, que o saudou coDdestavel^ conde d'Ou* 
rem e Salvador da sua patria. 

Nada podemos descobrir com que a imagina- 
cao se illudisse siquer, que nos d^sse, com mais 
ou menos anacbronismo, uma leve base tamso^ 
mente para reconstruirmos a gothica morada 9o 
celebre cutileiro-propheta que a historia herdou 
das chronicas romanescas, e hoje o romance ou'- 
tra vez reclama da historia. 

Em Santarem ha poucas casas particulares 
que se possam dizer verdadeiramente antigas ; 
na Ribeira, nenhuma. As implastagens e replas^- 
tagens successivas teem anachronizadotudo. E 



12S VIA6ENS 

uma feliz expressSo do Sr. Conde de Raczyaski 
bem applicada por elle ao estado de quasi todos 
OS nossos moBumentos, ^sta de aaachrOQismo. 

Mas alii, na villa alta ou Marvilia, no SaiUa- 
rem propriamente ditto, ha os templos, os goih 
ventos, a c6rca das muralhas que todavia oon? 
servam a physionoinia historica da terra; aqui 
nem isso ha. 

Yoltei completamente desappontado da Hi* 
beira, isto 6, da sua pedra e cal: gosto iipmenso 
da sua gente. 

Outra surpreza de mui differente geoero nos 
esperava a noite em Marvilia, no elegante salio 

da B. d'A.) com quern fomos tomar cha. 

* 

Em meio das ruioas e descoofdrto d'aquetles 
desertos e mortos pardieiros circumstaates, it 
incontrar uma casa em plena florescencia de ci* 
vilizacao e de vida ; ver a amabilidade e a ele- 
gancia fazendo graciosamente as bo&ras d'ella 
— por mais que se devesse esperar — sempre 
espanta a primeira vista: pareeia golpe de vari« 
nha de condao. 



NA MINHA TERRA 129 

Em tarn agradavel e joven companhia todas 
as ideas archeologicas se desvaneceram, apezar 
de dois ou tres fosseis que alli appareciam para 
se nao perder de todo a c6r local talvez. 

Largamente se conversou, de Lisboa princi- 
palmente, dos nossos mutuos amigos, das festas 
do tiltimo hynverno, das probabilidades que se 
deviam esperar do futuro. 

Ralhimos muito da sociedade portugueza; 
exaltamos Paris e Londres e nao sei se Pekim e 
Nankim tambem, e concluimos que antes Tim« 
bokotuo do que a seccante capital do nosso'po- 
bre reino. E comtudo estavamos com saudades 
d'ella; e concessSo d'aqui, concessao d'alli, vie- 
mos a que nao era tam ma terra como isso. 

Admiravel condic^ao da natureza bumana, 
que tudo nos parece melbor e menos feio quan- 
do ^sto de longe I 

baile publico mais semsabor, detestavel de 
barulho e confusao, em que, para repousar os 
olbos n'um rosto conhecido e agradavel, foi pre- 
cise furar por entre centenas de cotovellos bar- 

9 



13 TIAQET^S 

baros que se nSo sabe d'onde vierarti, levar de- 
salmadas pisadellas do danyante tiovi^o, do de- 
putado recemchegado, e das botas novas do novo 
director da Galocha— e, mais horrivel qae lu- 
do! ver as absurdas toiletes, os penteados fabu- 
losos, as caras incriveis e as antedilutiaflas (i- 
guras de tanta niulher feia e desdstrada . . . pdid 
esse mesmo baile, quando ja nSo 6 senSo remi- 
niscencia que acorda no meio do irifado ronc6l^ol 
de uma terra de provincia, parece outro. As lu- 
zes, as flores, a rausica, toda aquella animacao 
lembra com prazer, o mais esquece, e involun- 
tariamente se descae um pobre hotflem a su^pi- 
rar por elle. 

A soiree mais massante, de piano obrigado^ 
com dueto das manas, polka das primas e casino 
das tias velhas — recordada em eguaes circum- 
stancias, tambem ja n5o accede i meiiioria se- 
n9o como uma reuniSo escolhida e intima, de 
facil e doce traclo ... oh ! o verdadeiro prazer 
da sociedade. 

Pois theatre . . . Que se lembre alguem na 
provincia dos martyrios que soffreu o ouvido com 
OS berros da prima-dona, as desafinafoes do te- 



NA MINHA TERRA 11 

nor, ou com o infadonho resonar d'aqtiella ador* 
ndecida orchestra de SanTarlos ! 

A injoativa traduc^ao de uma comedia da Rua« 
dos-condes, roida de incuravel syphilis, figura- 
se avelludada de todas as gramas do stylo de 
Scrihe. 

E destemp6ro original de um drama plus* 
quam romantico, laureado das immarcessiveis 
palm as do Conservatorio para eterno abrimento 
das Dossas bdccas! La de longe applaude-o a 
gente com furor, e esquece-se que fummou todo 
primeiro acto ca fora, que dormiu no segun- 
do, e conversou nos oulros, ate a infallivel sce- 
na da xacara, do subterraneo, do cemiterio, ou 
quejanda; em que a dama, soltos os cabellos e 
era penteador branco, indoudece de rigor,— o 
gallan, passando a m9o pela testa, tira do pro- 
fundo thorax os tres ahs! do stylo, e promette 
matar seu proprio pae que Ihe appareca — o cen- 
tro perde o centro de gravid ade, o bar has ar- 
repella as barbas. . . e maldiccao, maldicgSo, 
inferno! . . . 'Ah mulher indigna, tu n9o sabes 
'que n'estc peito ha um coracao, que d'este co- 
'rafSo sahem umas arterias* d'estas atterias 



132 VUGENS 

'umas veias— e que n'estas veias corre san- 
'gue. . . saogue, saogue! Eu querosangue, por- 
*que eu tenho sfide, e 6 de sangue ... Ah ! pois 
Hu cuidavas? Ajoeiha, mulher, quero matar. . . 
'esquartejar, chacinarl*— E a mulher ajoeiha, 
e uao ha reoiedio senao applaudir . . . 

E applaude-se sempre. 

E nao k de mim que fallo, que eu goslo d'is- 
to : OS outros k que se enfastiam e cansam de 
tanta barafusta, sempre a mesma. . . 

Mas emfim o que digo e que na provincia 
nao ha tal fastio, que esquece a canseira, e que 
nem o sublime gaUimathias do ridiculo d'alli se 
percebe. 

Peco aos illustres puritanos que, a fdrga de su- 
blimado quinhentista, teem conseguido levar a 
lingua a decrepitude para a curar de suas infer- 
midades francezas, pego-lhes que me perdoem 
gaUimathias, porque elle e muito mais portu- 
guez que oulra coisa. A celebre ora^ao pro 
gallo Mathiae deu a origem a esta bella e ex- 
pressiva palavra, que sim foi procreada em fran- 



NA MINHA TERRA 133 

cez, mas hoje precisSmos ca muito mais d*ella 
que em parte nenhuma. 

Yolto ja da digressao philologica : tornemos a 
optica e a catoptrica. 

Grande coisa k a distancia I 

E dizem que saudades que matam ! Saudades 
dao vida; sao a salva^ao de muita coisa que, 
era seu pleno gdso e posse pacifica, pereceria 
de inanifiao ou morreria tia oppressora molestia 
da sociedade. 

For isso eu n3o gosto de metter o scalpello 
no mais perfeito da construcgao humana, nem 
de applicar a lente ao mais fino e delicado do 
seu funccionar... 

Yamos usando d'estas palavras queherdamos, 
sem metter louvados na heranca; nao succeda 
descobrirmers que estamos mais pobres do que 
se cuidava . . . vamos repetindo estas phrases que 
nos formularam nossos antepassados sem as ana- 
lysar com muito rigor ; nao succeda vermes claro 
demais que temos passado a vida a mentir . . . 



I3i VUGEN8 

Detesto a pbiIo6ophia> detesto a razSo ; e sin- 
ceramentc creio que n'um mundo tarn descoo- 
chavado'como este, n'uma sociedade tarn falsa, 
n'uma vida tam absurda como a que nos fazem 
as leis, os costumes, as iostitui^Ses, as conve- 
niencias d'ella, affectar nas palavras a exacti- 
dao, a logica, a rectidao que nSo ha nas coisas, 
e a maior e mais peruiciosa de todas as iucohe- 
rencias* 

NSo fallemos mais n'isto, que faz mal, e aca- 
bemos aqui este capitulo. 



CAPITULO XXXIX 



Processo de scepticismo em qae esti o auctor. — Moralislas 
de requiem. — maior sonho d'esta yida, a logica. — Dif- 
ferenca do pocta ao philosopho. — coracao de Horacio. 
— coUegio de SaDtarem. — Jesuitas e templarios. — 
alHado natural dos reis. — 'Ficar na gazela' phrase muito 
mats eiacta bojo do que ^Ficar no tmteiro.'-^Saa Frei 
Gil e Doutor Fausto.~De como o A. fol ao tumulo do 
saucto bruxo e o achou vazio. — Quem o roubaria? 



final docapitulo antecedente 6, bem o sei, 
urn terrivel documento para este processo de 
scepticismo em que rae mandaram metter cer- 
tos moralistas de requiem de quem tenho a aii* 



136 VIAGENS 

dacia de me rir, d'elles e da sua querella e do 
seu processo, protestando nao me aggravar nem 
appellar, nem por nenhum modo recorrer da 
miritica senten^a que suas excellentissimas liy- 
pocrisias se dignarem proferir contra mim. 

Feita 6sta declaracao soJemne, procedamos. 

E quanto a ti, leitor benevolo, a qu«ra so de- 
sejo dar satisfacao, a ti, se ainda te cansas com 
essas chymeras, dou-te de conselho que voltes 
a pagina obnoxia, porque essas reflexoes do ul- 
timo capitulo sao tarn deslocadas no meu livro 
como tudo mais n'este mundo. Dorme pois, e 
nao despertes do bello-ideal da tua logica. 

£ uma descoberta minha de que estou vai- 
doso e presumido, esta de ser a logica e a exac- 
(So nas coisas da vida muito mais sonho e muito 
mais ideal do que o mais phantastico sonho e o 
mais requintado ideal da poesia. 

IE que OS philosophos sSo muitos mais loucos 
do qiie os poetas; e de mais a mais, tontos: o 
que est'outros nao s9o. 



NA IIINBA.T£BBA 137 

Yoltemos, voltemos a pagiaa comefleito, que 
e melhor. 

Amanhecea hoje urn bello dia, puro e subli* 
me. Dorme nas carernas do padre Eolo aquelle 
vente s6cco e duro, flagello dos estios portu- 
gaezes. Suspira no ar uma viragao branda e 
suave que regenera e dd vida. Mai empregado 
dia para o passar a ver ruinas ! No seio da sem- 
pre joven natureza, sob a remo^ada espessura 
das arvores, sdbre a alcatifa sempre renovada 
das grammas verdes e variegadas boninas, que- 
ria eti que me corresse este dia em ocio bem- 
aventurado de corpo e d'alma, sentindo pulsar 
lento e compassado o cora^So livre e s61to de todo 
impenho, o verdadeiro cora^ao de Horacio. 

Solatus omni foenorel 

Tomdra-me eu no valle outra vez, com a ir- 
man Francisca a dobar a porta, a nossa Joanni- 
nha a deslindar-lhe a meada; e embora venha 
terrivel spectre de Frei Diniz projeclar sua 
tragica e funesta sombra no idilio d'estc quadro 
suave, que n§o p6de destruir-lhe toda a ameni- 
dade bucolica, por mais que fa(a. 



13S yUGBNB 

La voliaremos ao no^so valie, amigo leitor, e 
la concluiremos, como e de razao, a hisldria da 
menina dos rouxinoes. Por agora almocemos, 
que ^ tarde, e terminemos os nossos esfudos ar- 
cheologicos em Marvilla de Santarem. 

€a estamos do Collegio, edificio grandiogo, 
vasto, magnitico, propria habita^ao da compa- 
nhia-rei que o mandou construir para educar os 
infaoteg seus filhos. 

Creio que esta e a de Coimbra eram as duas 
priucipaes casas que para isto tiuham os Jesui- 
tas em Portugal. 

Foram os templarios dos seculos modernos, 
OS Jesuitas. A potencia formidavel e quasi regia 
que aquelles levaotaram com a espada, tinham 
estes fundado com a doutrina. Riquezas, pod^r, 
iofluencia, uns e outros as tiveram com applauso 
e acquiescencia>geral; uns e outros as perde- 
ram do mesmo modo. 

Extinctas e perseguidas, ambas as ordens re- 
nasceram no mysterio, e se converteram em as- 
sociagoes secretas para conspirarem ; ambas to- 



NA MINHA TBBRA 139 

maram diversos nomes e variadas mascaras para 
fazerem mais seguramente. 

Ambas em yao I 

predominio, crescente ha seculos, do ele- 
mento democratico annulla todas essas conspi- 
ragoes. Sos e sem elle^ os reis tinham succum- 
bido . . • E a alliada natural dos reis a deniocra- 
cia. 

edificio do CoUegio e todo philippino, ja o 
disse : a egreja dos mais bellos ^ecimens d'esse 
fitylo, que em geral s^cco, duro € sem poesia, 
nao deixa comtudo de ser grandioso. 

Aqui esteve depois muitos annos o semioario 
patriarchal, cujas aulas frequentava a mocidade 
do districto. Hoje leem-se alii outras palestras 
da cathedra administrativa. £ a s6de do govdr- 
no civil cbamado : corromper a moral do povo, 
sophismar o systema representative 6 o tberoa 
das Heroes. 

Todo outro insino se tirou de Santarem. FaU 
la-se n'um liceu e nSo sei em que mais 'que fi- 



1 40 YUGBNS 

con na gazeta:' phrase portagneza modema 
que deve supprir a antiga e antiqaada de — 'fi- 
cou no tinteiro'— por muitas razoes, ate porque 
hoje nao fica nada no tinteiro senao o senso 
commum, tudo o mais de la sae, tudo. E muitas 
gramas a Deus quando nao passa as ballas do im- 
pressor para dar a voltji do mundo. 

Santarem 6 das terras de Portugal a melhor 
situada e qualiGcada para urn grande estabele- 
ciraento de instrucgSo e de educagao piiblica. 
Por que nao hade estar aqut o Coilegio^militar 
ou a Casa-pia, ou outra grande escbola, seja 
qual for? Por que hade ser 6sta centraliza^ao 
d'insino em Lisboa? Em que se funda um privi- 
legio dado a capital em prejuizo e a custa.das 
provincias? 

Sahimos do Coilegio, fomos direitos a San 'Do- 
mingos, um dos mais antigos estabelecimentos 
raonasticos do reino e que eu tanto desejava vi- 
sitar. Nao sei descrever o que senti quando a 
inferrujada chave deu a volta na porta da egreja 
e velho tempio se patenteou aos nossos olhos. 
Acabara de servir, nao imaginam de qu6 . . . de 
palheiro I 



NA MINHA TERRA 141 

A derradeira camada de paiha que apodrcc6- 
ra adheria ainda ao lagedo humido, e exhalava 
urn forte vapor mephytico que nos suffocava. 
Mai pod^mos ver os tumulos dos Docems e tau- 
tos outros interessantes monumentos que abun- 
dam na parte superior do tempio. A inferior, ou 
corpo da egreja como dizem, e de um misera- 
yel e moderno anachronismo. 

Respirando a custo aquelle ar infecto, todo o 
tempo que Ihe pudesse resistir, quiz approveita- 
lo em examiuar a principal e mais interessante 
reliquia da profanada egreja— a capella e jazigo 
do grande bruxo e grande sancto, SanTrei Gil. 

Algures Ibe chamei ja o nosso Douctor Fausto ; 
e 6 comeffeito. Nao Ihe falta senao o seu Goethe, 

Yixere fortes ante Agamemnona multi. 

Houve fortes homens antes de Agamemnao, 
e fortes bruxos antes e depois do Douctor Fausto. 
Mas sem Homero ou Goethe e que se nao chega 
a fama e reputa^ao que alcan^aram aquelles se- 
nhores. ^Nos precisHmos de quern nos cante as 
admiraveis luctas— ora comicas, ora tremen- 



142 TIAGElfS 

das — do nosso Frei Gil de Santarem com o diabo. 
qae eu 6z na 'Dona Branca' 6 pouco e mal 
esbogado d pressa. grande mago lusitano nao 
apparece alii senao episodicamente; e e neces- 
sario que apparega como protagonista de uma 
grande acgdo, pintado em corpo inteiro, na pri* 
meira luz, em toda a luz do quadro. 

Entao sen ardente e anciado desejo de sa- 
ber, OS sens vastos estudos, os reconditos mys- 
terios da natureza que descobriu al6 penetrar 
no mundo invisivel— a sfide de oiro, de prazer 
e de poder que o perseguia e o fez cahir nas 
garras do espirito maligno — o fastio e saciedade 
que desincantaram depois— o seu arrependi- 
mento emfim, e a regeneracao do sua alma pela 
penitencia, pela oracSo e pelo desprfizo da van 
sciencia humana — entSo essas variadas phases 
de uma existencia tam extraordinaria, tam poe- 
tica devem mostrar-se como ainda nao foram 
vistas, porque ainda nSo olhou para ellas nin- 
guem com os olhos de grande moralista e de 
grande poeta que sSo precisos para as observar 
e intender. 

Lembra-me que sempre entrevl isto desde pe- 



NAMINHA TERRA 143 

queno, qaando me faziam ler a hist6ria de San' 
Dotningos, tam rabujenta e semsabor as vezes, 
apezar do incantado slylo do nosso melhor pro- 
sador; e que eu deixava os outros capitulos para 
ler e reler somente as aventuras do sancto fei- 
ticeiro que tanto me interessayam. 

Com todas egtas reminiscencias que me revi- 
viam n'alma, com os admiraveis versos do Fausto 
a acudir-me a memoria, e com uma infinidade 
de associ^coes que essas ideas me traziam, ca- 
minhei direito a capella do sancto, cheio de al- 
voroco e como tocado, para assim dizer, de sua 
magica vara de condao. 

A capella— oh desappontamento! a capella 
de San'Frei Gil e um mesquinho rifacimento 
moderno, do lado esquerdo da egreja, sem ne- 
nhum vestigio.de antiguidade, nenhum ornato 
characteristico, pesada e grosseira — velha sera 
ser antiga — um verdadeiro non-descriptum de 
mau gosto e semsaboria. Quem tal dissera? 

tumulo do sancto esta elevado do altar n'uma 
especie de mau throno. Subi acima da degradada 
e profanada credencia para o examinar deperto. 



Ii4 VIAOBNS 

£ de pedra o jazigo; mas ultimamente ve-se 
que tinham pintado a pedra ; nao tern lavor al- 
gum.— E estava vazio, a loisa levantada e qae- 
brada ! . . • 

Quern me roubou o meu sancto? - 

Quem foi o anathema que se atreveu a tal 
sacrilegio?. .. 



CAPITULO XL 



As Claras.— ATentUf a tiocturna.— Se ds freirad tuettem 
medo aos liberaes? — Psalmo. — Tres frades. — Prd- 
tica do fraociscano. — corpo de Saa-Frei lO^jl,— Que se 
hade fazer das freiras? — Mai do goY^rDO qae deixar co* 
mer mais aos barOes. 



Era de noite, reinava a confiisao, a desO^ 
dem, susto e a anciedade nos muros de San- 
tarem; tres homens chegavatn, por hoi^as mor- 
tas, ao antigo mosteiro das Claras, davain A 



146 YUGENS 

portaria urn signal surdo e mysterioso; respon- 
diam-lhe de dentro com outro egual ; e d'ahi a 
pouco, sem rumor e com as mais escrupulosas 
precau^es se abria quietamente a porta da 
clausura. 

Os tres homens entraram, a porta fechou se 
gdbre elles do mesmo modo precatado. 

Que seri? 

Os homens levavam uma especie de cofre que 
parecia center preciosidades de grande valor: 
tal era o desvello com que o resguardavam. 

Ha um mysterio que se figura criminoso n'esta 
aventura . Mas os tempos sao para tudo. 

Era anno de 1834. 

Entremos n'esse convento das pobres Claras, 
tam afflictas e desconsoladas agora que as amea- 
Sam de dissolu^ao como aos frades. 

l^ao sera assim ; aquellas instituicoes nao met- 



NAHmnA TERRA 117 

la teem o espolio dos frades para devorar ; estao 
entretidos: as freiras salvam-se porora. 

Taes eram as esperancas dos tres homens qhe 
entravam a essas deshoras nos vedados precin- 
ctos do mosteiro. Sig^mo'-los porem, que e 
tempo. 

Chegavam elles a mna pequena capella do 
claustro das freiras, foram depor sdbre o altar 
o cofre que traziam, e ajoelharam devotamente 
deante d'elle. Logo se ouviu ao longe o psalmear 
baixo e sumido de vozes femeninas; e d'ahi a 
pouco, toda a communidade das Claras, de to- 
cbas na mao, em duas alas, e a abbadessa com 
seu baculo atraz, entravam processipnalmente 
no claustro e se dirigiam a mesma capella. 

psalmo que cantavam era este : 

^ 'Meu Deus, vieram os barbaros as tuas her- 
dadcs, polluiram o teu sancto tempio, pozcram 
Jerusalem como um granel de fructos. 

Tozeram os cadaveres de teus filbos de cevo 

f P^us, vei^erpt pnt^$ in bereditateii^ tua^n, fSf 78, 



148 YIAQBr^ 

as aves do c6o ; as cames dos teus saactos as 
alimarias da terra. 

^0 sangue d'eltes derramaram-n'o como agna 
DOS valles de Jerusalem ; ja nao bavia quern se- 
pultasse. 

'Estamos feitos o opprobrio dos, nossos vizi- 
nhos ; o escameo e a zombarta dos qae viyem 
por nossos arredores. 

'At6 aonde, 6 Senhor, te hasde irar emfim; e 
se hade accender o teu z6Io como fogo? 

^Verte a tua ira sdbre as gentes que te nao 
conheceram, contra os reinos qjie nSo invoca- 
ram o tea nome ; 

'Que devoraram a Jacob ; e desolaram suas 
terras. 

'N9o te lembres de nossas iniquidades passa- 
das, e depressa nos alcancem as tuas misericor- 
4ias; ja que tarn pobres 4e mais estamos. 

'Ajuda-nos Deus, Salvador ngsso; ^ pel^ glo- 



NA MINHA TERKA li9 

rfa do tetf nothe iivrs(-nos, Seflhor, amercea-le 
dc nossos peccados por causa do teu nome.' 

Cantavam assim as pobres das freiras, canta- 
yam em latim que ellas mal intendiam ; mas di- 
zia-lhcs instincto do coracao, dizia-lhes a tarn 
excitavel imaginaQao feminina, que era chegada 
a hora de se cumprir a seus olhos, e s6bre ellas 
niesmas tambem, a tremenda prophecia do psal- 
mo que intoavam. 

Havia pois lagrymas n'aquellas vozes que as- 
sim cantavam, sahiam d'alma aquelles sons ,e 
n'alma vibravam tambem com profunda e so- 
lemne melancholia. 

Chegadas juncto & capella aonde estava o co* 
fre, as freiras pararam conservando as mcsmas 
duas alas da prociss5o e continuando no accen- 
tuado murmurio do seu psalmo. 

Os tres vultos de homeitt perftiatieceram de 
Joelhos curvados deante do altar. 

Findou psalmo e seguiu-se breve intervallo 
de silencio. Depois, os tres homens levantaram- 



150 YIA6ENS 

se, e cahindo-lhes para os lados as longas capas 
em que vinham involtos, viu-se que o do meio 
era um frade velho, magro, curvado e sficco, 
trajando ainda, apezar da lei, o burel preto dos 
frauciscanos e cingido com sua corda. Os outros 
dois eram domiuicos e vestiam de preto e bran- 
co segundo as cores de seu tambem proscripto 
instituto. 

velho franciscano subiu com passo tremulo 
OS degraus do altar, beijou o cofre que estava 
sobre elle^ e voltando-se para a communidade 
que contemplava em religiose silencio, disse 
com uma voz cava que parecia vir do sepulchre, 
mas accentuada e forte : 

*Irmans, vimos intregar-vos este deposito pre- 
cioso. Deus uao quer que os cadaveres dos seus 
sanctos fiquem expostos as aves do c^o e as ali- 
marias da terra. Este e o sancto corpo de um 
dos maiores sanctos que produziu esta terra de 
Portugal quando era abencoada. Hoje e malditta 
e nao devia conservar as suas reliquias. Os fi- 
Ihos de San'Domingos foram expulsos de sua 
casa, assim como n6s fomos, nos os lilhos de 
Francisco, incontramo'-nos sem tecto nem abri- 



NA MINHA TEBBA 151 

go ans e outros, e juDctamos as nossas miserias 
para as chorarmos como irmaos que somos, co- 
mo filhos de paes que tanto sc amaram e ajuda- 
ram. Perigrinaremos junctos por essas solidoes 
da terra, e junctos iremos bater por essas por- 
tas que cerrou a impiedade e a indifferenga, a 
pedir o pao de cada dia porque temos fome. 

'Que importal nao professSmos nds, nSo nos 
honrlimos n6s de ser mendigos? De que vive- 
mos n6s senao de esmolla? 

'Nao choreis, irmans, nao choreis s6bre n6s. 
Deus que o permittiu bem sabe o que fez. Lou- 
vado seja elle sempre I Nos tinhamos peccados 
para mais ! Ainda foi misericordioso comnosco o 
Senhor da justi$a e do castigo. 

'A n6s tiraram-nos tudo, tudo ! At6 6stas mor- 
talhas que tinhamos escolhido em vida e que 
nem a morte ousava roubar-nos. 

'A furto e como quem se esconde para um 
acto criminoso, n6s as vestimos esta noite para 
commetter o que elles chamarSo um furto, e 
que era nma obriga^So sagrada nossa. 



1S2 YuasKs 

^Fomos a antiga easa de nossas irmaos e 
roiibame& a €orpo da bemaven^urado SanTjr^i 
GiL 

' Aqui Yo-lo intf egAmos ; guardae-o. Ejnquan- 
to este» muros estiverem em pe, que o abriguem 
dos desacatos d'essa geate sem Deus nem lei. 
A vos nao ousarao expulsar-vos d'aqui : talvez 
V05 mateoi a fojaae. . . Nao {tode ser: Deus nao 
bade perj(uitti-k>. 

*Ma9 qualquer que seja a sua vontade, resi- 
^ftae-v«s a eUa, minbas irooans. So elle sabe 
coino B09 asm e como ms eastiga. Louvema'-lo 
JKNT tado.' 

Aqui foi um ch^ifar e \m supfdiear ferveate 
como so se ouve na bora da.angustia. 

As aiffi€tafi moBJas estavam prosiradas nas 
lages bumidas do ckuistro, sdbre as sepuUuras 
de suas irmans, sdbre seus proprios jazigos que 
baviam de ser. fradis eom os braf0» extendi- 
i^ proaunciou as aolonHies palavras de ben$fto, 
desi&reveiido (Mm a (Kreita o aifgustc^ syabolo 
da redempfl^: 



HA MINHA TEBRA 153 

'Bemdiga-Yos Deus omnipotente, Pae, Filho 
e Espirito-sanclo r * Amen I' respondeu o c6ro, 
e OS tres proscriptos se retifaram, deixando a 
salvo seu thesoiro. 

Assim desappareceu do tumulo o corpo de 
SanTrei Gil de Santarem. 

Ninguem sabia d'elle; soube eu e guardei o 
segredo religiosamente. 

Os tempos sao outros hoje: os liberaes ja co- 
nhecem que devem ser tolerantes, e que preci- 
sam de ser religiosos. Nao ha perigo em dizer- 
Ihes onde elle esta. 

Quando houver em Portugal um govSrno que 
saiba ser govfirno, hade regular c consolidar a 
existencia das freiras, hade approveita-la para 
as piedosas instituigoes do insino da mocida- 
de, da cura dos inKrmoS; e do amparo dos in- 
validos. 

Os baroes andam com o cheiro nos poucos 
bens que Ihes restam as pobres das freiras. Mai 
do gov6rno que deixar comer mais aos baroes I 



156 VIAGBNS 

tural perspicacia ao nosso Frei Diniz, o frade por 
excellencia — frade por teima e acinte. 

Pois esse era, nao ha dtivida. 

Assim se passou aquella scena e assim m'a 
contaram. Do que mediara entre ella e o acon- 
tecido com o frade, Carlos, Joanninha, a avo e 
a ingleza, d'isso 6 que nada pude saber. 

£ uma grande lacuna na nossa historia ; mas 
antes fique assim do que enche-la de imagina- 
fao. 

Oh! eu detesto a imaginagao. , 

Onde a chraniea se calla e a tradicfSo nSo 
falla, antes quero uma pagina inteira de ponti- 
nhos, ou toda branca, ou toda prela, como na 
veneravel historia do nosso particular e respei- 
lavei amigo Tristao Shandy, do que irnia so li- 
nha da inveufao do chroniqueiro. 

Isso 6 bom para novellas e romances, livros 
msignificantes que todos leem todavia, ainda os 
mesmos que o negam. 



NA MINHA TBRRA 1S7 

Eu tambeffl me parece que 08 leid, bmib vou 
sempre dizendo que nao . . . 

Emfim, tornemos ao frade, e tornemos &s mi- 
nhas viagens. 

Gheio d'elle e da sua memoria, palpitando 
com a recordagao das tremendas scenas que, 
havia tarn poucos annos, se tinham passado em 
seu antigo mosteiro, eu me approximei emtim 
do real convento de SanTrancisco de Sautarem. 

Dei pouca atteng ao ao bello adro e a solemne 
vista que d'elle se descobre— e menos ainda 
as doentias acacias que abi vejetam iufezadas e 
rachiticas, como plantadas de ma mao e em ma 
hpra— porque mdpas sao ellas, ife vjsivel: po^ 
seram-n'as abi depois de extinclo o coDvento. 
Sao triste, mas verdadeiro symbolo da apaga- 
d^ e facticia vida que se quiz dar ao que era 
morto, 

Yamos dentro, e vejamos pelas baixas e agu- 
gadas arcadas do claustro, pelas altas naves do 
templo se descobrimos algum vestigio do ultimo 
guardiao d'esta casa, e d'essa fadada famiiia 



158 VIAGENS 



CDJo destino em hora aziaga tarn estreitamente 
se ligou com o d'elle. 

Ja me interes^a isto mais, confesso, ai! rauito 
mais, do que todos esses tumulos e inscrip(5es 
que por ahi estao, e que tanto caracterizam este 
um dos mais anligos e mais historicos edificios 
do reino. 



Mas em vao interrogo pedra a pedra, lage a 
lage : o echo morto da solidao responde triste- 
mente as minbas perguntas, responde que nada 
sabe, que esqueceu tudo, que aqui reina a de- 
solacao e o abandono, e que se apagaram todas 
as lembran^as do outro eslado. . . 

Que foi feito de ti, Joanninha, e dos teus amo- 
res? Que sera feito d'esse homem que ousou 
amar-te amando a outra? £ essa outra onde es- 
Id? Resignou-se ella deveras? Sepullou comef- 
feito, sob gSlo apparente que veste de triplice 
mas falsa armadura o peito da mulher do norte, 
todo aquelle fogo intenso e intimo que solapada- 
mente Ihe devora o corac5o? 

N9o tenho esperan^fis €|c sat)er uada d'i^so 



NA MINHA T&RRA 159 

So pude descobrir que, no dia immediato d 
scena nocturna das Claras, Frei Oiniz sahiu de 
Santarero, nao se sabe em que direccao— que 
n'esse mesmo dia Georgina sahira tambem pela 
estrada de Lisboa, levando em sua carruagera a 
avo e a neta, ambas meias mortas e ambas meias 
loucas — que nao houvera'mais novas de Carlos 
— e que a sua lillima carta, aquella que escre* 
Y^ra de juncto d'Evora, Joanninha a ievava 
apertada nas maos convulsas quando partira. 

Pois tambem eu jjfie quero partir, me quero 
ir embora. Ja me infada ^antarem, ja me can- 
sam 6stas perpetuas ruinas, estes pardieiros in- 
terminaveis, o aspecto desgracioso d'estes intu- 
Ihos, a tristeza d'estas ruas desertas. You-me 
embora. 

E comtudo SanTrancisco e uma bella ruina, 
que merecia examinada de vagar, com outra pa* 
ciencia que eu ja nao tenho. 

Se tudo me impacienta aqui I 

Da bella egreja gothica tizeram uma arreca* 
4a^5o roijilarf ^pdoii a wfio deptruic|or? ^o pQ|f 



160 VUGBNS 

dado quebrando e abolando eeses monumentos 
preciosos, riscando com a baioneta pelo veroiz 
mais pulido e mats respeitado d'esses jazigos 
antiquissimo8 ; os lavores maus delicados esmou- 
cou-08, degradou-os. Levantaram as lages dos 
sepulchros; e ao som da corneta militar acorda* 
ram OS mortos de seculos, cuidando ouvir a 
trombeta final . . • 

Decididamente vou-me embora, n9o pogso es^ 
tar aqui, nao quero ver isto. Nao e horror que 
me faz, i nausea, 6 asco, 6 zanga. 

Maldittas sejam as maos que te profanaram, 
Santarem. . . que te deshonraram, Portugal. . . 
que te invilleceram e degradaram, nagao que 
tudo perdeste, ate os padroes da tua historia ! , . . 

Bheu, eheu, Portugal ! 






CAPITULO XLH 



Protesto do auctor. — DesafflnacSo dos nervos. — que 6 
preciso para que as ruinas sejam solemnes e sublimes. — 
Que Deus estd no Gollisseu assim como em San'Pedro.— 
Quer-se o auctor ir embora de Saolarem.-^ Como, sem 
Ter tumulo d*el-rei D. Fernando?— Em que estado se 
acha esle. — Exemplar de stylo byzantino. — Corda real 
sdbre a caveira. — rei d'espadas e o symbolo do impe- 
rio. — Quem nunca viu o rei cuida que e de oiro. — Bru- 
talidades da soldadesca n'um tumulo real. — que se 
acha nas sepulturas dos reis. — A phrenologia. — ^Vindi- 
cta pObllca, tardia mas ultrajante. — GamOes e Duarto 
Pacheco. — A sombra falsa da religiao. — Regimen dos 
barOes e da materia.-^A prosa e a poesia do poTO. — 5yn- 
these e analyse. — sense in time. — Se o auctor 6 dema- 
gogo ou Jesuita?— - Jesu Ghristo e os barOes. 



Nao cbamem exaggerado ao que vae escripto 

no fim do dltimo capitulo; senti o que escrevi, 

senli muito mais do que escrevi. que podera 

haver 6 desacerto nas palavras, porque em ver- 

11 / 



162 YUGENS 

dade nSo sei explicar a impressao que me faz 
uma ruina n'este estado. Desaffinam-me os ner- 
Yos, Yibram-me n'uma discordancia e dissonan- 
cia insupportavel. Queria Ycr antes estes altares 
expos tos as chuvas e aos ventos do ceo,— que 
sol OS queimasse de dia,— que a noite, a luz 
hranca da lua, ou ao tibio reflexo das estrellas, 
piasse o mocho e sussurrasse a coruja sobre seus 
arc99 meio-cahidos. 



Na<) me parecia profimado o templo assim, 
nem descahido de magestade o monumento. Po- 
dia ajoelhar-me no meio das pedras soltas, en- 
tre as h«EYas hamidas, e levantar o meu peasa- 
meiito a Deus, o meu coracao a gloria, a gran- 
deza, meu espirito as sublimes aspira^oes da 
idealidade. material, o grosseiro, o pesado da 
Yida nao me Yinham affligir ahi. 

Deus, a idea grande do mundo— Deus, a Ra- 
zao Eterna — Deus, o amor — Deus, a gloria — 
Deus, a f5r$a, a peesia e a nobreza d'alma— 
Deus esia nas rutods escalavradas do ColltSBeu^ 
como nos ziad)orios de brooz^ e marnore de 
S»Tedro. 



NA AtlNHA TERRA 163 

Mas aquil . . . nos pardieiros de una convento 
velho, concertado pelas Obras-publicas para ser- 
vir de quartel de soldados— aqui nao habita es- 
pirito nenhuQ). 

Quero-me ir embora d*aquil 

E como? sem ver otumulo d'elrei Fernando? 
Nao pode ser, 6 verdade. 

Onde esta elle? 

No coro alto* 

Subamos ao coro alto. 

Oh! que nSo sei de n^jo como o cotitet 

bello jaizigo do rei formoso e frivolo, tam 
dado as delicias do prazer, como foi seu pae as 
j3iUsteridades da justi^a, em que estado elle esta! 

Oh liacao de barbaros! Oh malditto povo de 
iconoclastas que e este! 

tumulo do segundo marido de D; teondf 



164 VIAOENS 

Telles e urn sarcophago de pedra branca, fina e 
friavely elegante e simplesmente cortada, com 
mais sobriedade de ornatos do que teem de or- 
dinario os monumentos do seculo xiv, mas de 
uma acabada scultura, casta e continente, como 
nao foi a vida do rei que ahi incerraram de- 
pois de morto. 

Percebem-se ainda vestigios das vivas cores 
em que Toram induzidos os relevos da pedra 
branca:— stylo byzantino de que nao sei outro 
exemplar em Portugal. Este e— ou antes, era 
— precioso. 

Era; porque a brutalidade da soldadesca o 
deturpou a um ponto incrivel. Imaginou a es- 
tupida cubiga d'estes Allanos modernos que de- 
via de estar alii dentro algum grande haver de 
riquezas incantadas, — talvez cuidaram achar 
s6bre a caveira do rei a corda real marchetada 
de perolas e rubis com que f6sse inter r ado — 
talvez pensaram incontrar appertado ainda en- 
tre as sSccas phalanges dos dedos myrrados, 
aquelle globo de oiro macisso que Ihes figura o 
rei ;d'espadas do sujo baralho de sua tarimba, e 
que elles teem pela indisputavel e infallivel in- 



NA MINHA TERRA 165 

signia do supremo imperio; — talvez suppose- 
ram que mesmo depois de morto, um rei devia 
de ser de oiro . . . Emfim quem sabe o que elles 
cuidaram e pensaram? que se sabe, porque 
se ve, 6 que quizeram abrir e arrombar o tu- 
mulo. Tentaram, primeiro, levantar a campa; 
nao poderam : tarn solidamente esta soldada a 
pedra decima ao corpo ou caixao do jazigo, que 
todo parece.macisso e inconsutil. Mas n'este 
impenho quebraram e estailaram os lavores fi- 
nos dos cantos, os caireis delicados das orlas; e 
a campa nao cedeu: parece chumbada pelo anjo 
dos ultimos julgamentos com o s611o tremendo 
que so se hade quebrar no dia derradeiro do 
mundo. 

A cubica estolida dos soldados nao se aterrou 
com a religiao do sepulchro, nem Ihe causou at- 
tricSo, ao menos, esta resistencia quasi sobre- 
natural das pedras do moimento. Ve-se que tra- 
balhou alli, de alavanca e de ariete, algum 
possante e ponderoso pe-de-cabra ; mas que tra- 
balbou em vao muito tempo. 

Desinganaram-se emfim com a taropa ; e re- 
solveram atacar, mais brutalmente mas com 



166 \1A6ENS 

mais vantagem, as paredes do sarcophago, qae 
jastameote suspeitaram de menos espessas. As* 
sim era; e conseguiram na parede da frente 
abrir um rombo grosseiro por onde entra facil 
um braco todo e pode explorar o interior do la- 
mulo i voDtade. 

Assim fiz en, que metti o men bra^ por 
essa abertara barrada, e achei terra, po, alguns 
ossos de vertebras, e daas caveiras, tuna de ho* 
mem, ontra de crianca. 

Nao me lembra que haja memoria algoma de 
infante que ahi fosse s^nltado tambem, segna- 
do fsiziam os antigos muitas vezes que punbaai 
OS cadaveres das criancas nos jazigos dos paes, 
dos parentes, at6 de meros amigos de suas fa« 
miliar 

live, conf^sso, uma especie de prazer mali- 
gno em imagkiar a estupida compridez de cara 
com que deviam de ficar os brutaes profaoado- 
res, quando achassem no tumulo do rei o que 
so teem os tumulos — de reisou de meBdigos— 
ossos, terra, cinza, nada! 

Por mim, estive tentado a furtar a caveira 



NA MMBA HERRA. ttl 



d'dm D. Fernando. Se Mredilasw naphreooi- 
togia, p&rece*<ine qne nao tinha r^sistido. Nfm 
creio na sciencia, felizmeote — n'este ciso*^ 
para a minba ooii^denoia. Tambefxi n&o seio qm 
faria se a caveira fosse de outro bomein. Mas^o 
*fraco rei' que fez *fraca a forte gente* nao sie 
reliquias as suas que se guardem. 

Oh ! e quern sabe? Esta profana^ao, este tta)*' 
d&no, este desacalo de tuwulode um rei, aHi fit 
gfla terra predilecta — D. Fematido eraisantare-* 
no de affei^ao —nao s^i elle o jttizo severo dt 
posteridade, a vindicta piiblica dos seculos, que 
tardia mas uUrajaBte, cae emfim s^bre a memo* 
ria reprovada do mau prmoq^e^ e ]be dedionot 
as ciiucas coiBio ja Ibe deeb^orara o odmef 

Quero acreditar que tal nao podia succeder 
aos tumulos de D. Diniz, tieB. Peiim,i^ dae^dois 
Joannes I e II, de . . . 

Sim: e aende estd o deCamSes? deOuarla 
Padieco aonde eHem? que ainia ^ xm&mtvfft^ 
nhosa pergunta esta tiltima. 

. £mPQivtv^«go:bapeltsia<^^ 



168 VIAQBN8 

cie. At6 a sua falsa sombra, que 6 a hypocrisia, 
desappareceu. Ficou o materialismo estupido, al- 
Yar, ignorante, devasso e desfagado, a fazer gala 
de sua hedionda nudez cynica uo meio das mi- 
nas profanadas de tudo o que elevava o espi- 
rito... 

Uma nagao grande ainda podera ir vivendo e 
esperar por melhor tempo, apezar d'esta para- 
lysia que Ihe pasma a vida d'aima na mais no- 
bre parte de seu corpo. Mas uma na^ao peque- 
na, e impossivel; hade morrer. 

Mais dez annos de baroes e de regimen da 
materia, e infallivelmente nos foge d'este corpo 
agonizante de Portugal o derradeiro suspiro do 
espirito. 

Creio isto firmemente. 

Mas ainda espero melhor todavia, porque o 
poYO, povo povo, esta sao: os corruptos so- 
mos n6s os que cuid^mos saber e ignorlimos tu- 
do. 

N6s, que somos a prosa vil da nagao, nos nao 



HA MIlVflA TBRBA 169 

intendemos a poesia do povo ; n6s, que so com- 
prehendemos o tangivel dos sentidos, nos somos 
extranhos as aspiracoes sublimes do senso-ioti- 
mo que despreza as nossas theorias presump^o- 
sas, porque todas veem de uma acanhada ana- 
lyse que procede curia e mesquinha dos dados 
inateriaes, iusigDificantes e imperfeitos;— em 
quanto elle, aquelle senso-intimo do povo, vem 
da Razao divina, e procede da synthese trans- 
cendenle, superior, e inspirada pelas grandes e 
eternas verdades que se nao demonstram porque 
se sentem. 

E eu que escrevo isto serei eu demagogo? 
Nao sou. 

Serei fanatico, jesuita, hypocrita? Nao sou. 

Que sou eu entao? 

Quem nao intender o que eu sou, nSo vale a 
penaque Ih'o diga. . . 

Perdoa-me, leitor amigo, uma refiexao liltima 
no fim d'este eapitulo ja tarn seccante, e prpmet- 
to nao reflectir nunca mais. 



179 ViAASMfi 

Jesu Christo, que fei o modelo da pacienck^ 
da toleran^ia, o ver dadeiro e unico fundador da 
Uberdade e da egualdade entre os homens, JesH 
Christo soffreu com resigDa^ao e humildade 
quantas injustigas, quantos insultos Ihe fizeram 
a elte e a sua missao divina ; perdoou ao mata- 
dor, a adiiltera, ao blasphftmo, ao impio. Mas 
quando viu os baroes a agiotar dentro do ten- 
plo, nao se pode coaler, pegoii n'um azorrague 
e zurzitt-os sem dor. 



CAPITUIO xim 



Parlida de Santarein.— Pinacotheca.— ImpacieDcia e 8au* 
dades.— Sexta-feira.— Martyrio obscuro. — A figura do 
peccado. — Estaraos no valle outra vez. — Kvocacfio de 
incanto. — A irman Francisca e Frei Diniz. — A teia de 
Peoelopc. — E Joannmha ?— Joanmnha esU no c^o. — A 
mulher morta a dobar esperando que a interrem. — A es- 
peranca, Tirtade do cbristianiemo.-^ tlma carta. 



Estou deveras fatigado de Santarem ; vou-me 
einbora. 

Despedimo'-nos saudosos d'aquella boa e leal 



172 YUGEN8 

familia que nos hospedara com tanto carinho, 
com toda a velha cordialidade portugueza ; par- 
timos. 

Apenas comecei a respirar o ar fresco da ma- 
nhan nos olivaes, senti desaffogar-se-me a alma 
d'aquella constricgao cansada que se experi- 
menta na longa visita a um museu de antigui- 
dades, a uma galeria de pinturas. 

Perdoem-me que nao diga 'pinacotheca' : bem 
sei que e moda, e que a palavra 6 adoptavel se- 
gundo as mais strictas regras de Horacio, pois 
'cae dafonte grega' direitamente e sem mis- 
tura: mas soa-me tarn mal em pdrtuguez que 
nao posso com ella. 

Santarem fatigou-me o espirito, como todas 
as coisas que fazem pensar muito. Deixo-a po- 
rem com saudade, e nao me heide esquecer 
Dunca dos dias que aqui passei. 

De qu6^ e como sou eu feito, que nao posso 
estar muito tempo n'um logar, e nao posso sa- 
hir d'elle sem pena? 



NA mNHA TBRRA 173 

Ja me esta custando ter deixado Santarem. 
Por que nao haviamos de partir amanhan, e ter 
(icado ainda hoje alli? 

E hoje que i sexta- feira ? . . . Mau dia para co" 
me^ar a viagem ! 

Sexta-feira! Era o dia aziago do nosso vallC) 
da pobre velha c^ga que ahi vivia sua triste vida 
de dores, de remorsos e desconforto, esperando 
porem em Deus, conformada com o seu martyrio : 
martyrio obscure, mas tarn msanguentado d'a- 
quelle sangue que mana gotta a gotta e doloro- 
samente do cora^o rasgado, devorado em silen-' 
cio pelo abutre invisivel de uma dor que so nao 
revela, que nao tem prantos nem ais. 

Era na sexta-feira que o terrivel frade, o de* 
monio vivo d'aquella mulher de angiistias, Ihe 
apparecia tremendo e espantoso deante de sens 
olhos cegos elevado pela imaginagao as propor- 
(oes descommunaes e gigantescas de um vinga- 
dor sobrenatural. 

Era a figura tangivel, e visivel a vista de sua 



174 YIA6E?(S 

alma, do enorme pcccado que contra ella estava 
sempre. 

Creio que escuso dizer que nao tenho eu esta 
supersii^ao dos dias aziagos que tinha a desgra- 
(ada velha, que a sua Joanninha parlilhava. 
Mas cotifesso que, recordando as fatalidades d'a- 
quella familia e d'aquelle dia, nao gostei de vol- 
tar n'elle ao valle de Saatarem. 

Estavamos por^m no valle; e ja eu Tia de loft- 
ge aquellas arvores e aquella janella que tanto 
me iiupressionaram, quando estas reflexoes me 
acudiam ao espirito e m'o contristavaixi. 

Affrouxei insensivelmeote o passo, deixei to- 
mar larga deanteira aos meus companheiros de 
viagem; e quando chegava perto da casa^-ti^ 
riha-os perdido de vista. 

Involuntariameote parei defronte da janella; 
mordia-me um interesse, uma curiosidade irre- 
slstivel. . . Nem viva alma por aquelles arredo- 
res ; apeei-me e fui direito para a casa. 

Apenas passei as arvores, um spectaculo ines- 



NA MfNHA TERRA 175 

perado, u«a evoca^So c(mho de iiicanla me vem- 
ferir os olhos. 

No mesmo sitio, do mesmo modo, com os 
mesmos trajos e na mesma attitude em que a 
descrevi nos primeiros capitulos d'esta hist6ria, 
estava a nossa velha irman Francisca . . . 

Ella era, e nao podia ser outra; sentada na 
sua antiga cadeira, dobando, como Penelope 
tecia, a sua interminavel meada. Nao haria ou- 
tra differenca agora senao que a dobadoira nio 
parava, e que o fio seguia, seguia inroUando- 
se, inrollando-se continuo e corapassado no no- 
vello ; e que os braces da velha Mavam lenta- 
mente, mas sem cessar no seu movimcnto de 
authomato que fazia mal ver. 

Defronte d'e]-la> sentado u'uma pedra^ a ca- 
bega baixa^ e os olbos fixos n'um grosso livro 
veiho, que sustinha nos joelhos, estava um ho- 
mem sficco e magro, descarnado coaio um esque- 
leto, livido como um cadaver, immovel com0 
uma estatua. Trajava um non-descriptum ne- 
gro, que podia ser sotaina de clerigo ou tunica 
de frade, mas descix^kla, solla, e petidenle eiif 



176 YUOBHS 

grossas e largas pregas do extenuado pcscoco 
do homem. 

Tambem nao podia ser senao Frei Diniz. 

Cheguei juncto d*elles; nao me sentiu ne- 
nhum dos dois; nem me viu elle, o que so via 
dos dois. 

Sem roais reflexao, c contimiando alto na se- 
rie de pensamcntos que me vinha correndo pelo 

espirito, exclamei : 

« 

— * E Joanninha?' 

— *Joanninha esta no cco.*— rcspondeu sem 
sobresallo, sem erguer os olhos do seu livro, a 
sombra do frade— que outra coisa nao parecia. 

— *Joanninha, pobre Joanninha! Pois como 
foi, como acabou a infeliz?' 

— 'Joanninha nao 6 infeliz: foi ser anjo na 
presen^a de Deus/ 

— *E . . . e Carlos?' balbuciei eu hesitandOj 
perque temia a susceptibilidade do frade i 



NA MINHA TERRA 177 

— *CarIos!* respondeu elle erguendo emGm 
OS olhos e cravando-os em mim. . . 

E oh! que nunca vi olhos como aquelles, nem 
OS heide ver I 

—'Carlos. . . E quem 6 que m'o pergunta? 
quern e que tanto sabe de mim e dos meus?. . . 
Dos meus? Eu nao tenho meus: sou so.' 

—'So! Nao esta aqui, que eu vejo?.*. . 

— 'Ye essa roulher morta que ahi ficou, que 
a matei eu^ e que aqui esta, a espera que d6 a 
hora de a eu interrar, mais nada. Eu estou so e 
quero estar so. Morreu tudo. Que mais quer sa- 
ber?' 

-^*Yenho de Santarem. . / 

— *Santarem tambem morreu; e morreu Por- 
tugal. Aqui nao vive senao o meu peccado, que 
Deus uao perdoou ainda, nem espero. . . 

— *A nossa religiao fez uma virlude da espe-^ 
ran fa/ 

13 



178 yiAGBNS 

—•Fez.' 

* 

— 'E n'isso se distingue das outras todas/ 

— Tois ainda ha quern o saiba n'esta terra?' 

^'Ha mais do que nao houve nunca— pelo 
menos ha mais quern o saiba melhor/ 

— T6de ser: os juizos de Deus sao incom- 
prehensiveis/ 

•^'l! iafinita a sua miseficordia.' 

—'Mas a sua cholera implacavel, a sua justi'^ 
{a tremenda/ 

— *A misericordia 6 maior.' 

— *Quem Ihe insinou tudo isso?* 

•—'0 evangelho, o corafao, e minha mac que 
m'os explicou ambos/ 

— *Sente-se aqui. . . aope de mim.* 



NA IIINHA TEBRA 179 

Seutei-me. frade pegou-me na mao com as 
suas ambas^ e pds-me os olhos com uma expres- 
sao que nenhoma lingua pode dizer, nem ne- 
nhum pincel pintar. 

Esteve assim algum tempo, como quern me 
observava. Yi-Ihe apontar claramente uma la- 
gryma, vi-lh'a relroceder, e ficarem-lhe inchu- 
tos OS olhos. Senti-lhe estrangular um suspiro 
que Ihe vinha a garganta; percebi distincta- 
mente o eslremefao que Ihe correu o corpo; 
mas observei que todo se serenou depois* 

Disse-me ent3o com voz magoada, mas pla- 
eida e sem aspereisa ja nenhuma: 

— ^Sabe a hisldria do valle?^ 

~'Sci tudo at6 & partida de Carlos paW 
Evora.' 

— *Aqtti lem a carta que elle escreveti.' 

Tirou do brevario ttm papel dobrado, ama- 
rello do tempo, e manchado, bem se via, de mui- 
tas lagrymas, algumas recentes ainda. 



ISO VIAOEMS 

. T-'Leia." 

Li. 

£sla era a carta de Carlos 



CAPITOIX) XLIV 



Carta de Carlos a Joanninha 



Evorft-moBte.«4 
de maio de'183i. 



fl a ti que escrevo, Joanna, minha irmafl, mi- 
nha prima, a ti so* 

Com ncnhum outro dos meus nao posse nem 
ouso fallar. 



182 VU6EN8 

Nem eu ja sei quern sao os meus : confonde- 
se, perde-se-me ^sta cabeca nos desvarios do 
cora^ao. Errei com elle, perdeu-me elle . . . Oh! 
bem sei que estou perdido. 

Perdido para todos, e para ti tambeiu. Nao 
me digas que nao ; tens generosidade para o di- 
zer mas nao o digas. Tens generosidade para o 
pensar, mas nSo podes evitar de o sentir. 

Eu estou perdido. 

E sem remedio, Joanna, porque a minha na- 
tureza 6 incorrigivel. Tenho energia de mais, 
tenho pod^res de mais no coracSo. Estes exces- 
ses d'elle me mataram ... e me matam ! 

Tu nao comprehendes isto, Joanninha, nao 
me intendes decerto; e e difficil. 

Es mulher, e as roulheres nSo intendem os 
homens. Sempre o entrevi, hoje sei*o perfeita- 
mente. A mulher nao pode nem deve comprehen- 
der homem. Triste da que chega a sabS-lo ! . . . 

E d'ahi . . . quando se tem de morrer, antes 



NA MITfBA TERBA 183 

saber a morte de que se morre, do que expirar 
na ignorancia do mal que nos matou. 

Tu es joven e inexperiente, a tua alma est^ 
cheia de illusdes doces; you dissipar-t'as em 
quanto se nao condensam, que te offusquem a 
razao e te deixem para sempre escrava c^ga do 
maior inimigo que temos, o cora^ao. 

Quero contar-te a minha hist6ria : veris n'ella 
que vale um homem. 

Sabe que os nao ha melhores que eu : e tam 
bons, poucos. Olba o que sera o resto ! 

Tu nao ignoras ja hoje o por que fugi da casa 
materna: sabia-a manchada de um grande pec- 
cado, e imaginei-a poUuida de um enorme 
crime. 

Esse homem que 6 meu pae, nSio o podia ver, * 
hoje que sei o que me elle e. . . Deus me per- 
doe, que ainda o posso ver menosi 

Minha avo, julguei-a cumplice no crime ; ella 
so era no peccado. Perdoe-Ihe Deus; e bem 



p6dQ e hein deve, ja que a fez tain fraca. Minba 
pobre mae succumbiu por sua culpa, por sua ir- 
remissivel complacencia . . . 

Deu8 pode e deve, repitto. . . mas eu, cooio 
Ihe heide perdoar eu este rubor que sinto nas 
{aces ao nomear mioha mae? 

Tern padecido e soffrido muito . . . coitada ! A 
sua pjenintencia 6 um martyrjo, a sua velhice uma 
louga paixao, e esse homem que a perdeu um 
verdugo sem piedade. Mas tudo isso e com Deus, 
nao je commigo. 

Eu sou filbo; minha mae morreu sem perdoar 
r— nao posso perdoar eu. 

£ quern me hade perdoar a mim? Ninguem, 
nem quero. 

Nao seras tu, miuha irman ; nao, que nao de- 
ves. Porque eu amei-te com um coracao que ja 
nao era meu ; acceitei o teu amor sem o mere- 
cer, sem o poder possuir, trahi quando te ama- 
va, menti quando t'o disse, menti-te a ti, men- 
tiHBe a piim, e nao guardei verdade a ninguem. 



NA BUNHA TEBRA 189 

Mas espera, ouve ; deixa-me ver se posso atar 
(io d'esta minha incrivel bistoria— inerivel 
para ti, bera simples para quem conbe^a o cora- 
fao do homem. 

Sabi de Portugal, e posso dizer que nSo tinha 
amado ainda. Inclinagoes de crianca, galaateios 
de sociedade, ligacoes que nascerani da vaidade, 
on que so os sentidos alimentaai, nao mcrecem 
nome de amor. 

Eu nao tinba amado. 

Ha tres espeeies de mulberes n'esie mando : 
a mulher que se admira, a mulber que se dese- 
ja, e a mulher que se ama. 

A belleza, o espirito, a gra$a, os dotes d'alma 
e do corpo geram a admira^So. 

Certas fdrmas, certo ar voiuptuoso criam o 
desejo. 

que produz o amor nao se sabe, 6 tndo 
isto as yezes, 6 mais do que isto, nao 6 nada 
d'isto. 



186 VIA6BTI8 

N9o sei que k; mas sei que se p6de admirar 
nma mulher sem a desejar, que se p6de desejar 
sem a amar. 

amor nao esta deGnido, nem o pode ser 
nunca. amor verdadeiro; que as outras coisas 
nao sao isso. 

Eu vivi pottcos mezes em Inglaterra ; mas fo- 
ram os primeiros que posso dizer que vivi. Le- 
vou-me acaso, o destino — a minha estrella, 
porque eu ainda creio nas estrellas, e em pouco 
mais d'este mundo creio ja — levou-me ao inte- 
rior de uma familia elegante, ricca de tudo o que 
pode dar distincgSo n'este mundo. 

Extranhei aquelles habitos de alta civiliza^ao, 
que me agradavam comtudo ; moldei-me faciU 
mente por elles, a£Sz-me a vejetar docemente 
na branda atmosphera artificial d'aqnella estufa 
sem perder a minha natureza de planta extran- 
geira. Agradei : e nao o merecia. No fundo d'al- 
ma e de character eu nao era aquillo por que me 
tomavam. Menti: o homem nao faz outra coisa. 
Eu detesto a mentira, voiuntariamente nunca o 
fiz, e todavia tcnho levado a vida a mentir. 



NA MINHA TXBHA 187 

Menti pois e agradei porque mentia. Sancto 
Oeas! par.a que sahiria a verdade da tua bdcca, 
e para que a maudaste ao mundo, Senhor? 

Ha via tres mepinas n'aquella familia. Dizer 
que eram as tres gramas e uma vulgaridade can- 
sada, e tam bannal que nSo da idea de coisa al- 
guma. Tres anjos seriam; tres anjos posso dizer 
com mais propriedade. E quando em nossos 
longos passeios solitaries, por aquelles campos 
sempre yerde$, por aquellas collinas coroadas 
de arvoredo, tapessadas de relva macia, os seus 
vestidos brancos, singelos, simples, trajados sem 
arte, fluctuavam com a brisa da tarde . . . e os 
longos anneis de seus cabellos — os de uma eram 
loiros, OS de outra castanhos, nSo ha nome para 
a indefinida cdr dos da terceira— quando esses 
longos anneis descahiam de sua ondada spiral 
com orvalho humido do crepusculo— e que a 
essa luz vaga e mysteriosa eu as contemplava 
todas tres com adora^ao e recolhimento devoto 
d'alma— sinceramente exclamava:*S5o tres an- 
jos celestes que 6 forfoso adorar! . . •' 

£ assim e que os adorava os tres anjos, todos 
tres, e nao podia adorar urn sem os outros. 



as VlAMRf 

Que me queriam ellas, 6 certo; que insensi- 
velmente se habituaram a minha companhia e 
ja nao podiam viver sem ella . . . ai ! era preciso 
ser um monstro para o nao confessar com lagry- 
mas^de gratidfio e de remorso* 

Os^mais difSceis e delicados apices da perfei- 
ego de sua tarn caprichosa e tarn expressiva lin- 
gua, as bellezas mais sentidas^de seus auetores 
queridos, o espirito e torn difficil de sua socie- 
dade tam desdenhosa e fastienta, mas tarn com- 
pleta e tam culculada para sublimar a vida eja 
desmaterializar — isso tudo, e um indefiQivel sen^ 
timento do gentil, que so com natural tacto se 
adquire, ^ verdade, mas que se d3o alcanna com 
elle so— isso tudo o apprendi alii das suaves He- 
roes que insensivelmente recebia a cada instante. 

Se valho alguma coisa, tudo valho por ellas; 
se tenho merecido alguma|consideraf So no mun- 
do,'.toda Ih'a devo. 

Yes que confesso a divida, veras conio a paguei. 

torn perfeito da sociedade inglezainven- 
tou^uma palavfa^que nao lia nera pide haver 



NA MINUA TERRA 180 

n'ouiFas lingaas em quanto a civilizafSo as nao 
apurar. To flirt e uoi verbo innocente qae se 
coDJuga alli entre os dois sexos, e nao signiUca 
namorar — palavr^ grossa e absurda que eu de- 
testo— nao significa *fazer ac6rte;* 6 mais do 
que estar amavel, e menos do que galantcar, 
nao obriga a nada, nao tern consequencias, co- 
meca-se^ acaba-se, interrompe-se, addia-se, con- 
tinua-se ou descontinita-se a vontade e sem 
compromettimento. 

. Eu fiartava, n6s flartammos, ellas flarta- 
vam. • . 

E nSo ha mais doce nam mais suave iuterte- 
liimento d'espirito do que o flartar com uma ele- 
gante e graciosa mQnina ingleza ; com duas e 
prazer angelico, e com tres e divino. 

Fara quern nasceu n'aquillo, nao 6 perigoso; 
para mim degenerou, breve, aquella placida 
sensajao em mais ptofundo sentimento. 

Veiu a admirafSo primeiro. 

E como as eu admirava todas tres as minhas 
gi^ntis fascinadoras I 



190 VUGENS 

E ellas conheciam-n'Oy riam, folgavam c es- 
tavam iacantadas de me incantar. 

Fizeram nascer os desejos I 

Julguei-mc perdido, e quiz fugir. 

Nao me deixaram e zombaram de mim, da 
ardencia do meu sangue hespanhol, da vehe- 
mencia das minhas sensa^oes • . . 

Em breve eu amava perdidamente uma d'el- 
las— queria muito as outras duas; mas amar, 
amar deveras^ d'alma cuidava eu, de coragao ia 
jura-Io, era a seguuda— Laura, a mais gentil, 
mais Dobre, mais elegante e radiosa figura d6 
mulher que creio que Deus moldasse n'uma hora 
de verdadeiro amor de artista que se dignou to^ 
mar por esse pouco de greda que tinha nas maos 
ao forma-la. 



CAriTTJLO XLV 

Carta de Carlos a Joanninha : conlintia. 

Laura nao era alta nem baixa, era forte sem 
ser gorda, e delicada sem magreza. Os olhos de 
um cdr-de-avelan diaphano, puro, avelludado, 
grandesy vivos, cheios de tal magestade quando 
se iravam, de tal dogura quando se abrandavani; 



192 VIAGENS 

que e difficil dizer quando eram mais bellos. 
cabello 'quasi da mesma cor tinha, demais, urn 
reflexo doirado, vacillante, que ao sol resplan- 
decia, ou antes, relarapejava, — mas a espacos, 
nao era sempre, nem em todas as posicoes da 
cabeca: — cabeca pequena, modelada no mais 
classico da statuaria antiga, poisada s6bre urn 
collo de immensa nobreza, que harmonizava 
com a perfei^ao das linhas dos hombros. 

k cintura breve e estreita, mas sem exagge- 
rafao, via-se que o era assim pornatureza e sem 
a menor contrafeifao d*arte. pe nao tinha as 
exiguidades fabulosas da nossa peninsula,' era 
proporcionado como o da Yenus de Medicis. 

Tenho visto muita mulher mais bella, algu- 
mas mais adoraveis, nenhuma tam fascinante. 

Fascinante e a palavra para ella. 

rosto oval e perfeitamenle symetrico, pal- . 
Kdo ; so OS beicos eram vermelhos como a rosa 
de cor mais viva. 

k expressao de toda 6sta figura e que s^ nao 



NA MINHA TEEBA 193 

descreve. k bdcca breve e fina surria pouco; 
mas quando surria, oh! . . . 

Ve-la n'um baile, veslida e calf ada de branco, 
cingida com um cinto de vidrilhos pretos — toi- 
lette inalteravel para ella desde certa epocha— 
sem mais ornato, sem mais flores, apenas um 
farto fio de peroias derramando-se-lhe pelo collo 
— era ver alguma coisa de superior, de mais su» 
blime que uma simples mulher. 

Tal era Laura, Laura que eu amei quanto po^ 
dia e sabia amar. Era pouco, sei-o agora; eutao 
parecia^me infinite. 

Disse-lh'o a ella, disse-lh'o um dia que pas- 
seavamos sos, e depois de andarmos boras e ho- 
ras esquecidas, sem trocar uma phrase. Pensa- 
vamos, eu n'ella, ella nao sei em qu6. 

Seria em mim? 

Seria, mas nao m'o confessou. 

E ouviu-me sem dizer palavra, sem olhar para 
mim uma so vez, sem fugir com a mao que Ihe 

13 



cu appertava, qiie Ihe bpijava, e qije spntia fria 
e humida nas minbas qqe escald^vai)^. 

Era tarde, dirigimo*-no§ para casa. A porta 
disse-me; *Nao enlre;* e vi-a banhada em la- 
grymas. Quiz segui-la, fez-me urn gpslo iippe- 
rioso que me confundiu. Pela primeira \^^^ 
depois de tanto tempo, fui so, triste e melan- 
cholico pafa a minha pobre habitacs|o; onde pas- 
sei a noite. 

Quando era madrugada quiz-roe deitar. piao 
dormi. 

No dia seguinte recebi uma carta de Julia: 
assim se chamava a mais veiha, a mais sen$ivel 
e a mais carinhosa das tres irmans, 

« 

bilhete parecia indifferente; nSo continha 
senao palavras usuaes, pedia-me que fosse al- 
mogar com ella. . . nao fallava pas irmans. 

Sentl que era chegada a minha bora, ps^re- 
ceu-me que ia ser expulso d'aquelle Eden de in- 
nocencia era que tinha vivido. A lettra de Julia, 
uma lettra linda, perfeita, natural, figurava-se- 



l^p DIQ ^S^r^S^dQ 4e signals c^ballisticp^ ^r- 
riveis qqe mcpj-favp 9 fflystepQ ^a ipiph^ pon- 



!t3» 



Yesti-me, fui, achei-me so com Julia no par- 

Sdbre cavallete estava meu retratto csbo- 
(^do, n^ (is^sntp da harpa uniji rpman^a f»an- 
fiP?ft » <JB§ ?" tiPha fejig lepras por|ng|ie?{|^, , , 

A urna assoviava sdbre a mesa, Julia fazia 



ll prepisp que §u te ^espreva a pequpDf lu? 
ll§ -^Pljetft pflinuft p^S ihe phamayanios- nqs, 

fis 4ua? mm ft ?h <jve r|vaii?p{i|nos ^ qujd 

Ihe hayia de querer mais. , , 

Oh I que 88v|dad|! ? qup renjorsq pftr* W^a a 
qtinba vjd^ n'es^s rpporda^^e§ ^g fr9(§fpa) in- 



• '•■ •'» > 



t'APIttJLO XtVl 

Carta dtt Carlos k Joainninha : cbtttinua 

Julia levanlou finalmente para mim os sens 
olhos humidos, assombrados das mais longas e 
assedadas pestanas que ainda yi em olhos de 
mulhef, e disse-me : 



200 VIAGENS 

— 'Carlos, eu eslou triste. Devia consolar- 
me ; diga-me algnma coisa que me console. Fai- 
le-me.' 

— *Que heide eu dizer?. . .* 

— *E um cavalheiro, Carlos: diga-me que o 
6, e desassombre-me d'este terror em que es- 
tou.' 

— *Pois duvida, Julia?. . / 

— *N5o duvfdo. Queremos-lhe todos muito 
aqui. . . muito demais. . . receio: como have- 
mos de duvidar?* 

—'Oh Julia, perdoe-me!* exclamei eu lan- 
^ando-me a seus pes, tomando-lhe as maos am- 
bas nas minhas, e beijando-lh'as mil vezes n'um 
paroxysmo de verdadeira conlriccao. Terdoe- 
me, Julia: bem sei que fiz raal, e prometto. . .' 

— *Nao promelta nada, senao que hade ser 
cavalheiro. Isso sei eu e sinto que o pode cum- 
prir.' 

— *Juropor. . . por ella/ 

— 'Ella! . . . Ella ama-o, Carlos, t melhor dl- 



NA MINHA TERRA 201 

sser a verdade de uma vez, e incarar todas as 
coDsequencias de uma posi^ao di£Bcil, do que 
illudir-se a gente sem as evitar. Laura ama-o, 
mas nao deve nem pode ama-lo. Se fosse livre, 
nao sei o que diria — nao sei o que faria eu. . . 
Mas nao se tratta de mim*— proseguiu com vo- 
lubilidade febril— *nao se Iratla de mim, Car- 
los, tratta-se d'ella. Laura nao o pode amar, esta 
compromettida. Hade partir em tres mezes para 
a India.' 

—'Para a India!* 

—•Sim: 6 verdade: vel-o-ha. seu noivo e 
capitao ao servigo da companhia, e parte em 
casando.' 

Eu sentia-me morrer o coragao dentro do pei- 
to : foi a primeira dor verdadeira d'alma que sof- 
fri . . , Aquelle era o primeiro amor sincero da 
minha vida, e aquella foi tambera a primeira 
excruciante pena d'amor por que passei. 

Eu que de taes penas zombara sempre, que as 
desterrava da realidade para os romances, eu ! . . . 
Ai ! que poeta ou que novelista soube punca pin* 



i 



SOS VIAdBNS 

tar urn padecer como du experimentei n'aquella 
bora? 

N3o s6l D qti6 fiz hem 6 que didse ; nao ihe te- 
cbrdo senSo que sent! as laghytuas de Julia ca- 
hirem-me sdbre a face e misturarem-se com as 
ininhas qtie corriam em abiindancia. LeVatiteios 
blhos para eila, e a expressed que vi hos seus . . . 
oh! como a heide esqilecer nuncaf 

Quanto ha de piedade e compaixSo no the- 
souro infinito de um cora^ao fetninino se derra- 
mava d'aquelles olhos celestes para me consolar. 
La iiSo ficava senao iima tristeza profunda, des- 
animada e mortal ... 

Nao sei que vago pensamento, que idea lou- 
ca . . . ou antes, que presentiinento indetermi- 
hado i confuso m6 atravessou pelo espirito— 
ou seria pelo cora^So?— n'aqiielle momento. . . 



Se Juiiai^ 



• • • 



Mds h^O podd Sei*. 

^^Julia, Julia*, bradei eii, ^quero ve-la: hei- 






dfe ve-la linia Veziomeiios. Nad m^ negud este 
iiltinio tevor. Sei qiie devo, qlie preciso, qiie 6 
for^osb fugir d'ella. Mas antes heide dizer-ihe . . . 

— *0qu6?... 

— 'Qde ft amo comb nunca tktsMi 6oitio fiufaca 
niais heide amaf . ; . 

•i-'Ai Carlos I' 

• ^" 
. •^'Que para sempre, sempre. t .* 

lulja letaiitou-se sem dizer palavi'a, e Jian^aii- 
do s6bre miiii urn olbar de ioefTavel compaixSo, 
sahiii r^pidamente do quarto. 

Achei-me so, n3o sei o que pensei nem se pen- 
Si^i. Seiitia-ttid atufdldd da cabe^a, fexhausto do 
cbfds&o— n'liitla depressSo d*e§pirito que tocavd 
ta estupidel S6 iue apoutassem uma pistola aos 
peitos, nao ievantava o brafO para i artedai* . . \ 
Ja nSo ^entia peha nem desejo. Parecid-me qiib 
come^ava a ihotref ; i li&o aehavd qbe tnorrei* 
tbstaSse muib. 

N'este estado tiquei nSb sbi qde ielbpbj buiio 



804 VIAOEMS 

nao foi. Percebi que se abria a porta, nSo tive 
for^a para levantar os olhos. Ate que senti uma 
doce e querida luio na minha ... era Julia . . . e 
era Laura tambem . . . sancto Deus ! que estavam 
aope de mim ambas. 

 

Julia tinha a minha m9o na sua ; e Laura in* 
costada ao hombro da irman, deixava cahir sdbre 
mim aquelles olhos em que a severidade habi- 
tual se tinha rclaxado n'uma indulgencia tarn 
doce, n'uma compaixao tam celeste que, juro por 
Deus, n'aquella hora acreditei firmemente que 
tinha deante de mim dois anjos sens, baixados 
nas azas da piedade divina para me trazer todo 
perdao, toda a misericordia do c^o a minha 
alma. 

Como te direi cu, Joanna, querida Joanninha, 
como te direi a ti que me amas, a ti que eu amo 
— porque te amo, e Deus me castigue que deve I 
porque te amo, cegamente te amo com este in- 
fame e abominavel corajao que Elle me deu— 
como te heide eu dizer a ti, e para quS, as pa- 
lavras que alii dissemos, os protestos que alii fiz, 
OS juramentos que alii se deram, as promessas 
que alii foram trocadas? 



NA UTHBk TERRA 205 

Jalia foi para a janella— indulgente chaperio 
que nos nao via e fingia n9o nos ouvir. dia 
passou-se assim, um longo dia de junho que tarn 
cur to e rapido nos pareceu. Era noite quando 
fomosjantar. 

k mesa Laura appareceu em trajos deviagem : 
partia n'aquella noite para o paiz de Galles onde 
tinha uma amiga, com quern ia estar ate o dia 
terrivel, e preparar-se para elle, me disse, longe 
de mim, no seio da amizade. 

Imagine-se aquelle jantar. Nem comer fingia* 
mos. Ao sahir da mesa achamos a porta da casa 
a calecbe posta, o cocheiro na almofada, e o 
criado a portiohola. Montamos, as tres irmans 
e eii. 

Eram duas milhas d'alli a estalagem onde to- 
cava a malla-posta e onde Laura devia incon- 
tra-la. Fizemo-las sem proferir palavra nenhum 
dos quatro. 

A lua ia grande e bella com sua luz triste e 
fria por um ceo sem nuvens. Era uma d'aquel- 
las noites raras, mas admiraveis do breve estio 
britannico. 



h fim ««P mm ^m 9 »Hntfl d^ re^ ^^ 

pprrqagejp p^s li^p ri{fi5 4o p^rqufi, qg yaflips 
4psc^l}j(i9s das ftFVore^ pflF qup roggyaqBps Ipver 
pj^fltp po psss^f , OS Yeadps mpsqs gftp se I^vap- 
tavam para nos ver— os phaesaes q^ig §FSH!^^3 
seu rasteiro voo de moita para moita ao sentir 
estalido de chicote^ com gfie o eacbairo oiais 
moderava de que excitaY^ es aeus cayallos, tudo 
para mim ecam imprefsoeg i^ fiiuiea ae^tida e 
iQ^xplioavel tris^esa. FiQ(iva-i»d a aliqa apos tudo 
aquillo, sentia fugip-me a felicidada pe^ra $mr 
pre, e que era eu que a afugentava, e que me 
ia encontrar so, desamparado e proseripte no 
deserto da vida. 

N8o me sentia fir^a para blaspbemar, para 
maldizer de Deus, senao tinha-o feito. 

Tinha: e outras ancias ipais aq^ustiadas e 
mortaes me tern affljcto na vida; em npnhuma 
me senti tarn capaz de renegar de Deus e de$- 
crer d'elle como n'esta. 

^epa effe}t9 ^f ^M jo^xhauriv^l piedJ(4e qn? 
litlvez q^iz acuidir a ininha alm^ ^i^tes que se 
perdesse, seria por certo— pois n'es^^ |i)f§p.^ 



NA MINSA TEBBA |P7 

jf^st^pte distjoptaipeot^ me app^receu (}e^pte (lo^ 
plhos d'alma a mica imagem que podia chaa)4'I{^ 
(]o abysoiQ : exd^ a tua, Joanna I £ra a minba Jopn- 
]||nha pequena^ inpocente, aquelle anjiuho de 
crianfa, tain viva, lam alegre, taw graciosaq^e 
eu tinb^ deixadq a brincar no nossp yalle: o 
nosso valle rustico, t|im grosseiro e tam inculto! 
oh como as sauds^des d'elle mq foram alcan^ar 
no meio d'aquellas alinhadas e perfeitas bellezas 
da cultura ^rif^npica I Os raios verdes de tf us 
plhos, faiscantes cpinp e^ippraldas, atravessararo 
o espaco, e foram lu^ir no ipeio d'aquell'outfos 
lumes que me cegavam. A esteva brava, o tojo 
aspero da nossa charneca mandayam-ine ap Ipn- 
^e as exbalac5es de seu perfume agreste, e (pa- 
tavgm suave cheiro do feno macio d'essas rel- 
vas sempre verdes que me rodeavain. As folhas' 
crespas/sgccas^ alvacentas das nossas oliv^iras 
como que me luzian; por entre a espessura cer- 
rada da luxuriante vegetajao do norte, pro- 
mettendo-me paz ao coracao, annunciando-me 
p fin^ de uma peleja em que m'p dilaceravapi as 
paixoes. ' 

E tu, Joanna, tu, pobre jnnocente) desvsdide^ 
criappinbcij tu apparecms-me no Pfipjo de^ tudp 



208 VUGBNS 

isso, extendendo para mim os teus bracinhos 
amantes como no dia que me despedira de ti 
n'essefatal, n'esse querido, n'esse doce e amargo 
valle das minhas lagrymas e dos meusrisos, onde 
so me tinha de correr os poucos miDutos de fe- 
licidade verdadeira da minha vida, onde as ver- 
dadeiras dores da minha alma tinham de m'a 
cortar e destruir para sempre . . ^ 

Oh I de qu6 e como 6 feito o homem, para quft 
e porque vive elle? Que vim eu, que vimos nos 
todos fezer a este mundo? 

Eu sentado alli nas almofadas de seda d'aquella 
aplendida e macia carruagem, rodeado de tres 
mulheres divinas que me queriam todas, que eu 
confundia n'uma adoracao mysterjosa e mystica 
^c^go, louco d'amores por uma d'ellas, no me- 
mento de Ihe dizer adeus para sempre . . . eu tinha 
pensamento fixo n'uma crian^a que ainda an- 
dava ao collo ! — Revendo-me nos olhos pardos 
de Laura que eu adorava, eram os teus olhos 
verdes que eu tinha n'alma ! Os sentidos todos 
embriagados d'aquelle perfume de luxo e civili- 
zacao que me cercava,— era o nosso valle rus- 
tico e selvagem o que eu tinha no coracao . . . 



/ 



NA MINHA TERBA 209 



Oh! eu sou urn monstFO, um aleijao moral 
deveras, ou nao sei o que sou. 

Se todos OS homens serao assiiu? 

Talvez, e que o nao digam. 

Joanna, minha Joanna, minha Joanninha 
querida, anjo adorado da minha alma, tem com- 
paixao de mim, nao me maldigas, nao quero 
que me perdoes, nem tu nem ninguem, que o 
nao mereco: mas que tenhas do e lastima de 
mim. 

Ail que isso mereco eu, oh sim. 

Deixa-me parar aqui. Falta-me o dnimo para 
me estar vendo a este terrivel espelho moral em 
que jurei mirar-me para meu castigo, d*onde 
estou copiando 6 horroroso retratto de minha 
alma que te desenho n*este papel. 

Sabia que era monstro, nao tinha examinado 
por partes toda a hediondez das fei(5es que me 
reconhego agora. 

Tenho espanto e horror de mim mesmo. 

14 



CAPITUIO XIVJI 

Carta do Carlos a Joanninba : contintia 

Chegamos ao Inn (estalagem), triste casa $pli- 
taria no meio dos campos A bprda da estrada, 
A malla chegava ao mesmo tempo quasi. 

Eu dei a mSo a Laura para sahir da caleche 
e entrar no coche ; e apenas tivemos tempq parft 



812 VUGBNS 

um convulsivo shake-hands e para nos dizer 
adeus ! adeus I com a affectada seccura que eii* 
ge a lei das conveniencias britannicas. 

A malla partiu ao grande trote . . . e dir-te-hei 
a verdade ou queres que minta? Mao, heide di- 
zer-te a verdade. Pois senti como um allivio 
desesperado, uma consola^ao cruel em a ver 
partir. Senti o que imagino que deve sentir um 
inffirmo depots da operajSo dolorosa em que Ihe 
amputaram parte do corpo com que ja nao po- 
dia viver, e que era for^oso perder ou perder a 
vida. 

Tambem deve de ser assim a morte: um des- 
canso apatbico 4 bkll^ d«p(ji^ lie inexplicavel 
padecer. 

Era como morto que eu estava ; nao soffria pois. 

B Jd fiSo pens(&tft em ti^ jeile BStf tiA fltt ini- 
dha ttli^ut I ete tiao txintitii ^stitra alll 

Yoltamos ao parque ; apeei silenciosamente as 
ttii(h«d dUas Mentis cmpiiMmi e m Mi so, 
« {!«, (^m pSim iirine e. tmMO pith d Ittiaba 



NA IQfiSi TIRRA lit 

pern disse Badft> wm tentou poosolafeme. Papat' 

L. William R. chegava, na manhan seguinte, 
(ie pipa 4^ suas hal^ituaes excur^p^si a Lopdfes. 
Yejij yerTine assira que f |iegpw, q tr^zer-ipe caf? 
t9§ de Portugal que eii pspprftv^ l)a piuito.T:^ 
pjs^erme que pgrti^ no Qutjp dia p^ra Siysfpsei^/ 
^ terra de Galley para ppdp hmh f^M 5 ^ W? 
jjl^ incarregava de faafef companbia 4§ fjuas fir 
lj)a§ que flcayanf sqs. , 

A. mimt . . . 

Estive tres dias sem as ver : om todos tres nao 

' .' • •  • » 

fiz mais do que escrever a Laura, 

No quarto dia fui ao parque. Julia deu nm 
grito de alegria quaudo me viu: raro exemplo 
de excepijao as fdrmuladas regras que tyranni- 
^am a vida ingleza, que prescrevem at^ a cara 
com que se hade morrer, e teem graduado e torn 
em que se deve exhalar o ultimo suspire. 

' Has a natureza ^hpga tftriumpba]^ is'vazes 
at6 da propria ettqueta britduuioa. 



tli VUGBN8 

Julia cnidava que eu nlo queria voltar aqndla 
<*^sa, tinha-se resignado a nSo toroar a ver-me; 
nSo pdde reprimir a alegria que Ihe causou a 
minha inesperada appari(9o. 

Passamos todo o dia janctos e sos : quasi todo 
6e DOS foi passeando no parque, ou sentados a 
sOmbra de seus espessos arvoredos, ou mirando- 
DOS nas crystalliuas aguas de uma vasta represa 
povoada de aves aquaticas e rodeada d'aquelles 
iromensos mantos de velludo verde de que per- 
petuamente se infeita a terra ingleza e que so 
desapparecem quaudo vcm o hynverno cxten- 
der-Ihe por cima seus alvos len^oes de neve. 

Quiz ver o que cu escrevia & irman; dei-Ihe 
a carta, leu-a, meditou-a, restituiu-m'a sem di- 
zer palavra. 

Que horas passamos n'este silencio, n'esta 
eloqueole mudez que nSo vem senao do muito 
de mais que a alma seute, do muito de mais 
que diria se fallasse I 

A despedida, essa noite) deu-meuma bolsade 
rede que Laura tinha estado fazeudo para mim 



NA MINHA ttlBRA filS 

e que Ihe deixara para me intregar. Senti qae 
tinha dentro o que quer que fosse a bolsa, nSo 
quiz examinar. Achei, quando voltei a casa, que 
era o fadado einto de vidrilhos pretos que eu 
tanto tinha admirado em certo baile onde fora- 
mos junctos, e que Laura nao deixdra de pdr 
nunca mais em se vestindo de branco e que fi- 
zesse alguma toilette. 

Ainda o conservo aquelle cinto precioso, JoatH 
na ; ainda o teoho; no meu thesoiro mais guar^ 
dado, aquella joia, aquella rcliquia. E amo-te, 
e amo-te a ti so como realmente nunca amei 
nem poderei tornar a amar. Mas aquelle cinto 
6 uma sorte, urn talisman, um amuleto em que 
esta meu destine. 

Amei . . . isto e, amei . . . pois sim, amei, ja que 
nao ha outra palavra n'estas estupidas linguas 
que fallam os homens ; pois amei outras mulhe** 
res, e nos dias de maior enthusiasmo por ellas, 
nao deixei nunca de beijar devotamente aquelle 
cinto, de o appertar sdbre o meu cora^Io, de me 
incommendar a elle^como o salteador napoli* 
tano se incommenda ao escapulario da madona 
que traz ao peito, com as mJios insanguentadas 



de mata(, ou ^arr^gadp dp i^onbo q^e apabft de 
fazer. 

Aj, JaaQoa, qSq te digo eu que ctstpu perdir 
do, sem rempdjp, e qu^ para mm mo ba, mq 
p64e bayer salyafap nunqa? 

Vivi assim dois mezes. {^aura ngp rQB escF^r 
via: recebia as minhas cartas e respondia a Ju- 
lia; por e$te ippdo nos pprrespondiamos. ^ffilia 
era parte de i\(^^y era uipa pprcao do nos8o ^or, 
yiyiaipos n'isllg a nossa yida. E! ja as confundifi 
ambas ppr ta} poodp qo ipei) coracao, que \o^ 
surprebeudia nao saber ^ qu^l queria piajs. Jujia 
parecia f^liz d'est^ estado: eu efa-o. Ipsensiv^l- 
mente me habituei a elle, ja uao tinh^ saud^d^^ 
do passado. E quando se approximou o casaraen- 
\Q de L^ufq, que el)a tinba dp voltar de Galles, 
e que pu, fiel ap que promettfira, d^^ift pretext 
tar negoGiQ urgputissirpo em Londres que me 
obriga^se a ausei^far-mp at^ 4 su£^ par^jda para 
a Judja, eu \iw^ uma pena, uma difficpldade 
m cumprir p que promptt^r^ qup pie invergp- 
ubava. 

Parjii ppr^na; e alii lup deiuotpi \\m mpss. Julia 



NA HINHA TERRA 217 

escrevia-me todos os dias e eu a ella. Na ves- 
pera do dia fatal em que Lanra ia ser de outro 
homero, Julia escreveu-me estas palavras sos: 
— *0 nosso romance acabou; comega uma his- 
Horia seria. Laura manda-lheoseuultimoadeus/ 

E Dunca mais se escreveu nem se pronunciou 
nome de Laura entre nos dois. 

galeSo que me levava para o Oriente as 
ruinas de toda a minha esperanga ha muito que 
navegava; entrava outubro e o hynverno inglez 
com suas mais asperas, e n'este anno tarn pre- 
coces, severidades. Eu senlia-me morrer de tris- 
teza e de isolaroeuto no meio da populosa e tur- 
bulenta Londres. Julia percebeu-o, emandou-roe 
voltar a— shire. Yoltei. 



CAPITUIO XLVIU 

Carta de Carlos a JoanDioha : continika 

que eu senti quando, apezar detam desfi* 
gurados pelos tres-altos de neve que os cubriam, 
comecei a reconhecer aquelles sitios da vizi- 
tihanga do parqtte, e a confrontar as arvored, o.^ 
pasties, os casaes d'aqucUes arredoresi 



220 VIAGENS 

Era outra a expressao de physionomia da pai- 
zagem, mas as queridas fei^oes eram as mesmas 
e uma a uma Ih'as ia estremando. 

Emfim meu stage parou a entrada do par- 
que, e eu tomei a pe pela longa avenida. Eram 
nove horas da manhaDj e a manhan brumosa, 
fria, mas o tempo macio, nao estava cru, segim- 
do a express! va phrase do paiz. 

Por entre a nevoa que me incubria a antiga 
mansao e involvia as arvores circumstantes n'um 
sudario cinzento e melancholico, fui caminhan- 
do, quasi pelo tacto, ate meia alameda talvez. 

Parei a refleptir na |i{iBba po^igSo e no que 
eu ia ser n'aquella casa que de novo me abria 
suas portas hospitaleiras, auando, atravez da 
neblina brancacenta e onde ella era mais rara, 
descubri um vulto que vinha a mim de entre 
a^ arvqre? rip pgrque. 

irnlto eia d^ roulher ^ pat aeia fima somb^t, 
uma appariclQ ph^ntastiea em m»\o d'aqnellii 
scena mystQriQ^a, so, tri^te. 



NA ni^hk fcRBii fial 

• Hi dtetdiicid fi^iirdta-se-itife Hlto eA d^ifaa- 
Hh: M\A Mo ^rd ndtii pddia slih Jtilia k mm 
dittiinUta e delieada de qaatit^s fadtts bdUitas i; 
g^aelbsa§ ttleitt tri^sidd Varitihtt do eotidSo. Latl^ 
ra . . . ai ! Laura tarn loDge estava d'alii u : Quefi) 
seria pois? so se fosse I . . . Quern? 

Aquella elegahcin^ aquelie dabello ^6\io e an- 
nellado, aquelie ar gefitU Mo podia ser^enid 
d'ella . . . 



D'ella quern? 

Aibda te nSd falleii qm^ da flltiitia dfii li^es 
ii^lIaS irmans qtte tile ibcaniavain, Had I'a des^ 
eteti, tl&d VA notii^ei pelo seu iiom^. fieptlgtia^ 
va-me faze-Io. Sta^ 6 ptediO; etista^m^, UStt ha 
remedio. 

* fifaOedrgitia.'.. 

'  . 'i ■. 

Gedi'liilia que td eotiheeesj G^drgiua qiiei . . 
eta 6ebFgiiia tk ^tte tiiiha a mim li'aqu^Ila -^ 
fatal ou feliz?— manhan f GMai'giflA qoe de lodas 
tres era a que menos me fallava, que eu verda- 
a^raiiieiiM lueiiog^ ceahftdia. 



tn VIAJ6BM8 

. Este oieu cora$3o, a fdr$a de ferido e de mal 
curado que tern sido, presseute e adivinha a& 
mudan^as de tempo com uma dor chronica que 
me da. Pressenti nao sei qu6 ao ver approximar^ 
se Georgina ... 

— 'Como foi bom em vir! Estou realmente 
feliz de ver. E Julia, a pobre Julia, que alegria 
que vae ter, hade cura-la de todo/ 

— <Poi8 qu6! Julia estd doente?' 

»'NSo sabia I . . , Ai 1 nSo, hem sei que nio : 
ella n9o ]h*o quiz dizer. Julia esta doente; mas 
nSo e de cuidado. Eu sempre quiz advirti-lo an- 
tes que a visse, por isso calculei as boras do 
coche e vim para aqui espera-lo/ 

£stas palavras eram simples, nSo tinham nada 
que me devesse impressionar extraordinariamen- 
te, e lodavia eu sentia-me agitado como nunca 
me sentira. Olhava para Georgina como se a 
visse a primeira vez, e pasmava de a ver tarn 
belia, tam inleressante. 

£ uma situa^So d'alma e$ta que nao sei que 



NA MINBA TSBRA S23 

a descrevessem ainda poetaB nem romancistas : 
ciesprezam-n*a talvez, ou nao a conbecem. Esti 
recebido que as subitas impressoes causadas por 
mu primeiro incontro sejam as mais interessan- 
tesy as mais poeticas. 

Eu nSo nego o effeito theatral d'essas prime!- 
ras e repentinas sensa^oes; mas sustento que 
interessa mais ess'outra inesperada e extranha 
impressSo que nos faz urn objecto ja conhecido, 
que viramos com indifferen^a at^alli, e que de* 
repente se nos mostra tam outro do que sempre 
tinhamos considerado ... 

Mas esta mulber 6 bella realmente! E eu que 
nunca o vi ! Mas aquelles olhos sao divinos ! On- 
de tinha eu os meus at^gora? Mas este ar, mas 
esta gra^a onde os tinba ella escondidos? etc» 
etc. 

VSo-se gradualmente, v9o-se pouco a pouco 
descubrindo perfeigQes, incantos ; o sentimento 
que resuita i mil vezes mais profundo, mais fun- 
dado, sdbretudo, que o das taes primeiras im- 
pressoes tam cantadas e decantadas. 

Que mais te direi depois d'isto? Entramos em 



c^sa, il mik, miAindi de Laura ifidittf 6 Miiilo^ 
Usis eii ja b n^o fls eotti o entbusiasitidlj cdttt ft 
eidinira^ao exeltt^iVa toih que d'atites o fasld . : * 

Julia recobrou, breve, ft saUde, e coni ella b 
equilibrio do espirito. Renovou-se todaaalegria, 
iodo incanto das nossas converssi^Des intimas, 
dos nossos longos passeios. Laura lembrava 
com saudade, mas suavizava-se^ imbfandecia 
graduaimeate aquejla saudade. 

Georgina, que at6a|U parebia impenbar'se 
em se deixar eclipsar pela irman, agora, auseote 
ella, bfilbetTii de MA A sdft M, efn gfaea,- em 
tspiritd, pot tim natural Sliigete fe frdrico, pdr 
iiiha excjilisit^ AotniH de nislticflrat^, Be t02, At 
e^prcsftSo, db ttodd: 

Julia revia-se n'ella, e eu acabei pela adorar. 
Vergonba eterna sobre mim! mas e a rerdade: 
.quiz-lhe mais do que a Laura, oil pareceu-ine 
jquerer-lhe mais . /. que tanto vale. 

Eu sei I . . . Nao, nao Ibe queria tanto. Mas 
iibK^i- 



NA MINHA T£R]IA 226 

Amei, sim, e fui amadol 

Tres mezes durou a minha felicidade. E o mais 
longo periodo de ventura que posso coDtar na 
vida. Falsa ventura^ mas era. 

A imperiosa lei da honra exigiu que nos se* 
parassemos, que partisse para os Azores. Fui* 
Ninguem sacrificou mais, ninguem deu tanto 
como eu para aquella expedi^ao. A historia fal- 
lara de muitos servigos, de muitas dedica^Ses? 
Quern sabera nunca d'esta ? 

A his(6ria 6 uma tola. 

Eu nao posso abrir um livro de historia qui^ 
me nao ria. Sdbretudo as ponderagoes e adivi- 
nhagSes dos historiadores acho-as de um comicd 
irresistivel. que sabcm elles das causas, dos 
motivos, do valor e importancia de quasi todo8 
OS faclos que recontam? 

Ainda nSo sei como parti, como cheguei, como 
vivi OS primeiros tempos da miuha estada n*a- 
quelle escolho no meio do mar, chamado a flha 

15 



S26 Y1A«BN8 

Terceira, onde se tiDham rfiAigiado as pobrcs 
reliquias do partido constitucional. 

flabituei-me porfim. A que se nao affaz o 
homem? 

Levaram-me uma tarde a grade de um con- 
Tento de freiras que ahi havia. meu ar triste, 
distrahido, indifferente, exciton a piedade das 
boas monjas. Uma d'ellas, joyea, ardente, apai- 
nonada, quiz toinar a empresa de me conso]ar. 
Nio cofiseguiu, coitada I men coraglo esta- 
va em— shire em Inglaterra, estava na India, 
estava no valle de Santarem, 

Pelo muBdo em pedacos reparlido ; 

estava em toda a parte, menos alii, onde nada 
d'elle estava nem podia estar. 

Era Soledade que ^h chamava a freirinba) k 
com d seii Home ficou. Disseram o que qiiize- 
ram os falladores que nunca faltam, mas menti- 
ram como mentem quasi sempre, inganaram-se 
bomo se inganam sempre. 

Eu nfio amci a Soledade; 



E comiudo leitlbro-ttie d^Slla toiti p^ha, com 
sympathia . . . Se ^li sou feitb assiiii, rtieti Deus, 
c stssirti heide iiiorrtr! 

Yiemos para Portugal: e o resto agora da 
minha historia sabes Iti. 

Cheguei porfim ao bobso valle, todo o pasiado 
me esqueeeu asfiim que te yL Amei-te. • # uSb, 
nao 6 Ycrdade assim . Conheci^ mal que te vi eft* 
tre aquellas arYores^ i Inz das estrellas, conheci 
que era a ti so que eu tinha amado sempre, que 
para ti nasc6ra» que teu so doYia ser, se eu aiuda 
tiYera coragao para te dar, se a miuha alma 
fosse capaz, fosse digna de junctar-se com essa 
alma d'aDjd que em 11 habita. 

Nio ky Joatma ; bem o y^s, bem o sentes, comb 
^tt mtito e Yejo. 

!l^tt sim tinha nascido para-gozar as do^urad 
da pasB e da fdllcidade domestica ; fui creado, es- 
ibU cerio, para a gl6ria tranquiila, para as dell- 
eias modestas de um bom pae de familias. 

Mas Mo qiliz a iuinha estrella. Embriagoti-^ 



228 VU6EN8 

se de poesia a minha imaginafao e perdcu-sc : 
nao ine recobro mais. A mulher que me amar 
bade ser infeliz por fdr^a, a que ffle intregar o 
seu destino, bade y£-1o perdido. 

N9o quero, nSo posso, nSo devo amar a niii- 
gaem mais. 

A desoIa^So e o oppr6brio entraram no seio 
da nossa familia. Ea renuncio para sempre ao lar 
domistico, a tudo qaanto quiz, a tudo quanto 
posso qucirer. Deas que me castigue, se ousa fa- 
zer uma injusti^a, porque eu nao me fiz o que 
sou, nSo me talhei a minha sorte, e a fatalidade 
que me persegue nSo e obra minha. 

Adeus Joanna, adeus prima querida, adeus ir- 
man da minha alma I Tu accompanha nossa avo, 
tu consola esse infeliz que £ o auctor da sua e 
das nossas desgra^as. Tu, sim, que pedes, e es- 
quece-me. 

Ett, que nem morrer ja posso, que vejo ter- 
minar desgrajiadamente 6sta guerra no unico 
momento em que a podia aben; oar, em que eHa 
podia felicitar-me com uma balia que me man- 
dasso aqui bem direila ao coragao, eu que farei? 



MA HINHA TBBBA 229 

Creio que me von fazer homem politico, fai- 
lar muito na patria com que me nSo importa, 
ralhar dos ministros que nao sei quern sSo, pal- 
rar dos meus services que nunca fiz por vonta- 
de; e quern sabe?. . . talvez darei porGm cm 
agiota, que i a unica vida de emo^oes para quern 
ja nao p6de ter outras. 

Adeus, minha Joanna, minba adorada Joanna, 
pela ultima vez, adeus. 



CAPITULO XlIX 



De com9 Carlos ge fez l)ar9o,~Fi«) da bistdria it Joanni- 
nha.— Georgina abbadessa.— Juizo de Frei Djniz 86br9 
a questSo dos frades e dos barOes.>-*Qae nSo p6de tor- 
nar a ser o que foi, mas muito menos p6de ser o que 6. 
O que hade sen Deus o sabe e proverA.—- Ytf p A* dor- 
mir ao Gartaxo.— Sonbo que ahi tern. — Yolta a Lisboa. 
. — Gaminhps de f^rrQ e de papel. — GonclugSo da Tiagem 
e d'esle livro. 



Acabei de lar a earta da Carlos, iQtreg^eUa n 
Frei Diniz em silencio. Elle tornou-me : 



tSI YUGSNS 

-—'Que mais quer saber? Sinto que Ihe posso 
dizer tudo: nio o conhe^o, mas. . /• 

—'Mas deve conhecer-me por uno^ bomem 
que se interessa yivamente . . / 

—'Em qu£! oas elei(0es, na agiotagem, nos 
bens nacionaes?* 

— 'NSo, senhor. Fui camarada de Carlos, n3o 
vejo ha muitos amios e . . / 

— 'Nem conhecia se o visse agora: ingor- 
dou, inriqueceu, e 6 barao . . / 

— 'Bar8or 

«-'£ bario, e vai ser deputado qualquer dia.' 

—'Que transforma(So I como se fez isso, san- 
cto DeusI E Joanninha e Georgina?' 

— ' Joanninha inlouqueceu e morreu. Georgina 
6 abbadessa de um convento em Ingfaterra/ 



^ MA MIHHA TIBRA S33 

--^Abbadessa?' 

— *Siin. Gonverteu«se a commanhSocatholica, 
era ricca, fundou urn convento em— shire, e la 
esta servindo aDeus/ 

— 'E 6sta pobre se&hora, a av6 de Joanninha?' 

— 'Ahi estd como a ve, morta de alma para 
tudo. Nao ve, nao ouve, nSo falla, e n9o conhece 
ninguem. Joanninha veiu morrer aqui n'esta fa- 
tal casa do valle, eu estava ausente, expirou nos 
bra; OS della e de Georgina. Desde esse instante 
a av6 cahiu n'aquelle estado. Estd morta, e nSo 
espero aqui senSo a dissolufSo do corpo para o 
interrar, se eu nSo for primeiro ; e Deus queira 
que nSoI quern hade tomar conta d'ella, ter cha« 
ridade com a pobre da demente? Mas depois. . . 
oh ! depois . . . espero no Senhor que se compa- 
dej^a emfim de tanto soffrer e me leve para si!* 

•-'Mas Carlos? r 

—'Carlos k bario: nSo Ih'o disse ja?' 

~'Mas por ser bario?. . / 



SSI TUfliN$ 

— 'Nao sabe o qae e ser barSo?' 

-r?<Ob ae m I Tan) fK)ucos temos bos?' 

-*Tois barao e o succedaneo dos , , ,' 

^'HQf^ Cradea. < . Buim ^absMtui^aa !' 

r~'Yi um do« tA00 papeis liberaea 901 qtie isso 
vinba : e e a unjca coisa que leio d'cssas bd mni* 
tos awos, Maa fiyeram^rn'o ler.' 

rr^E que Iba paseceu?' 

^'Beiq escripto e ^m verdade. Tivemoa cul- 
pa uof, e ceFto; oiaa os liberaes uao tivaram 

rr-*Erparao8 aa)bQ9/ 

--*Erramos e sem remedio. A sociedade ja 
nSo e que foi, nao pode tQPuar a ser que 
era : — mas muito menos aihda p6de ser que 

6. que bade «er>jiSo aei. Opus prawrif' 
Ditto isto, frade beoaeurBe, pegeu w seu 



NA MIMQA TBBRA SSET 

breviario e |M-9d a reaar. A. vaiba dobava sein- 
pre, sampre* Su levaotei-me, contamplei-oa 
ambos alguns segundos. Nenhum me deu mais 
atten^ao nein pareceu conscio da mipha estada 
alii. 

Sentia-me como na presen^a da morte e atter- 
rei'^rae. 

* 

Fiz um esfdr^o sdbre mim, fui deliberadamen- 
te ao m6u cayallo, mortal, piquei dasesperado 
d'esporas, e nao parei senao oo Cartaxo. 

Incpntrei alli os meus companheiros ; era tar- 
de, fomos ficar fora da villa a liospedeira casa 
do Sr. L. S. 

Rimos e folgdmos at6 alta noite : o resto dor* 
mimos a somno aAIto. 

Mas eu sonhei com o ffade, omb a Telba— 
e com uma enorme cooslella^fio de baroes qaa 
luzia n'um ceo de papel, d'onde choviam, como 
faF^rapos da Bevd» u'uma uoita pQllar, Qptasayups, 
Yisrdes, brappas^ amarallaa) da tpdas a« o6re9 a 
matiias po6$ivai«. £ram milbSes a wilbQaa a 
milhoes. . . 



236 vuoMS 

Nanca vi tanto milbio, nem ouvi fallar de 
tanta riqueEa 8eii9o nas mil e uma noites. 

Acordei no outro dia e nSo vi nada . . . s6 uns 
pobres que pediam esmola a porta. 

Hetti a in3o na algibeira, e niio achei senio 
notas . • . papeis I 

Parti para Lisboa cheio de agoiros, de ingui- 
(OS e de tristes presentimeotos. 

vapor vinha quasi vazio, mas nem por isso 
andou mais depressa. 

Eram boas cinco boras da tarde quando des« 
imbardimos no Terreiro-do*Pa(o. 

Assim terminou a nossa viagem a Santarem ; 
e assim termina este livro. 

Tenho visto alguma coisa do mundo, e apon- 
tado alguma coisa do que vi. De todas quantas 
viagens por6m fiz, as que mais me interessaram 
sempre foram as viagens na minha terra. 



NA MINDA TERfiA 237 

Se assim o pensares, leitor benevolo, quem 
sabe? p6de ser que eu tome outra vez o bordio 
de romeiro, e va perigrinando por esse Portu- 
gal /dra em busca de historias para te contar. 

Nos caminhos de ferro dos baroes e que eu 
juro nao andar. 

Escusada 6 a jura por^m. 

Se as cstradas Tossem de papel^ falas-iam, 
nao digo que nSo. 

Mas de metal I 

Que tenha o govSrno jnizo, que as fa^a de 
pcdra, que pode, e viajaremos com rouito prazer 
c com muita utilidade e provcito na nossa boa 
terra. 



3SrOTA.S 



NOTAS 

kO LIVRO SEGUNDO 

Vkhmon lem JSieb^mgen. pig. 7 

Collecgao de anttgds rhapsodias germahicas eon- 
teiido tnaravilho$o e poetico dc suas origens his^ 
toricas e que e p'>ra os povos theiitonicos o qne era 
a liliuda para os helletius. So se nao sabe o nome ai- 

16 



242 NOTAS 

Icmao que as redigiu e uniformisou como hojese 
acham. 

NOTA B 

Garanguejar para as Lamas pag. 7 

Fundo baixo do Tejo, ao longo da praia de San- 
ctos^ que tem esle nome, e c onde vao apodrecer 
as carcassas dos navios velhos e ja inuteis. 

NotaC 

Os p6s DO fender w pag. S 

Pender se chama em inglez a pequcna c baixa 
tea de metal que defende o fogao nas salas, para que 
nao caiam brazas nos sobrados. Descan^am n*elleos 
pes naturalmente quando a gente se esta conforta- 
velmente aquecendo em liberdade. 

NoTA D 

Perfumados respleDdores do Oldrsach, pag* 9 

Tem-se disputado muito s6bre qual seja a bebida 
espirituosa celebrada por Shakespeare tantas vezes 
com este nome. A opiniao mais acceita e que fosse 
boa e velha aguardente de Franca. 



NOTAS 243 

NotaE 

RcDegaram de Santiago por castelhano, pag. 9 

grito de guerra commum a todas as nagoes 
cbrlstans hespanholas era: SanThiago! Quando 
na accessao da casa de Avis nos allidmos intima- 
mentc com a Inglalerra conlra Gastella, come^a- 
mos a invocar San'Jorge. 

NOTA F 
Vacca e riso de Frei Barlholomea dos Martyres, pag. 13 

8iDgela e original expressao do sancto arcebispo 
ii*uma carta de convite a um seu amigo. Fez-se, 
como devia ser, proverbial ^sta phrase. 

NotaG 
Feliz expressao do Sr. Gonde de Raczynski, pag. 128 

Na sua obra intitulada 'Les arts en Portugal', 
Paris 1845. 

NotaH 

ccntro perde o centre de gravidade, o bar- 
bas arrepella as barbas pag. 131 

Gentro e barbas sao qualifica^oes e nomes de 
impregos theatraes. 



INDICE 

Capitjdi,q XTtVIt'ip^MQdo d0 ler pi «uctflr<ja 
aotigaa, p pi i^od^rpos t{imbcim*--*HorapiQ 
na sacr<|-¥ia.«--*|)parte |funp9 iisp^oclastii 
da AQif^ WstorWt-^A ppljda e ps b^r^ofi 
de vjipor,— *0l viindalof do fplU ^yateiiif^ 
que Qon roga.-^ ^I^akespeare Udo em IngUi* 
term n um bom fogo, com uin copo de 
Old'Mapli sdbrp a banoa , »»- ^ir Johi) FaUtaff 
se foi m^w bomem que SiincbP'-P^nSfi}'-* 
Grande q import|inte descoberta <ircbeoIo^ 
gica pobre 3anTi9go» San'Jqrge e $lir Job^ 
Fal4tafr.-*-Pr6va*9e n vioda d*eitp Ultimo 
a Portugal* — poibMsia«ta bntanniop i)q 
(umulo de Heloisa e Abeillard no P^rH<l'' 
Chaise. — Bentham e Gamoes. — Ghega o 

auctor (i sua ]ai^a}]|i, p pa^mos9 fniv^^tm 

poetica produaida por umas pUaviis doi 
LusindaS'^De como emfim prpsegqem ^s* 
tas viagens para Santaremi e qup fejto mi 
de jfpaQ^i^b^ t f ««.,«••«. r f M«<? • f • 

Gapitijlo X3{.Vn.— Cbpgadii a Santarpw^-^^r 
Olivfieft de Santarem, — F(!irardp''VilIa.««-^ 
Symetria que i^ao 6 para os plbos.^Modq 
de medir os versos da biblia.— ; Arcbitoptn- 



246 INDICB 

ra pedante do seculo xvii. — Entrada na 
AlcajoYa »••..• 15 

Capitulo XXVIII. — Depots de muito procu- 
rar acha emfim o auctor a egreja de Sancta- 
Maria d'Alcdcova. — Stylo da architectara 
nacional perdido. — terramoto de 1755, 
marqnez de Pombal e o chafariz do Pas- 
seio-p^blico de Lisboa. — O chefe do par- 
tido progressista portugaez no alcacar de 
D. AiTonso Henriques. — Deliciosa vista 
dos arredores de Santarem observada de 
uma janella da Alcacova, de manhan. — 
£ tornado o auctor de ideas vagas« poeticas, 
phantasticas como um sonho. — Introduc- 
cao-de Fausto. — Difiiculdade de traduzir 
OS versos germanicos nos nossos dialectos 
romanos 23 

Capitulo XXIX. — Doguras da vida. — Ima- 
ginacao e sentimento. — Poetas que mor- 
reram mo^os e poetas que morreram velhos. 
— Gomo sao escriptas 6stas viagens. — Li- 
vfo de pedra. Crianca que brinca com elle. 
— Ruinas e reparacoes. — Id6a fixa do A. 
em coisas d'arte e littcrarras. — Sancta Tria 
ou Irene, e Santarem^, — Romance de Sanc- 
ta Iria. — Quantas sanctas ha em Portugal 
d'este nome? 33 



INDICK 247 

Gapitulo XXX. — Historia de Sancta Iria se- 
gundo OS chronistas c segundo o romance 
popular 43 

Gapitulo XXXI. — Quomodo sedet sola civ i- 
tas. — Santarem. — Portugal em verso e 
Portugal em prosa. — Exquisito lavor de 
umas portas e janellas de architectura mo- 
sarabe. — Busto de D. Affonso Henriques. 
— As salgadeiras de Africa . — Porta do Sol. 
— Muralhas de Santarem. — Voltemos a 
historia de Frei Diniz e da menina dos 
olhos verdes 53 

Gapitulo XXXII. — Tornamos a historia de 
Joanninha. — Preparati.vos de guerra. — A 
morte. — Garlos ferido e prisioneiro. — O 
hospital. — O.infermeiro. — Georgina .... 59 

Gapitulo XXXIII. — Carlos e Georgina. Ex- 
plicacao. — Ja te nao amo ! palavra terrivel. 
— Que amor verdadeiro nao 6 cego. — 
Frade no caso outra vez. Ecceiterum CriS' 
pinus ; ca est^ o nosso FrelDiniz comnosco. 73 

Gapitulo XXXIV. — Garlos, Georgina e Frei 
Diniz. — A peripecia do drama 83 

Gapitulo XXXY. — Reuniao de toda a fami- 



248 iiipics 

lia.>"<EiEp1ioa^a0 dos mysterios.-^O eora* 
cao damulher. — ParricidiQ. — Carlos beija 
cmfim a mao a Frei Dinjz e abraca a pobro 
da avo 91 

Capitulo XXXYI.-- Que nao se acabou a 
historia de Joanninha. — Processo ao cora- 
^ao de Carlos. — Immoralidade. — Defeito 
de organisac^ao nao e immoralidade, — Hor- 
ror, horror, maldic^ao! — Um barao que 
nao pertence i familia lineana dos baroea 
propriamente dittos. — Porta de Atamarma, 
— Senatus consulto sautareno. — Nossa Se« 
nhora da Victoria afforada. — Threnos s6- 
bre Santarem t . . » • . i03 

• 

Capitulo XXXVII. — A Gra(^ e sua bellafa- 
chada gotbica. — Sepultura de Pedr*alva« 
res CabraL — Outro barao que nao e dos 
assignalados. — Egreja do Sancto?mi|agre* 
— Bellos medal boes mosarabes. — Pe como, 
chegando o prior e o juiz, houve o A. vis- 
ta do Sancto-milagre, e com que solemni* 
dades. — Monumento da muito alia e po- 
derosa princeza a infanta D. Maria da 
Assumpcao. — Casa onde succedeq o mila- 
gre convertida em capella de stylo Philip- 
pine. — O homem das betas, e o que tern 
elle qno haver com o Sancto-milagre de 



Santarem,-^ Admirf^vel e grapios4 esperte* 
za da regenoia do Rocio. — Aaroun-el Ar- 
raschid; e theoria dos governos folga^oea. 
OS melhores govarnos possiveis. — Volta q 
paladio scalabitano de tisboa para ^antci* 
rem , ilS 

Gapitcio XXXVIIL— Janlar nos reaes pa- 
cos de AffonsQ Henriques. — Sautes e sa}* 
mis. — Desce o \. i Ribeira de Santarem 
em busca da tenda do Alfageme. — A es- 
pada do Gondestavel. — Desappontamento, 
— salao elegante, Pissipam-se jis id^as 
arcbeologicas« Os fosseis. Tudo melboF 
quando Yisto de longe. — baile publicq. 
— Soiree de piano obrigado,— Theatro, 
DesaSioai^pes da prim 9-dona . — Syphilis 
ipcuravel das traducQoes. Destempero dos 
originaes. — A xaca^a de rigor, o subter- 
raneo e o cemiterio.«r- Sublime gallima- 
tbias do ridicnlo* — A b^lla e necessaria 
palavra 'galljmatbias/ — S^ as saudades 
mattam* — Perigo de applicar q scalpello 
ou a lente ao mais perfeito das coisas hu<« 
manasi. — De como a logica 6 a mais per- 
niciosa de todas ai incph^re^cias ,..,,,, 135 

Gapitulo XXXIX. — Processo de seepticjs- 
mo em quQ esta o auotor.-* Moralises de 



250 INDICB 

requiem. — maior sonho d'esta vida, a 
logica. — Diifercnca do poeta ao philoso- 
pho. — O coracao de Horacio. — O collegio 
de Santarem. — Jesuitas e templarios. — O 
alliado natural dos reis. — 'Ficar na gaze- 
ta* phrase muito mais exacta hoje do que 
*Ficar no tinteiro.' — San'Frei Gil e o Dou- 
tor Fausto. — De como o A. foi ao tumulo 
do sancto bruxo e o achou vazio. — Quern 
roubaria? 135 

Gapitulo XL. — As Claras. — Aventura no- 
cturna. — Se as freiras mettem medo aos 
liberaes? Psalmo. — Tres frades. — Pra- 
ctica do franciscano. — corpo de San'Frei 
Gil. — Que se hade fazer das freiras ! — Mai 
do gov^rno que deixar comer mais aos ba« 
roes 145 

Capitolo XLI. — O roubador do corpo do 
sancto descoberto pela arguta perspicacia 
do leitor benevolo. — Grande lacuna na 
nossa historia. — Por que se nao preenche? 
— Pagina preta na historia de Tristam 
Shandy. — Novellas e romances, Hvrosin- 
significantes. — O adro de SanTrancisco c 
as suas acacias. — Que sera feito de Joan- 
' ninha? — O peito da mulhcr do norte. — 
Vamos embora : ja me enfada Santarem e 



INDICB 251 

as suas ruinas. — A corneta do soldado e a 
trombeta do juizo final. — Ehen, Portugal, 
ebeu ! 155 

Gapitdlo XLII. — Protesto do auctor. — Des- 
affinacao dos nervos. — qu6 6 preciso 
para que as ruinas sejam solemnes e subli- 
mes. — Que Deus esta no Golliseu assim 
como em San'Pedro. — Quer-se o auctor ir 
embora de Santarem. — Como, sem ver^o 
tumulo d'elrei D. Fernando? — Em que 
estado se acba este. — Exemplar de stylo 
byzantino. — Goroa real s6bre a caveira. — 
rei d'espadas e o symbolo do imperio. — 
Quern nunca viu o rei cuida que 6 de oiro. 
— Brutalidades da soidadesca n'um tumu- 
lo real. — que se acha nas sepulturas dos 
reis. — A phrenologia. — Vindicta p6blica, 
tardia mas ultrajante. — Gamoes e Duarte 
Pacbeco. — A sombra falsa da religiao. — 
Regimen dos baroes e da materia. — A pro- 
sa e a poesia do povo. — Synthesee analyse. 
— senso intimo. — Se o auctor e dema* 
gogo ou Jesuila? — Jesu Ghristo e os ba- 
rOes 161 

Capitdlo XLIII. — Partfda de Santarem. — 
Pinacotheca. — Impaciencia e saudades. — 
Sexta-feira. — Martyrio obscuro. — A figu- 



ra 4o pecetdp.— fisUmQs no YaDe putra 
vez.— Evo«sa(ao do incantQ. — A irman 
Francisca e Frei Diniz. — A teia de Peqe- 
lope. — E Joanninba? — Joanninha esta no 
ceu. — A mjilher iqorla a do))ar espera^dq 
que a iiiterrein. — A csperan^a, virtudedQ 
christianisTOO. — Vm car^ ,,,, t ,,,•,., 171 

Gapitplo XUV.— Carl* de Carlps a Joannl? 
Capitulo XLV.<^ Carta de Carlos a Joanni- 



Capitulo XLYL^^Car^a de Carlps a Joappj-* 
nha; co^Uniia* ,., * t ,.,.«*.....•••. « 199 



Capitulq XLVII,^— Carta de Carlos a Joanni- 
nha; opntiqtia , , , , , , , , < ! « • f ? • M 811 

Capitdi.0 XLVIII.--^ Carta do Carlos a Jqan* 
ninba; cQutinpa , , . i « . * t m • 919 

Capitulo XLIX. — De como Carlos sa fei 
barao. — Fim da hisloria de Joanninha. — > 
Georgina abbadessa. — Juizo de Frei Diniz 
s6bre a questao dps frades e dos (taroes. — • 
Que nao p6de torpar a ser o que foi, mas 
muiip w^nos pQd§ s^r quo ^? Q qu^ badp 



/ 



INDICB 253 

ser. Deus o sabe e provera. — ^Vai o A. dor- 
mir ao Gartaxo. — Sonho que ahi tem. — 
Volta a Lisboa. — Gaminhos de ferro e de 
papel. — Gonclusao da \iagem e d'este 
livro 231 

NOTAS 239 



/I 



>v 



1 






5~ 1358 



Oeaddified using the Bookkeeper process 
Neutralizing agent: Magnesium Oxide 
Treatment Date: ^^^ 2DDB 

PreservatlonTechnologies 

A WORLD LEAOU IN MPCR PRESCRVATION 

111 Thomson Park Drive 
Cranberry Township. PA 16066 
(724) 779-2111